Por que temos medo da morte?

  • TEXTO Roman Krznaric (The School of Life)
  • FOTOGRAFIA MUSTAFFA KAMAL IKLIL | iStock
  • DATA: 03/09/2019

Ninguém quer falar sobre isso. Mas ela, a morte, faz parte da nossa existência – é, provavelmente, nossa única grande certeza. Mesmo assim, fugimos dessa conversa a qualquer custo. Precisamos entender por que fazemos isso e perceber que, ao trazê-la para perto, estamos na verdade mergulhando em nós mesmos e na maneira como olhamos para a vida

Se existe algo certo nessa vida é que vamos morrer. Mas, apesar dessa certeza, acho curioso como não dedicamos tempo para, de fato, aproveitar nossos dias de vida. Estamos sempre disponíveis para passar horas vendo tevê; para atualizar, de maneira frenética, a página do Facebook – e assim saber o que os outros estão fazendo ou pensando; para abrir links com vídeos de gatinhos ligando interruptores de luz; para ler as fofocas das celebridades. Ou, ainda, perdemos nosso precioso tempo alheios à realidade, aos acontecimentos, à vida, e ficamos deitados em um roupão bem confortável.

Pense naquelas pessoas que morreram jovens e de maneira trágica – um adolescente que teve a juventude interrompida pela leucemia, uma talentosa bailarina que morreu em um acidente de carro – e o quanto eles seriam gratos por terem apenas um dia a mais de vida. Será que não devemos isso a eles e assim fazer mais pelo simples fato de estarmos vivos?

Carpe diem

A questão é que hoje deixamos, facilmente, o tal do do carpe diem (aproveite o dia) em segundo plano. Conforme abordo no meu livro Carpe Diem Reclaimed (Carpe Diem Regenerado, em tradução livre), deixamos de nos preocupar com a morte, que era um assunto prevalente na cultura medieval e também na Renascença. Nessa época, as paredes das igrejas eram cobertas com afrescos de esqueletos dançantes e as pessoas deixavam, sem problemas, crânios humanos na mesa – conhecidos como memento mori, que em latim significa “lembre-se que você deve morrer”. O acessório servia como um lembrete.

Era uma época de pragas terríveis, taxas altíssimas de mortalidade infantil e de violência endêmica. Um período do qual não devemos ter qualquer nostalgia. Mas, ao mesmo tempo e apesar de tantas adversidades, ter a exata noção de que a vida pode ser frágil e breve fazia com que muitas pessoas vivessem de maneira intensa e apaixonante. Por isso o historiador francês Philippe Ariès, conhecido por desenvolver um brilhante estudo sobre a morte, concluiu: “A verdade é que nenhum homem amou tanto a vida quanto aquele que viveu na Idade Média”.

A era das distrações

A sociedade moderna, em contrapartida, é voltada para nos distrair, o tempo todo, da existência da morte. Os publicitários criam anúncios em que todos são eternamente jovens. Deixamos os velhos isolados em asilos, fora da nossa visão e dos nossos pensamentos. Morrer em hospitais, cobertos por tubos e fios, fez com que esquecêssemos o antigo costume de falecer em casa – um dos motivos pelos quais as crianças raramente são colocadas diante do tema da finitude.

A pergunta “você tem medo de morrer?” pouco aparece nos programas de tevê. Sim, eu sei que o tema da morte não está totalmente fora da pauta: o dilema da eutanásia e os cuidados paliativos são trazidos à tona em alguns noticiários e existe uma moda, crescente, de organizar “cafés sobre a morte” em grandes capitais como São Paulo ou Sydney. Nesses lugares, as pessoas conversam sobre a mortalidade e o significado da existência entre uma xícara de café e um pedaço de bolo. Mas, em geral, a morte é atualmente um tabu assim como era o sexo na época vitoriana. Os jornais estão lotados de suplementos sobre estilo de vida, mas onde estão os suplementos sobre “estilo de morte”?

Não adianta negar a morte

Em um nível mais sutil, grande parte da nossa vida social pode ser interpretada como um meio elaborado para nos proteger da ansiedade inerente sobre a morte: a forma como muitos de nós procuram desesperadamente uma carreira de sucesso ou fama duradoura; a tendência de acumularmos cada vez mais coisas para termos a sensação de permanência; nosso desejo de ter filhos como uma forma de deixar um legado; a maneira como passamos boa parte do tempo nos ocupando com algo (porque precisamos estar fazendo alguma coisa sempre). Tudo isso, de alguma forma, são estratégias para não lidar com a realidade de que um dia, mais cedo ou mais tarde, vamos deixar de existir.

Estudos conduzidos nos Estados Unidos demonstraram que quanto mais elevada a autoestima de uma pessoa, menos ela pensa sobre a morte. Em outras palavras, os esforços para aumentar o senso de valor pessoal servem para nos proteger de nossos medos existenciais. Existem também evidências de que quanto mais uma pessoa pensa sobre a morte, maior é sua vontade de ter um filho – provavelmente como uma maneira de transcender a própria mortalidade. Como o psiquiatra e escritor americano Irvin Yalom escreveu (Irvin é autor, entre outras obras, de Quando Nietzsche Chorou),“o terror da morte é onipresente e de tal magnitude que uma parte considerável de sua energia de vida é consumida na negação da morte”. Ou como o cineasta americano Woody Allen pontuou: “Eu não tenho medo da morte. Só não quero estar lá quando ela acontecer”.

Para dançar com a morte

Quando se trata de pensar sobre o próprio fim, boa parte de nós vive em um crepúsculo entre saber e não querer saber. Como na história antiga da Espada de Dâmocles, a morte paira no ar para nos abater. Dâmocles era um cortesão do tirano Dionísio, que tinha fama de ser um homem muito afortunado. Um dia, Dionísio ofereceu-se para trocar de lugar com Dâmocles por um dia. O objetivo era que outra pessoa pudesse sentir o que é ter homens e mulheres o bajulando o tempo todo. Mas, para isso, Dâmocles precisaria usar uma espada sobre o pescoço, presa por um fio. Ao ver a espada em cima de sua cabeça, posta de maneira frágil, desistiu da troca. A Espada de Dâmocles simboliza algo que pode nos ser tirado de repente.

Consideramos, nos dias atuais, que pensar sobre a finitude é demais para a nossa psique suportar. Então abafamos esses pensamentos, nos distraímos com as alegrias e os desafios diários ou buscamos consolo na religião. No entanto, ao fazer isso, nos privamos do nosso elixir existencial: quando encaramos a existência da morte e a certeza de que não somos eternos, valorizamos mais os dias e conseguimos aproveitar a vida em sua plenitude.

Isso nos deixa uma tarefa delicada, que é trazer a realidade da morte perto o suficiente para molhar nossos lábios sem queimá-los. Precisamos ser como a jovem mulher da pintura de Gustav Klimt, Morte e Vida, que está disposta a encarar a morte de frente, com os olhos bem abertos, sem deixar que isso a perturbe. Ela, sozinha, mesmo no meio de outras figuras, tem a coragem de começar uma dança com a morte. Está na hora de também dançarmos com ela.

a série dilemas é uma parceria entre a revista vida simples e a The School of Life e traz artigos assinados por professores da chamada “Escola da Vida”. A série tem como objetivo nos ajudar a entender nossos medos mais frequentes, angústias cotidianas e dificuldades para lidar com os percalços da vida.

 


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