“Refletir sobre a nossa mortalidade nos permite fazer escolhas sobre como queremos viver”, diz Tom Almeida

  • TEXTO Lucas Vasconcellos
  • DATA: 03/10/2020

Para criador do festival inFINITO, não somos educados para lidar com a morte. E dialogar sobre a finitude da vida é o meio para nos conectarmos conosco e com o outro de maneira mais gentil. 

 

Os temas viver e morrer nunca estiveram tão presentes na sociedade atual como nos últimos meses. É o reflexo da pandemia causada pelo novo coronavírus que, embora minimizado por tanta gente, matou no mundo mais de um milhão de pessoas até a publicação deste texto. Matou também rotinas e como estávamos acostumados a viver.

Falar sobre a morte como meio para um viver mais pleno é necessário. É o nosso destino final e sabemos disso – ainda que encaremos o fato como um tabu. Em busca de discutir o assunto com naturalidade, acontece pelo terceiro ano consecutivo o festival inFINITO, que desta vez será on-line nos dias 3 e 4 de outubro. Serão sete convidados debatendo – para conferir a programação completa e se inscrever, clique aqui.

Em bate-papo exclusivo, Tom Almeida, fundador do inFINITO, fala sobre a necessidade da conscientização da limitação do tempo como um meio para sermos mais gentis conosco e com o outro.

Falar sobre morte é um tabu. Por que precisamos romper essa barreira?

Ter conversas sinceras sobre o viver e o morrer, e refletir sobre a nossa mortalidade, nos permite fazer escolhas sobre como queremos viver. Estou gostando da vida que levo, faz sentido pra mim? Fora isso, os dias finais são profundamente importantes – das nossas vidas e também das pessoas que amamos. Olhar para a nossa morte nos faz pensar sobre o que é imprescindível, sobre os nossos valores e sobre o que é sagrado para nós. É também um convite para pensarmos sobre como queremos que nossa vida seja celebrada e lembrada.

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Falar sobre este assunto não precisa ser uma conversa desconfortável. Nas conversas sinceras sobre viver e morrer que promovemos no movimento inFINITO, todos os sentimentos são incluídos: medo e dor, sim, mas também amor, gratidão, intimidade, pertencimento, conexão e etc.

Além disso, a experiência de final de vida é, na maioria das vezes, muito estressante – tanto para os pacientes quanto para os cuidadores. Se as cartas estão na mesa de forma clara e gentil, o processo se torna menos sofrido e muito mais amoroso. As pessoas atravessam a experiência conectadas por conta da morte, e não apartadas por medo da morte.

E se passássemos a olhar para a morte das pessoas que a gente ama como uma convocação para amá-las completamente enquanto temos tempo para fazê-lo? Criar memórias e lembranças todos os dias, buscar o que é infinito dentro da finitude, o permanente dentro da impermanência.

Lidar com o tempo é um desafio. Como se entender melhor com ele para viver uma vida com mais plenitude?

Sem dúvida alguma existem desafios a serem enfrentados, como em qualquer transição importante em nossas vidas. Quantos desafios existem na adolescência? Algo precisa morrer para que o novo nasça. Mas podemos também afirmar que lidar com o tempo é um privilégio. Tudo é uma questão de perspectiva, de escolha de como eu vou lidar com a situação. Faço 50 anos daqui a poucos dias e ando me sentindo extremamente feliz com este marco. Já não vivo mais sem meus óculos, ostento uma carequinha, mas me sinto superprivilegiado por estar chegando aos cinquentas. Muitos não chegaram e muitos não chegarão. Não quero minimizar os desafios ou parecer Poliana, mas o meu convite é olhar para o todo.

morte

Por que temos tanta dificuldade em lidar com a morte se ela é um destino certo para todos nós?

Desde muito pequeno eu nutri um medo enorme da morte da minha mãe. A presença da morte foi como uma ameaça que eu não tinha coragem de olhar, da qual eu tentava fugir. Sinto que olhei para o lado errado do caminho que separa a vida e a morte. Olhei para o “depois da morte”, sem ela, em vez de olhar para o “hoje”, com ela. Eu mantive um medo infantil da morte. Uma relação imatura com uma realidade que iria acontecer em um momento ou outro.

Comecei este medo com seis anos. Minha mãe morreu quando eu tinha 46. Morrer ou perder alguém não é legal mesmo. Temos o instinto da sobrevivência e os apegos nas nossas relações. Mas precisamos colocar as coisas em perspectiva: temos medo da morte ou de sentir dor? Temos medo da morte ou de deixar a nossa família desamparada? Quando a gente se aproxima do assunto, encontra a oportunidade de olhar com uma lupa para as nossas aflições e temos a chance de abrir o jogo, ter conversas, deixar claro tudo o que nos preocupa e resolver o que é passível de ser solucionado.

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Um outro ponto é que, de alguma forma, passamos a acreditar que a medicina poderia resolver tudo, até nos livrar da morte. Terceirizamos esta parte natural da nossa vida. Há 100 anos, as pessoas morriam jovens e em casa, viviam a morte em todas as suas nuances e cuidavam dos seus mortos. A morte fazia parte da vida. Depois, passamos a acreditar que a morte é o oposto da vida e que deveríamos lutar e combater. O preço disso é que os médicos são treinados só pra curar. Tudo fora disso é fracasso.

E os familiares também demandam dos médicos e hospitais a vida a qualquer custo. Gastos astronômicos, exames, tratamentos invasivos e fúteis que causam ainda mais sofrimento acontecem, muitas vezes, pelo simples fato de que não aceitamos a morte. Não somos educados a lidar com ela. Ao nos relacionarmos de uma forma saudável com o fim, cuidando do morrer com dignidade, amor e respeito, isso muda radicalmente. Nunca vai ser fácil, mas pode ser muito menos difícil.

Um período como o atual, no qual a iminência da morte se tornou ainda mais real, deveria servir de aprendizado para nós? Que lições podemos tirar?

A finitude e a impermanência nunca estiveram tão escancaradas nas nossas vidas como agora – e isso nos coloca em uma situação muito mais vulnerável. Estamos vivendo e assistindo mortes reais e simbólicas, ou seja, a morte de entes queridos ou conhecidos e também a morte de sonhos, de planos, da liberdade, das relações, da rotina, da vida como conhecemos. Vivemos um luto coletivo por perdas múltiplas.

O aprendizado é a consciência mais concreta da nossa mortalidade. Ignorar esta realidade não faz com que ela desapareça. Acabamos dando à morte muito mais poder do que ela realmente tem e passamos a ser reféns de um medo. Quando a olhamos de frente e passamos a nos relacionar com ela, a morte ocupa o lugar que a pertence, que é o de um processo natural de todas as criaturas vivas da Terra.

Para você, o que é a morte e o que aprendeu lidando com ela?

A morte é uma experiência completa que nos convida a acessar a nossa mais profunda vulnerabilidade e, a partir daí, vivenciar as maiores dores e os maiores sentimentos de amor, conexão e gratidão.

 

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