O que a vida no campo pode nos ensinar?

  • TEXTO Alessandro Fernandes
  • FOTOGRAFIA ARQUIVO PESSOAL
  • DATA: 05/08/2022

A vida no campo pode nos despertar para diferentes sentimentos, emoções e reflexões sobre a vida. Ela nos dá uma excelente oportunidade de olhar para dentro. Mas, por outro lado, também pode apresentar um lado não tão luminoso assim, como contarei neste texto.


 

Se você vive em uma grande cidade, assim como eu, deve saber o quanto a vida é feita de correria e prazos apertados. Perdemos horas no trânsito e parece que nunca temos tempo suficiente. Bem diferente dessa realidade, as pequenas cidades e as zonas rurais são um ponto de inflexão à rotina exaustiva das metrópoles.

Trocar o ritmo das capitais pelo do campo pode não ser apenas uma oportunidade de trocas culturais, mas também de perceber outros modos de viver e de se perceber diante da imensidão que é o mundo e seus estímulos ao redor.

O sol a nascer, pássaros cantando por todo o lado, o orvalho das plantas brilhando sob a luz, um passeio com meu cachorro e um pedal sem ciclovia ou ciclofaixa, árvores por todo o lado. A vida no campo nos dá uma excelente oportunidade de olhar para dentro. Por outro lado, ela também pode apresentar um lado não tão luminoso assim, como contarei a seguir.

 

Vivências

Quando minha editora, a Carolina Vellei, pediu para que eu escrevesse sobre a minha experiência no campo e sobre o que essa vivência poderia ensinar, senti que isso poderia ser uma tarefa bem complexa.

Apesar de ter nascido e crescido na zona rural do Rio Grande do Norte, sempre desejei me mudar para um lugar bem maior — talvez fosse a adolescência e os desejos para conhecer algo novo e novas pessoas —, embora nunca tenha deixado de aproveitar os bons momentos enquanto vivia no campo.

Meus pais, avós, bisavós e tataravós vieram de lá e todos os meus ancestrais, até onde sei, viveram uma relação de pertencimento e orgulho pela zona rural.

Talvez um dos momentos mais especiais do ano seja perceber a transformação da Caatinga no período de chuvas, que deixa de ser um bioma quase desértico com galhos e folhas secas e se torna um local vibrante, cheio de energia, rodeado de animais e cores.

O humor das pessoas muda, as expectativas em relação à colheita do ano e o otimismo sobre o futuro são diretamente influenciados pela ação das chuvas no solo sertanejo. Para quem vive da pequena pecuária e da agricultura familiar, bons índices pluviométricos significam comida para os animais e terra fértil para o plantio de feijão, melancia, milho, arroz e por aí vai.

 

Um rio com água corrente, ao fundo há plantas e árvores verdes. O que a vida no campo pode nos ensinar.

Rio Espinharas, na zona rural de Serra Negra do Norte, no estado do Rio Grande do Norte. Foto: Arquivo Pessoal

 

Minha avó conta a tristeza e as dores vividas durante as secas nos anos de 1958 e 1983, quando o Nordeste ainda era um lugar de expropriação, pobreza, concentração de renda e terras — não que isso tenha acabado, mas muitas dessas coisas foram, ao menos, atenuadas com o passar dos anos. A seca matava não só a fauna e a flora da Caatinga, mas também as pessoas, devido à fome, à sede e à pobreza extrema.

Pude viver na pele o desespero de sentir a seca à espreita, já que entre 2012 e 2017 – período que foi dos meus 11 aos 16 anos – o semiárido nordestino vivenciou a seca mais longa da história do Brasil. Lembro que nós perdemos animais, a flora e, principalmente, a esperança de que um dia viveríamos dias melhores.

Todos os reservatórios da região onde morava secaram, as cidades ficaram — literalmente — sem água e a indústria da seca lucrou a todo vapor em cima da miséria e do desespero das pessoas. Mas a Caatinga é um bioma resiliente e forte, assim como as pessoas que aqui vivem, com um poder absurdo de se reinventar e florescer.

Viver no campo é poder experienciar as dores e amores de um lugar que historicamente é negligenciado e escanteado quando o assunto é políticas públicas. Mas, calma! Há também momentos incríveis e proveitosos que não são anulados pelos problemas que nos afligem.

O Tempo

O sol toca as folhas e a pele às 5:30 da manhã, todos os dias, e segue até às 17:30 — 12 horas com temperaturas que se iniciam aos 24°C e vão aos 38°C (se estiver no sertão, por favor, evite atividades à tarde).

Ainda assim, a rotina da minha família começa à 1h da madrugada, quando meus pais e tios acordam para ordenhar manualmente as vacas. Todos os dias da semana, sem direito a férias, feriados e “dias santos”, como são chamados os feriados católicos por aqui. É um trabalho cansativo, doloroso, embora necessário para a sobrevivência.

Mas o tempo não é o mesmo das cidades. No campo a gente não passa uma hora no trânsito congestionado para chegar ao trabalho ou presencia os infinitos estímulos visuais da dinâmica urbana.

Minha avó levanta às 5h, rega as plantas, assiste o programa da Ana Maria Braga às 10:30, almoça e segue sua rotina até às 20h, quando as pessoas da minha casa se preparam para dormir.

Os dias são mais longos, as horas passam mais devagar e a pressa para cumprir as tarefas é reduzida, mas não desaparece.

No campo, podemos olhar para dentro, refletir sobre quem somos no planeta e ter um contato mais forte e intenso com a natureza, já que as cidades, infelizmente, ainda possuem poucos espaços verdes e naturais.

Imagem de plantas com a luz batendo sob o orvalho. O que a vida no cmapo pode nos ensinar.

Foto: Arquivo pessoal

 

A vida

A vida, apesar de dura, é recompensada com momentos de comunhão e partilha, como nos festejos locais e nas pequenas conquistas do cotidiano. Espaços menores possibilitam um maior contato com as pessoas ao nosso redor e com o ambiente, criando um laço quase que natural, já que todo mundo conviveu juntos durante a infância, juventude e a vida adulta.

Há quem more na zona rural e prefira a vida urbana e há quem prefira fazer o movimento contrário. Esses sentimentos e vontades são mutáveis, dinâmicos e podemos alternar entre esses desejos ao longo dos anos. Ainda assim, o que vemos hoje é um contínuo processo de êxodo rural — por exemplo, a minha avó tem 14 netos, mas apenas quatro continuam morando no campo —, por falta de oportunidades e expectativas.

A questão é que viver é muito mais do que buscar práticas de autoconhecimento e conexão interior. Também precisamos trabalhar, sobreviver financeiramente e buscar os lugares que nos permitam encontrar uma diversidade de meios para estudar e prosperar.

 

Foto do pôr do sol no sítio.

Foto: Arquivo pessoal

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Ensinamentos

Saber aproveitar os momentos, as pessoas ao nosso redor, acolher e se sentir acolhido é tão importante quanto pensar nas questões materiais. Há dias em que nos perdemos em nossos pensamentos, cedemos espaço demais para nossas mentes racionais e deixamos de viver a pulsão da vida, de sentir o momento como ele é.

Além disso, a simplicidade das pessoas, a cordialidade e o sentimento de companheirismo proporcionam momentos de afeto e conexão com a comunidade. No entanto, as zonas rurais ainda são lugares culturalmente mais conservadores e que ainda reproduzem preconceitos que violentam, simbolicamente, a existência de determinados grupos, como o de pessoas LGBTQIAP+.

Independentemente de mudarmos de cidade, emprego, país ou condição econômica, é importante lembrar e respeitar nossa história, nossas memórias e o lugar de onde viemos — embora haja exceções, já que muitas pessoas cresceram em espaços de violência e intolerância.

Tenho certeza de que isso faz uma enorme diferença quando nos constituímos como adultos e trilhamos nosso próprio caminho. Esteja onde estiver, sei o quanto a minha infância no campo e os aprendizados adquiridos da minha família são importantes para quem sou hoje e como vejo o mundo.

E você? Tem uma história pessoal com o campo que deseja compartilhar também? Conte para a gente nos comentários os aprendizados que a vida no interior já trouxe para você.

 

um homemmagro, de pele branca, cabelos curtos e olhar pensativo.

Se você leu até aqui, esse sou eu, em uma foto antes da pandemia, do jornalismo e de chegar na Vida Simples. Foto: Arquivo pessoal

 

 


ALESSANDRO FERNANDES é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Ceará e estagiário na Vida Simples. Natural do Rio Grande do Norte, acredita no veganismo popular como uma das ferramentas de transformação da sociedade e no potencial da escrita e do Jornalismo em tocar as pessoas.


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COMENTÁRIOS

  • Geraldo

    Nessa sexta almocei no bairro em que fui criado e que morei por 38 anos, aqui em Floripa/SC! Apesar de perto do Centro da Cidade, pouco mudou no sentido de infra estrutura: forte do comércio ainda é padaria, farmácia e supermercado. Restaurante há pouco tempo que vem surgindo. Uma sensação melancólica do interior! Já em Cabo Branco/João Pessoa, apesar de ter orla também, mas a presença de equipamentos turísticos como hotéis e restaurantes, se percebe a vida “pulsar”: trabalho, caminhadas matinais e couver/s artísticos à noite em quiosques ou barzinhos! Então, nem sempre o Rural ou Urbano, estejam tão distantes: podem estar “juntos e misturados” num único bairro! Poderia o coco ser colhido por mais vendedores da praia, ser fonte de renda e Não prevalecer o toque na fruta, deixando cair direto na praia!!!! Ciclistas marcam presença de noite, por grande extensão da avenida central da orla!

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    • Vida Simples

      É verdade, Geraldo! Os lugares são múltiplos! Alguns mudam, outros permanecem quase iguais, mas mesmo os iguais na aparência, mudaram. Como aprendemos no mindfulness: tudo muda. Sempre ❤

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