Literatura para amadurecer

  • TEXTO Alexandre Carvalho dos Santos
  • FOTOGRAFIA Syd Wachs | Unsplash
  • DATA: 04/10/2019

Algumas obras da literatura nos ajudam a amadurecer e, através de enredos bem amarrados, a enfrentar os dissabores da vida com mais sensibilidade e leveza

A passagem da infância à adolescência, ou desta para a idade adulta, é como um salto de paraquedas: inesquecível, transformador, sem chão… quando no máximo você pode torcer para que, no fim, acabe caindo no lugar certo. Seja mais ou menos turbulento, nenhum desses “saltos” é igual ao outro. A coincidência é uma só: essa fase vai deixar marcas para a vida toda, que vão ajudar a construir o adulto que você vai ser.

Amadurecer com a jornada dos protagonistas

É desses rituais de amadurecimento que tratam os chamados romances de formação. A expressão vem do alemão Bildungsroman, termo usado pela primeira vez em 1803, pelo professor de filologia clássica Karl Morgenstern, em uma conferência sobre “o espírito e as correlações de romances filosóficos”. A característica principal desses livros é apresentar um protagonista em sua jornada rumo à maturidade, em busca de crescimento psicológico, moral, social ou mesmo espiritual. Com todas as pedreiras que encontramos pela frente. E que não são poucas.

Pode ser o drama por trás da combinação de novas amizades, da mudança de casa, de escola, da difícil relação com os pais, ou de um autoconhecimento em floração – o paradoxo de viver ao mesmo tempo uma sensação de não pertencimento e a construção de uma identidade. Por mais conflituosa que seja essa construção. Como bem expressa a menina Cecilia, de As Virgens Suicidas, romance do americano Jeffrey Eugenides. Após uma tentativa de tirar a própria vida, ela ouve do médico: “Você não tem ideia do quanto a vida fica difícil depois”. Diante da bronca, ela responde: “Obviamente, doutor, você nunca foi uma garota de 13 anos”.

Toru Watanabe, autor de Norwegian Wood, se apaixona pela ex-namorada do melhor amigo, que morreu tragicamente. Calíope Stephanides, de Middlesex, tenta entender a mutação genética que a trouxe ao mundo como hermafrodita. Já Holden Caulfield, do clássico O Apanhador no Campo de Centeio, enfrenta um drama mais comum: um esgotamento nervoso às vésperas de um Natal. Tenham temas corriqueiros ou extraordinários, os romances de formação nos fazem refletir sobre a delicadeza do nosso crescimento e a nostalgia das nossas feridas. vida simples traz 15 dessas histórias de saída do casulo, que valem muito a sua leitura.

 Os Anos de Aprendizado de Wilhem Meister

À época do lançamento da obra, o crítico literário alemão Friedrich Schlegel deu uma ideia da dimensão deste romance goethiano: “As três grandes tendências da nossa era são a Doutrina da Ciência, Wilhelm Meister e a Revolução Francesa”. Exaltava, assim, um dos casos raros em que um grande livro é também o formador de um gênero. Pois, ao retratar e discutir a Alemanha de seu tempo colocando no centro da trama o processo de amadurecimento de alguém, Goethe, um importante romancista, não apenas criou o primeiro “romance social burguês” alemão como inaugurou o que chamamos de romance de formação – com todas as bases que o modelo deveria seguir.

Em Os Anos de Aprendizado de Wilhem Meister, ele descreve a juventude do filho de um casal da burguesia que contrariou as expectativas da família e se juntou a uma trupe de comediantes. E, assim, contando as aventuras e experiências amorosas de seu personagem, ao mesmo tempo que traça um painel da sociedade daquele tempo, Goethe inova neste que é muito mais que um livro delicioso de ler: é um ponto culminante da história da narrativa.

David Copperfield

Publicado primeiro em capítulos, para então sair como livro em 1850, o romance David Copperfield, de Charles Dickens, é um desafio para os maratonistas da leitura: dependendo da edição, pode ter mais de 800 páginas. Mas é um preço que se paga com gosto para apreciar um dos maiores clássicos da literatura, de grande influência nos livros sobre jovens que vieram depois dele, e que serviu de inspiração para adaptações do cinema à televisão.

O romance conta os anos de aprendizagem do personagem-título: da meninice sofrida nas mãos de um padrasto cruel, passando pela convivência com os colegas de colégio interno, a vida ao lado da excêntrica e amorosa tia Betsey, até a descoberta do amor. Dickens é um especialista em falar de crianças e adolescentes, e vai à minúcia dos pequenos detalhes para descrever as pessoas que cruzam a jornada heroica de Copperfield – personagens hostis e bondosos, ingênuos ou incrivelmente malandros. Um painel multicor de retratos humanos, atual até hoje.

A Educação Sentimental

As desventuras amorosas e os ideais de juventude de Frédéric Moreau têm como pano de fundo os anos da Revolução Francesa, em A Educação Sentimental. Mas, em contraste com as aspirações de mudança no cenário político, o personagem principal deste romance é marcado pela desilusão. O amor de sua vida é uma mulher mais velha, já casada; amor que, apesar de correspondido, nunca se concretiza.

E é aí que está a grande sacada do autor, o francês Gustave Flaubert (autor também de outra obra-prima, Madame Bovary): ao chamado da aventura, ele responde com a imobilidade – um reflexo do ceticismo do escritor à época. O personagem Moreau não consegue se decidir sobre uma profissão, vivendo da herança deixada por um tio. E seus relacionamentos amorosos nunca são plenos, já que se arrastam à sombra da paixão dele pela mulher com quem nunca vai ter nada. “Todas as manhãs, jurava a si próprio que ia ser ousado. Um pudor invencível impedia-o.” Nunca a melancolia do próprio fracasso foi tão bem descrita na literatura.

Um Retrato do Artista Quando Jovem

Stephen Dedalus é um rapaz muito marcado pela religiosidade da mãe, cujo maior desejo é que o filho siga a carreira eclesiástica. O menino chega mesmo a se ver como futuro padre, mas há um momento de ruptura, quando passa a se interessar por arte e estética. O romance Um Retrato do Artista Quando Jovem, de James Joyce, é autobiográfico, da época em que o autor descobriu que poderia se tornar escritor justamente escrevendo sobre o processo de se transformar em artista. Para isso, falou das lembranças de um menino católico na Irlanda, suas reflexões sobre pecado e a vida religiosa, e seu grande desejo de encontrar a própria voz artística.

As inovações da literatura de Joyce já dão as caras aqui: a prosa do livro vai alcançando níveis mais elevados de estilo conforme Dedalus se torna capaz de narrar de forma mais sofisticada. Um romance de formação que reflete o desabrochar da maturidade da própria arte.

O Apanhador no Campo de Centeio

“Não vou contar toda a droga da minha autobiografia, nem nada. Só vou contar esse negócio de doido que aconteceu no último Natal, pouco antes de sofrer um esgotamento e me mandarem para cá.” É dessa forma, coloquial e direta, que o adolescente Holden Caulfield anuncia o relato que vem a seguir, que se tornaria uma das obras mais influentes do século 20 – e um dos maiores paradigmas do que se entende como romance de formação. O escritor americano J.D. Salinger parte de uma história banal para construir esta crônica sensível sobre como a adolescência pode ser de arrasar.

O Apanhador no Campo de Centeio descreve um único final de semana na vida de Holden, que é expulso da escola por ir mal em quase todas as matérias. Na volta para casa, o menino reflete, não sem revolta, sobre acontecimentos recentes e as pessoas que cruzaram seu caminho – e vai atrás de algumas delas, adiando ao máximo a inevitável bronca dos pais. Antes deste livro, praticamente não existia isso de cultura jovem – a adolescência era vista como a fase aborrecida que os pais tinham de suportar entre a doçura da infância e a realidade do mundo adulto. O sucesso mundial de Apanhador mudou o mundo.

Demian

Anos antes de escrever seu livro mais conhecido, O Lobo da Estepe, o alemão Hermann Hesse fez deste romance de formação, Demian, sua primeira grande obra, inaugurando um processo de investigação interior que seria sua marca – muito influenciado pela psicologia analítica de Carl Jung. Abrir mão de uma situação de conforto e conformismo para a busca dolorosa da própria razão de existir – é isso que atormenta o jovem Emil Sinclair, protagonista da trama.

Ele toma coragem para esse salto no escuro ao conhecer o colega Max Demian, um rapaz carismático e de brilho próprio. Como nota, o tradutor Ivo Barroso, no posfácio da edição brasileira, escreve: “Ainda mais que um romance de educação, é o relato de um processo de reeducação, de laborioso apagar das pegadas que o puritanismo deixa impressas na alma adolescente: a timidez, a humildade, o alheamento – armas obsoletas diante da hostilidade do mundo”.

Ciranda de Pedra

O poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade foi um dos intelectuais que se entusiasmaram com este primeiro romance da escritora paulista Lygia Fagundes Telles, que já deixava evidente a originalidade da autora. O sucesso foi tanto que Ciranda de Pedra virou novela da Globo em 1981, com Lucélia Santos no papel da sofrida Virgínia.

A personagem é a caçula e a única de três filhas que vai morar com a mãe – uma mulher de frágil equilíbrio psicológico – quando os pais se separam. Sua infância é marcada tanto pela dor dessa separação quanto pela dificuldade de se integrar ao círculo formado pelas irmãs e seus amigos – Virgínia se sente excluída, aquela que nunca tem permissão para fazer parte de uma ciranda metafórica. Com o tempo, porém, a menina amadurece e descobre as ruínas pessoais de todos a quem ela idolatrava quando pequena – uma revelação que é, ao mesmo tempo, a libertação de um passado opressor.

O Encontro Marcado

O escritor mineiro Fernando Sabino tinha uma perspectiva muito particular do que é o processo de aprendizagem ao longo da vida: seu epitáfio, a pedido dele mesmo, dizia “Aqui jaz Fernando Sabino, que nasceu homem e morreu menino”. Por isso seu grande romance de formação não poderia ser menos idiossincrático. O Encontro Marcado trata do amadurecimento errante de Eduardo Marciano, um jovem/adulto na busca desesperada pelo sentido da vida.

Além da viagem existencial do protagonista, o livro fala muito do valor da amizade, que atravessa o tempo e as circunstâncias, milhares de mesas de bar e uma saudade enorme. O espírito poético que arrebata os personagens contamina o livro todo, em passagens líricas como esta: “De tudo ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro”.

A Redoma de Vidro

O caráter de transformação de vida nos relatos de formação se sobressai em A Redoma de Vidro, que foi o único romance publicado pela poeta americana Sylvia Plath – lançado, aliás, semanas antes do suicídio da autora. Trata da ascensão e queda de Esther Greenwood, uma universitária brilhante que conquista o emprego dos seus sonhos: um estágio na redação de uma badalada revista de moda.

Mas tanto glamour não a impede de acabar numa indiferença sofrida e paralisante, que a leva à internação numa clínica psiquiátrica. Mais do que uma boa história, o que este livro oferece é a rara chance de conhecer por dentro a mente de uma jovem com depressão, num registro corajoso, preciso e obviamente autobiográfico. “Me sentia muito calma e muito vazia, do jeito que o olho de um tornado deve se sentir, movendo-se pacatamente em meio ao turbilhão que o rodeia.”

Norwegian Wood

Uma tragédia em comum aproxima, em 1968, o universitário Toru Watanabe de Naoko, uma garota mais velha e de atitudes libertárias. A moça havia sido namorada do melhor amigo de adolescência de Toru, que tirou a própria vida, o que não impede que os dois se apaixonem – um reencontro delicado, que tem de lidar com o tabu e a dor que a morte do rapaz lhes impõe. E com mais um abismo: o desequilíbrio psicológico de Naoko, que acaba por ser internada num sanatório.

Questões filosóficas e sentimentais se combinam no romance Norwegian Wood, repleto de referências pop dos anos 60, e que tem como cenário uma Tóquio em ebulição cultural. O próprio título do livro, feito pelo popular escritor japonês Haruki Murakami, reproduz o nome de uma canção dos Beatles, composta por John Lennon – uma cena de sedução em que o homem apenas acha que está no comando, pois é a mulher quem dá as diretrizes de um encontro. Como no sensível caso de amor de Toru e Naoko.

Middlesex

Distante dos romances de formação mais convencionais, Middlesex, do americano Jeffrey Eugenides (mesmo autor de As Virgens Suicidas), trata de um amadurecimento muito específico: o de uma hermafrodita. “Nasci duas vezes: primeiro como uma bebezinha, em janeiro de 1960, num dia notável pela ausência de poluição no ar de Detroit; e de novo como um menino adolescente, numa sala de emergências nas proximidades de Petoskey, Michigan, em agosto de 1974.” Tendo de lidar com essa condição rara, Calíope/Cal Stephanides (que narra a história já como um adulto de identidade masculina) investiga segredos antigos de família para entender como uma mutação genética atravessou gerações a partir de um casamento entre dois irmãos até chegar ao seu próprio corpo.

Assim, o romance de aprendizagem aqui é também uma saga familiar, que parte da fuga de uma Grécia em chamas, passa pela Lei Seca nos Estados Unidos e chega aos protestos da população negra, já nos anos 60. Uma obra que aborda a questão de gênero e rendeu um prêmio Pulitzer a seu autor.

Juventude

Juventude, do escritor sul-africano Coetzee, é uma obra autobiográfica, repleta da memória pessoal do autor. E, também seguindo os cânones do gênero, narra o conflito entre os ideais de juventude e a realidade sem fantasia da vida como ela é. John é um estudante de matemática, mas só pensa em virar poeta. Passa o tempo à espera das experiências extraordinárias que lhe trarão a inspiração para a poesia superior. E é por isso que, na contramão de Rimbaud, deixa sua África do Sul, do final dos anos 60, rumo à Europa.

Mas o que encontra por lá não é o destino artístico, muito pelo contrário: vira programador de computadores. Ainda que a ansiedade e a desilusão – permeadas de bom humor – deem o tom do livro, há esperança para o alter ego do autor: o próprio Coetzee, após a matemática e os computadores, conseguiu viver de literatura. Com tanto êxito que ganhou um Prêmio Nobel em 2003. Vale a pena perseguir os sonhos.

Não Me Abandone Jamais

Um dos romances mais sombrios dos últimos tempos é esta ficção científica, Não Me Abandone Jamais, que relata uma experiência transformadora ao mesmo tempo em que questiona os limites da ciência. Kathy, agora aos 31 anos, recorda a época passada num internato muito especial, bonito e quase idílico, onde os jovens são incentivados para atividades artísticas e a boa convivência – mas curiosamente nunca falam sobre os próprios pais e são mantidos absolutamente isolados do resto do mundo.

O que mais une esses rapazes e meninas é uma grande solidão diante do que o destino lhes reserva (e, atenção, aqui vai um grande e inescapável spoiler). Cada aluno ali é um clone humano, gerado e criado com uma única finalidade: chegar bem e saudável à idade adulta para, então, se tornar doador de órgãos. Vão doando suas partes vitais para a medicina, até que o próprio corpo não resista mais. Uma fábula triste, escrita pelo autor nipo-britânico Kazuo Ishiguro, mas incrivelmente verossímil em face da loucura humana.

As Vantagens de Ser Invisível

Muito adolescente sabe o que é se sentir invisível na escola. Alguns até gostam da situação, de não serem notados por ninguém. Pode ser uma forma de escapar do bullying ou de resistir às pancadas emocionais dessa fase de transição. Mas a “abstenção de existir” também gera um vazio – incontornável e com reflexos para a vida toda.

Para falar da forma mais íntima possível sobre o amadurecimento num ambiente escolar opressor, o americano Stephen Chbosky centra a narrativa de As Vantagens de Ser Invisível nas cartas escritas pelo adolescente Charlie. É nelas que o jovem desabafa sobre dramas de família, a descoberta da sexualidade, a relação com drogas e, principalmente, a formação de amizades que o tiram a fórceps desse limbo da inexistência. Literatura de primeira grandeza, a obra ganhou uma bonita adaptação para o cinema e chegou ao topo da lista de livros juvenis do The New York Times.

Mãos de Cavalo

Este foi o livro que primeiro chamou a atenção da crítica para o escritor gaúcho Daniel Galera. É de perda e culpa que o livro Mãos de Cavalo trata, numa história sobre formação de identidade. O título vem de um apelido relacionado ao tamanho das mãos do cirurgião plástico Hermano, que tem sua vida contada em três fases distintas: aos 10, aos 15 anos e então já adulto.

Acontecimentos dessas épocas distantes, como um tombo de bicicleta, os preparativos para uma viagem à Bolívia e um casamento não planejado, surgem de forma intercalada, revelando o domínio do registro ao lidar com a maneira sem disciplina com que as nossas memórias vêm à tona. E sempre com emoção: Hermano parece buscar situações-limite como fuga da realidade. “Teve consciência de que era apenas isso que o movia a descer aquela escadaria tantas vezes, a possibilidade de queda, de se arrebentar no chão. E esta seria a mais espetacular de todas. Era o que tinha a dizer às pessoas lá em cima. Estava pronto para sangrar. Era seu talento.”

Alexandre Carvalho dos Santos escreveu Inveja (LeYa) e se entretem com os romances de formação, enquanto não faz um para chamar de seu.


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