Nós e o Universo

  • TEXTO Diogo Antonio Rodriguez
  • DATA: 26/02/2020

Janna Levin é uma cientista americana que, ao observar o Universo, busca respostas sobre como sua imensidão altera a percepção de quem somos e nosso papel no mundo

 

O que o estudo de buracos negros, a física interplanetária e a finitude (ou não) do Universo podem dizer a nós, meros mortais? Por que deveríamos, por exemplo, nos preocupar com uma pesquisa que tenta “escutar” o Universo? Durante 50 anos, um grupo de 800 cientistas se dedicou a procurar sons pelo espaço para provar uma teoria criada por ninguém menos que Albert Einstein. O mais famoso físico da história previu, há mais de cem anos, que seria possível detectar ondas gravitacionais, literalmente ondulações que percorrem o Universo. A constatação faz parte de sua Teoria Geral da Relatividade. A equipe do Ligo (Observatório de Ondas Gravitacionais por Interferômetro Laser, que fica nos EUA) conseguiu ouvir dois buracos negros entrando em colisão – cada um com uma massa 30 vezes maior que o nosso Sol.

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Trata-se de uma descoberta importante porque, até agora, os cientistas só conseguiam analisar o Universo por meio da luz. A descoberta das ondas gravitacionais previstas por Einstein dará um novo meio de observar e investigar o que está para além do planeta Terra. Essa epopeia toda é contada no livro A Música do Universo (Companhia das Letras), da escritora e física americana Janna Levin.

Apreciar a ciência

Por ser cientista, Levin conhecia bem diversos dos integrantes da pesquisa e acompanhou de perto todo o processo. Ela é, atualmente, um dos principais nomes da divulgação científica mundial e estará no Brasil, em setembro, para falar sobre seu livro na conferência Fronteiras do Pensamento. Conversamos com Janna Levin para saber como pessoas – como eu e você – podem apreciar a ciência, entender se o conhecimento corre perigo nos tempos atuais e o que o Universo pode dizer a respeito de nós mesmos. 

Entrevista com Janna Levin

Como você começou a se interessar por ciência?

Acho que sempre me interessei, mas não sabia disso. Eu era uma naturalista, estava interessada nas estrelas, na natureza, nos animais. Isso sempre esteve comigo. A questão maior é quando eu reconheci isso como algo que eu poderia fazer na minha vida. Isso veio muito depois. Nunca me ocorreu que seria cientista. Eu não teria sonhado com isso. Mas, olhando para trás, estava tudo lá. Na metade da faculdade, descobri realmente a física e a matemática, e foi uma grande surpresa para mim me encantar tanto por isso. 

O que você achava que faria depois da faculdade?

Primeiramente, eu comecei a faculdade cheia de sonhos, muito idealista e amava a academia, pensamentos, ideias, tudo que eu estava aprendendo. Fiquei muito grata por ter acesso a tudo isso. Lembro-me de dizer a um amigo, que era alguns anos mais velho, que eu não tinha noção do que faria, que estava perdida na terra das ideias. E ele disse, de maneira muito incisiva: “Oh, meu Deus, você vai ser professora como eu”. E acho que foi o que acabou acontecendo. 

Como decidiu compartilhar o conhecimento que tem com as pessoas, de maneira ampla?

Como a maioria dessas coisas, elas vêm do coração. Não são grandes projetos, você começa a partir da intuição. Se um artista coloca uma pintura na parede, ninguém diz: “olha, esse artista está fazendo divulgação ou explicação pública da arte”. É um produto esperado do processo criativo para compartilhar a arte. E sinto o mesmo da ciência: por que é diferente? Eu acho que um artista pode ficar em seu estúdio e nunca mostrar seu trabalho; um cientista poderia ficar em seu laboratório e nunca mostrar seu trabalho. Não acho que exista algo diferente entre mostrar seu trabalho em uma exposição ou trazer a ciência para uma conversa sobre cultura. 

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Fenômenos como o movimento da Terra plana significam que a ciência está sob ataque?

O movimento da Terra plana é ridículo, então acho difícil que as pessoas vão aderir a isso. Eu não acho que vai decolar, não dou muita credibilidade. Há mais pessoas que acreditam na astrologia, na religião, na fada dos dentes ou no Papai Noel. Eu não diria que as ciências estão sob ataque. Talvez o contrário, porque há cientistas que estão se expondo, falando e querendo fazer parte da conversa. Honestamente, acho que os defensores da Terra plana e o pessoal da pós-verdade estão cavando seus túmulos. Os cidadãos comuns estão cansados disso, o que os leva à ciência e ao pensamento científico como uma alternativa holística às mentiras e ao absurdo. 

Como a ciência pode estar mais presente na rotina?

Existem muitos níveis em que as coisas podem ser apreciadas. Eu estou de pé em um jardim agora e estou olhando para uma bela flor, não tenho ideia do que é ou de onde veio, mas estou sendo afetada por ela, é linda. Nesse nível, qualquer um pode apreciar a ciência e isso é completamente aceitável. Posso aprender sobre avanços médicos e não ser um médico praticante. Em todos os níveis de vida há diferentes profundidades de apreciação. Existe um nível visceral no qual qualquer um pode apreciar a ciência e ser um naturalista. Acredito que todas as crianças são naturalistas, não conheço nenhuma que não seja, que não se maravilhe com uma flor ou persiga uma borboleta. A ideia de que não podemos apreciar a ciência, a menos que sejamos especialistas técnicos, é boba. 

Por que é importante estudar o Universo?

Porque se trata de perguntar se estamos no centro do sistema solar ou não. Parece bobo agora, mas sabemos que essa questão mudou tudo. Toda a sociedade era diferente, toda a cultura era diferente porque percebemos que não estamos no centro do sistema solar. Aprender sobre o Universo, nosso lugar nele, tem uma implicação similar. Passamos de achar que éramos o centro do sistema solar para perceber que existem outros sistemas solares, para perceber que há uma galáxia, uma coleção de centenas de bilhões de estrelas.

Mas, quando você olha para o que [Albert] Einstein estava pesquisando, ele não tinha nenhuma prova de que existiam outras galáxias. Então, essa ideia é moderna, tem apenas cem anos. Isso muda a cultura. Agora, acreditamos que vivemos em um único universo e talvez isso não seja verdade, talvez existam outros universos por aí. Isso causa um impacto sobre como percebemos o mundo de maneiras muito difíceis de quantificar. Isso muda nosso senso de nós mesmos e nossa cultura de maneiras difíceis de prever.


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