Liberte-se das expectativas

  • TEXTO Liane Alves
  • FOTOGRAFIA Heidi Sandstrom | Unsplash
  • DATA: 27/03/2019

As expectativas em relação ao trabalho, ao amor, aos filhos ou ao que vai acontecer amanhã pode nos aprisionar. Aprender a não se deixar levar tanto por isso traz mais leveza e prazer para a vida

 

A pct, ou pacific crest trail, é uma trilha selvagem que atravessa nove cadeias de montanhas nos Estados Unidos. Começa no deserto de Mojave, na Califórnia, e termina
1.600 quilômetros depois, no estado de Oregon, perto do Canadá. Para a jovem Cheryl Strayed, decidir enfrentá-la a pé e sozinha parecia ser sua única alternativa para abandonar “uma vida de lama”, provocada pela morte prematura da mãe, um casamento fracassado e o vício em cocaína. Acompanhada de uma mochila (enorme!), um par de tênis apertado (que ela largou no meio do caminho) e um bastão de esqui, Cheryl partiu para essa jornada dentro de si mesma com um único desejo: libertar-se dos medos provocados pelas suas expectativas.

O que a pct ensinou a ela nessa jornada, descrita no livro Livre (Rocco), foi viver cada dia como se fosse único. Numa trilha selvagem não se pode prever nada nem se preparar muito para o que pode ocorrer. O encontro com uma cascavel ou um lobo pode acontecer a qualquer momento, ou nunca. Além de um pequeno guia, ela não tinha mais nada com o que contar. O imprevisível estava sempre à espreita.

Pergunto: qual a última vez que treinamos assim com o desconhecido? Com o inesperado? Apenas tente lembrar qual foi a última vez que decidiu abandonar temores e desejos gerados por suas expectativas e simplesmente se jogou num campo inteiramente novo. Será que você conseguiu se libertar do peso que as coisas que imaginamos em relação ao futuro nos colocam nos ombros, mesmo que por um breve período? Ou que já pensou em dispensar pelo caminho esse mochilão interno lotado de tralhas que nos faz arrastar com a coluna curvada? Sabe qual foi a última vez que você sentiu o prazer de solta as rédeas (ou suas amarras internas) e deixou de controlar a situação, de manipular e se preocupar, para que as coisas acontecessem do jeito que deveriam realmente acontecer, sem tanto peso ou mesmo ansiedade?

Para sentir esse gosto de leveza nem é preciso fazer viagens tão longínquas. Podemos treinar esse soltar aqui, agora. É só querer. Já pensou como nossa vida se transformaria se não planejássemos tanto? Se decidíssemos prestar atenção mais profundamente a aonde ela já está indo, para então decidir se acompanhamos, ou não, o seu rumo? Saborear a vida sem peso e nos deixar levar pelo desconhecido, sem tantos cálculos e movidos apenas pelo prazer de senti-la?

E apresento uma boa razão para abandonar de vez tantas expectativas. Elas partem da nossa avaliação de uma realidade futura a partir da realidade presente. Temos certos dados, os combinamos entre si e temos uma ideia do cenário futuro. Mas seriam nossas avaliações de realidade algo tão confiável assim? Serão as expectativas uma boa indicação do que pode acontecer? Dois cientistas americanos, os psicólogos Cristopher Chabris e Daniel Simons, afirmam que não, nossas expectativas definitivamente não nos oferecem bons parâmetros. Isso porque, basicamente, somos incapazes de perceber até mesmo um gorila pulando à nossa frente.

O gorila invisível
Cristopher e Daniel bolaram uma experiência em que vários homens e mulheres eram convidados a contar quantos passes alguns jogadores de basquete faziam num vídeo de apenas um minuto. Todos prestavam atenção na contagem dos passes, uns 35. Depois eram perguntados se tinham notado algo estranho na cena. Metade das pessoas dizia que não. O que era estranho, já que durante nove segundos uma aluna vestida de gorila pulava com bastante energia no meio dos jogadores. Seja porque fosse muito improvável imaginar um gorila no meio da quadra, seja porque as pessoas não conseguiam dividir sua atenção entre a contagem e o que estava acontecendo diante dos seus olhos, a verdade é que metade dos avaliados não conseguia perceber o gorila. É o que se chama de “cegueira inatencional”, um ponto cego que não conseguimos identificar numa situação geral.

Ora, veja que seres pouco confiáveis somos nós ao avaliar uma situação… Não contamos com o imprevisível, mesmo se ele estiver pulando freneticamente como um gorila diante de nós. Então como somos capazes de ter tanta certeza de nossa avaliação do que pode acontecer no futuro, se nem vemos o que está acontecendo no presente, diante de nós?

“O problema não é ter expectativas. O problema é acreditar muito nelas”, diz a psicóloga mineira Rosa Bastos Fabretti. “Isto é, o medo e a esperança nos trazem expectativas de coisas boas ou ruins. De certa forma, isso é bem normal. O patológico é se agarrar ao medo e à esperança e se deixar alucinar pelas expectativas”, diz Rosa. “A vida não se expressa apenas dentro da margem estreita do que pensamos que vai acontecer. Isso é querer sufocá-la demais, criar uma grade interna e absurda de segurança e pensar que a existência só vai fluir dentro daquele quadradinho imaginado por nós. Ou ficar apavorado e em pânico quando ela se recusa a ficar enjaulada ali”, afirma a especialista.

Esse é um bom motivo para abandonar o amor às suas expectativas: elas são bem menos criativas, generosas e inesperadas do que a vida. Então cadê a serventia?

No Pico da Montanha
Medo e esperança são faces da mesma moeda, dizem os budistas. Se temos desejo, temos esperança. Se temos apego, temos medo. Um belo resumo de nossa vida. E, oscilando entre medo e esperança, esquecemos de viver no presente. “Hoje temos um grande número de pessoas com depressão, tristezas ou remorso. Esses sentimentos são predominantemente causados pelo passado”, escreveu o monge Genshô, da tradição zen, no seu blog, O Pico da Montanha. Gosto de acompanhar o que diz o monge Geshô.

Ele dá sempre um toque sobre a vida cotidiana. Aqui ele fala como o passado pode arruinar o presente, se ficarmos agarrados a ele. Mas também escreve sobre os riscos de se grudar ao que pode ou não acontecer. “Outro problema é o futuro. O que farei amanhã, dívidas que terei de pagar, problemas a serem resolvidos, tudo isso gera ansiedade. Quando você vive no futuro, é ansioso; quando vive no passado, é deprimido”, aponta ele.

Bom, né? Vivemos mesmo num tempo em que é muito difícil estar plenamente no presente, tudo nos puxa para fora. Nessa existência cheia de distrações em que temos pouco tempo de entrar em contato com o nosso interior, com nosso corpo e as sensações provocadas pelos cinco sentidos. Muito longe do tempo e da realidade em que acordar de manhã respirando cheiro de mato, neblina e sol nascendo, dar milho para as galinhas, rachar lenha, plantar ou cozinhar nos levava continuamente para o momento presente, para aquilo que precisava ser feito naquele exato instante.

Somos igualmente atraídos pelo futuro e pelo passado. Nos preocupamos com o que pode ocorrer por causa dos nossos inúmeros compromissos, do excesso de responsabilidades e das mil atividades durante o dia. Uma vida frenética. Ou então ficamos presos a uma idealização exacerbada do que já aconteceu, às inseguranças que nos grudam como cola numa cadeira ao que está garantido e à falta de abertura às possíveis mudanças e transformações. Por isso, a vida, de vez em quando, é obrigada a dar um pontapé para que tenhamos coragem para sair da zona de conforto, onde nos encontramos.

Mas o que acontece quando se vive mais focado no presente, naquilo que está acontecendo agora? Um milagre: abre-se um espaço em que podemos viver momentos felizes, principalmente porque estamos mais abertos e prestando atenção no que está acontecendo naquele exato instante. Por exemplo: agora entrou um raio de sol no quarto e me aqueceu nesse dia frio; agora sinto meus pés quentinhos em um sapato macio; agora meu namorado me abraçou e senti o perfume amadeirado de sua colônia de barba.

No agora, a vida ganha cores, cheiros, sons, toques, sabores que proporcionam inúmeras e deliciosas pequenas alegrias. Da depressão e tristeza causadas pelo apego ao passado podemos ir para uma intensa sensação de leveza e felicidade. Da ansiedade e angústia pelo futuro, para uma sensação de plenitude e abundância, e um sentimento reconfortante de que, sim, tudo vai dar certo.

Pelo menos uma vez já nos sentimos assim: quando éramos bebês, pequeninos. E, por um momento, tínhamos todas as nossas necessidades satisfeitas: barriga cheia, cobertor macio, calor amoroso de mãe, paz e tranquilidade. Inteiramente imersos no presente, éramos felizes.

Esse estado de sensações pode ser descrito como o de um profundo e silencioso isolamento, entregue ao fluxo da existência. “Essa condição inicial, de um abandono total ao fluxo da vida, me parece a pedra de toque da futura sensação de liberdade buscada em muitas práticas de meditação orientais. Trata-se de uma condição extrema da vida, que buscamos repetir numa prática do pensamento ou corpo, com o intuito de encontrar a mesma paz e significado que um dia experimentamos. Uma forma de significar o indizível estado de só ser, que um dia vivenciamos sem experimentar – pois não havia, naquele momento inicial, um alguém para fazê-lo”, me diz o psicólogo e pensador Levi Leonel de Souza. “Esse estado de solidão essencial pode ser experimentado nas etapas posteriores da vida em certos momentos bastante específicos – no clímax sexual, no sono profundo, na meditação e em outras experiências-limite.

Nesses instantes, podemos fruir de uma sensação corporal de indescritível liberdade – um estado de profunda leveza de ânimo, com um significado atemporal e inespacial”, afirma com precisão Levi. Essa sensação de plenitude é o que vamos tentar encontrar diversas vezes ao longo da vida. “Essa falta de referências no tempo e no espaço pode ser uma das buscas ao que chamamos de ‘liberdade’”, conclui o pensador.

É isso. A liberdade nos faz sentir vivos e plenos com as nossas escolhas. Ao nos desligarmos das expectativas dos compromissos e possíveis cenários futuros ou do apego paralisante do passado, daquilo que já aconteceu, podemos respirar mais relaxados. Vivemos a cada momento o que tem de ser vivido, naquele único instante. E isso é bom. Traz uma sensação de alívio enorme. Acredite. Ou melhor, experimente.

O Campo do Desconhecido
Na sua visita ao Brasil, o papa Francisco nos deixou uma frase de ouro: “Um cristão deve conservar a esperança; deixar-se surpreender por Deus e viver na alegria”. Gosto demais dessa reflexão, mas sobretudo da segunda parte. Ele não fala da esperança derivada da expectativa, a que espera que a vida aconteça de acordo com o que desejamos. Ele fala da esperança que confia em um outro poder, numa outra direção que não é a nossa, e que a aceita com alegria, acolhe o que está por vir de coração aberto.

Na tradição japonesa, essa força ampla, que não depende de nós, chama-se tariki ou “outro poder”. Também podemos batizá-lo de Deus, Tao, Campo do Desconhecido, Nuvem do Não-Saber, como se referem a ele diversos autores e tradições. “Tariki tem o poder de comover a todos nós, acreditemos ou não na existência de Deus ou de Buda, aceitemos ou não a existência de um mundo que não podemos ver, é uma esfera que transcende todas as fronteiras nacionais e étnicas. Tariki é aquele algo especial que todos estamos inconscientemente buscando”, escreveu o escritor japonês Hiroyuki Itsuki no livro Tariki (Bertrand Brasil).

Ele é um poder invisível que atua em nós vindo de outra esfera. Tariki também é um conceito que se opõe ao poder resultante do esforço individual, do planejamento, precisão e cálculo exato, chamado de jiriki, o “poder próprio”. “É o poder individual que chega aonde precisamos ir a partir dos nossos próprios conhecimentos, vivendo apenas com nossos próprios recursos”, diz Clark Strand, um monge budista que abdicou de tudo para voltar ao cristianismo, depois de experimentar vários caminhos espirituais.

O ideal é que o “poder próprio”, individual, esteja sempre alinhado com o “outro poder”, e que a gente se lance na vida com entusiasmo e alegria, sabendo que o leme não é só nosso. Isso traz uma sensação de conforto e confiança em relação ao futuro. Tira a solidão dessa história. Há sempre um novo caminho eterno e puro para ser vivido. Cheio de surpresas, de alegrias inesperadas, de confiança e fé. E é preciso começar a saber reconhecer para onde o vento do “outro poder” sopra.

Para isso, é necessário relaxar o corpo, acalmar o espírito durante meditações ou orações, reconhecer os sinais enviados pelas sincronicidades e também ajudas inesperadas. Como Indiana Jones diante do desfiladeiro no filme A Última Cruzada, é um caminho que se faz debaixo dos nossos pés a cada passo, no vazio, quando temos no coração a fé inabalável de que trilhamos uma rota invisível. E essa jornada começa com um primeiro passo: abrir-se para o novo sem expectativas.

É com esse estado de espírito que a jovem americana iniciou a trilha a que me referi no começo deste artigo. E, só para contar um pouco mais, vou dizer como acaba essa história: Cheryl resolveu viver onde terminava a PCT, no Oregon, casou-se, teve filhos lindos e, aos 44 anos, tornou-se uma escritora premiada ao contar a própria história. Algo bem diferente do que apontavam todas as expectativas.


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COMENTÁRIOS

  • Bruna Sakamoto

    que delicia de texto! Possamos ser um pouco mais confiantes no caminhar, sem nos confrontarmos com as possibilidades de haver um chão embaixo de nossos pés… Palavras que ressoarão por algum tempo dentro do meu coração, gratidão pela partilha.

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