O dia em que fiz um gol de bicicleta

  • TEXTO BETO PACHECO
  • FOTOGRAFIA foto Popperfoto/Getty Images
  • DATA: 14/01/2021

Quando se tem por volta de 10 anos, só há uma grande preocupação na vida: será que algum dia farei um gol de bicicleta?

 


“Quando se tem por volta de 10 anos, só há uma grande preocupação na vida: será que algum dia farei um gol de bicicleta? Eu treinava no quintal da minha casa, sozinho. Jogava a bola para cima, me preparava para o movimento e tentava acertar o tempo de bola. Normalmente, eu furava o chute, dava de canela ou levava uma bolada na barriga e caía chapado arrebentando as costas no chão. Infelizmente, hoje eu sei a resposta para aquela preocupação. Nunca fiz nenhum gol de bicicleta […]”

O parágrafo acima eu escrevi há muitos anos, em outra crônica publicada no meu primeiro livro, e era um trauma que só aumentava.

Foi numa terça-feira curitibana e curiosamente quente que o terror se foi e eu fiz um gol de bicicleta. Não de voleio, nem de “sem-pulo”, de letra, sequer de calcanhar… Não. De Bicicleta. Plástico, épico, sublime, ciclístico e certeiro. De BI-CI-CLE-TA!

É triste que vivamos em tempos em que se não foi filmado ou fotografado, não aconteceu. E se foi, a imagem é manipulada. É fatídico que não houvesse ao redor uma câmera na mão dum viciado em selfies ou um drone espião sobrevoando a arena, quiçá uma câmera de vigilância na esquina. Uma pena, mas, mesmo assim, outorgado pelas 15 testemunhas que presenciaram in loco, meu gol de bicicleta (repetirei à exaustão, aguente) há de entrar para os verbetes de lendas heroicas e eternamente debatidas, recordadas e homenageadas em botecos de Curitiba.

“Lembra-se do gol de bicicleta do Beto? Mais plástico que o do Sicupira.”

Todavia não será a falta de mídia moderna que nos colocará nos porões da História. Romantizemos, como teciam Nelson Rodrigues, Mario Filho ou João Saldanha, o Olimpo da crônica esportiva. Usemos da expressão verbal, escrita e eterna para legar à posteridade o gol dos gols.

Era início de partida e eu havia cometido um equívoco no primeiro lance, à defesa, e minha equipe tomou um gol por minha culpa. Praguejei, mas mantive a concentração. Senti que o time precisava de mim. Busquei a bola sob as redes e rumei calmamente, passo a passo, à sombra de Didi, o Príncipe Etíope, para posicioná-la no círculo central. Logo demos o pontapé para o reinício e buscamos o empate. O conquistamos rapidamente. Maravilha! Era um peso que saía de meus ombros. Mas não estava satisfeito, a falha recente ainda martelava no divã.

Foi quando aconteceu.

A equipe adversária puxou um contra-ataque e, na velocidade dos acontecimentos, vi-me à frente, ponta-de-lança, só observando o transcorrer do lance. Eles perderam a pelota, que caiu nos pés de nosso goleiro. Ele olhou altivamente em direção ao ataque e fez o lançamento. Eu estava na entrada da área inimiga, de costas para o goleiro adversário. A bola voou, voou, voou e pingou bem na minha frente, subindo na altura perfeita, no eixo exato. Foi como se o tempo parasse. Enxergava a bola, o campo, os jogadores em supercâmera lenta. Não foi um pensamento construído, lógico, mas sim um reflexo. Dessa maneira é com os grandes craques — mesmo com aqueles de apenas 1,70m. Minha mente tinha a certeza: vou tentar uma bicicleta. Era chegado o momento. Quase 40 anos esperando. Nunca, nunquinha da silva, uma bola, uma posição no campo, a força do vento, a disposição dos boleiros e um instante estiveram tão sincronizados. Só faltou ser noite de eclipse.

Lancei-me para o ato mágico. Quando estava no ar, com as costas paralelas ao chão e a pedalada armada, ouvi o goleiro partir em minha direção a gritar “É MINHAAA!”. Cheguei a vê-lo ao meu lado, na prévia de um soco na gorduchinha. Seria o fim da ripa na chulipa? Seria eu mais um daqueles que chegou a um centímetro do portal que me levaria para longe da Caverna do Dragão e, pluft!, teria o tapete puxado, com Uni, Vingador e Mestre dos Magos a rir de minha desgraça?

Enquanto tudo isso passava em minha mente, a região do meu corpo responsável pelo instinto alertou: vais dar com as costelas no chão em centésimos de segundo. Xiii, lascou! Então, no último instante, e automaticamente, fechei os olhos e pedalei no ar. Senti a bola pegando em cheio no peito do pé direito e, em seguida, uma lufada de ar ser expulsa de meus pulmões, quando me esborrachei na verdejante grama sintética. A partir daí, não ouvi mais nada. Nem os gritos dos espectadores, nem atletas em volta, nem o ecoar dos rádios da torcida sintonizados na mesma estação, fiu-fiu. Olhei para trás e lá estava ela, a bola, estufando a rede.

Um magistral, histórico e invejável gol de bicicleta.

É evidente que o desdém surgiu nas horas que se seguiram. “Duvido”, disseram uns; “Beto fazendo gol de bicicleta? Óbvio que é mentira”, menosprezaram outros; “Foi comprada com dinheiro público essa barra-forte”, vociferaram terceiros. Não importa. Nada, ninguém, coisa alguma será capaz de apagar de minha memória, aquela cujo ângulo de visão foi privilegiado, um acontecimento que faz toda uma vida valer a pena.

Na manhã seguinte, conto para o meu pai como fora tamanha proeza — afinal de contas, os momentos sublimes existem para serem compartilhados com a família, além de ele ser um grande entendedor de sofá da arte futebolística. Ele já sabia do ocorrido (vivemos num mundo de velocidade incontrolável, ainda mais em se tratando de notícias bombásticas e históricas) e me disse: “Fiquei sabendo. Não se machucou?”.

O que falar? Não é a coisa mais cuidadosa e amável do mundo? Contudo, apesar de compreender e ter achado fofa a sua preocupação, preciso dizer que fiquei um pouco frustrado. Sei que ele dificilmente compreenderia que, quebrasse uma perna, deslocasse um ombro, luxasse um cotovelo, pouco importaria. Um gol de bicicleta é maior. Um gol de bicicleta é indolor. Um gol de bicicleta é transcendental. O primeiro e possivelmente único. É inesquecível.

Agora, me deem licença, preciso passar Gelol, pois estou com uma dor arretada nas costelas.


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