Minhas Fridas

  • TEXTO Diana Corso
  • DATA: 19/12/2019

A fascinação pela figura da artista mexicana Frida Kahlo diz respeito à essência do feminino, sua beleza natural e sua força

 

Tenho duas bonecas representando Frida Kahlo, três canecas, cadernos, cadernetas, quatro camisetas, bolsa, nécessaire e até meias com seu retrato. Quem não sabe que sua imagem vem sendo epidemicamente reproduzida pensará que trata-se de minha santa de devoção. Talvez seja. Estudei sua obra, estive no México, pelos cômodos de suas casas, olhei detidamente suas pinturas, as de Diego Rivera, o homem que ela amou tanto, e outros que também a amaram e a retrataram. Li seu diário. Queria saber por que ela me fascina, o que fez de sua imagem um ícone.

Frida inverte o sentido clássico das imagens femininas: em seus insistentes retratos, em vez de ser contemplada, ela nos crava o olhar e desafia, é a bela acordada. Ambígua, o buço realçado e uma masculina monocelha convivem com vestidos tradicionais e as flores que enfeitam uma cabeleira negra recolhida em tranças.

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Boa parte de seus quadros são autorretratos. Filha de um fotógrafo, que foi retratista oficial de autoridades, cresceu misturando em sua imaginação as imagens católicas da devoção materna com as do ofício do pai. Nas pinturas assim como na vida real ela trajava as roupas da tradição folclórica mexicana, mas em nome de uma revolução. Fazia parte do movimento político e artístico de resgate, divulgação e preservação da cultura popular nacional. Ao seu redor pintava animais, objetos, plantas, imagens de pessoas importantes para ela, que traduzissem seu sentimento e lugar no mundo. No centro dessa cena ela se posicionava.

Como Frida, somos fortes

Com raras exceções, na arte as mulheres ocuparam principalmente o papel de modelos, posaram para que os homens as tornassem, principalmente, a imagem da beleza, do erotismo ou da maternidade santificada. Frida fez mais do que brincar com essa imagem tradicional da mulher. Criou uma espécie de autobiografia pictórica, expôs seus traumas, pintou sua paixão e as traições de Diego, os bebês que seu corpo enfermo perdia em sangue e lágrimas. É considerada heroica por ter criado, amado e sido libertária apesar de carregar as sequelas da pólio e de um acidente que quase a destruiu, das inúmeras cirurgias, da dor onipresente.

O corpo das mulheres tem sido alternadamente fetichizado e sacralizado, coberto e exposto em poses estudadas. Frida encarna nosso lado autoral e implosivo, construiu sua marca registrada – essa que reproduzimos em camisetas e canecas. Com ela assumimos que a paixão subjuga, mas que a sexualidade pode ser livre, que somos masculinas e femininas. Sangramos como se fosse um martírio, sentimos dor e fragilizamo- nos, mas como Frida somos fortes. Seus pincéis acabaram transformando nossos segredos num manifesto. Ela nos representa.

Diana Corso é autora do livro Tomo Conta do Mundo – Conficções de uma Psicanalista.


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