Intuição ou piração? Aprenda a confiar nos seus sentidos

  • TEXTO SIBELE OLIVEIRA
  • DATA: 28/12/2021

Ter uma percepção acurada de tudo o que acontece na vida facilita a escolha de caminhos nos quais nos sentiremos mais felizes.

 

“Isso é loucura!”, disseram os amigos de Monique Evelle. Mas a menina de 16 anos não achava a ideia descabida. Dona de sentidos aguçados, ela preferiu ouvir sua voz interna, que falava mais alto do que as outras. “Vai lá, Monique. Vai sozinha mesmo.” E lá foi ela para as ruas da periferia de Salvador conversar com as pessoas sobre novela e futebol.

Os papos descontraídos serviam para a garota tocar em assuntos que ocupavam seus pensamentos, como raça, gênero, orientação sexual e desigualdade social. Ela queria torná-los populares como as tramas dos folhetins e o desempenho dos jogadores em partidas importantes. Por trás dessas conversas, que duraram dois anos, o objetivo de Monique era encontrar uma forma de resolver os problemas sociais de sua cidade. Ela sentia que aquelas vozes todas que ouviu em suas andanças não podiam se calar.

Por isso, criou o Desabafo Social, uma organização voltada para a educação e direitos humanos. Embora fosse forte e decidida, no início ficou confusa e angustiada com a linguagem dos negócios. Mas seus sentidos gritavam que ela estava no caminho certo. Então decidiu entregar a eles o volante das decisões que tomaria dali em diante e estudou muito para entender aquele mundo novo no qual tinha mergulhado. O projeto da empresária e criadora de conteúdo virou um laboratório de tecnologias sociais aplicadas à geração de renda, comunicação e educação, e ganhou vários prêmios.

No meio do caminho, ela ainda se tornou sócia de um hub de inteligência cultural. Mas, no ano passado, se deu conta de que tinha realizado tudo o que queria na vida antes dos 25 anos. Precisava de um sonho novo que provocasse um frio na barriga e fizesse seu coração voltar a bater forte. E ele apareceu de repente, enquanto Monique pensava sobre o futuro do trabalho.

Ela correu para contar ao namorado que queria fazer um clubinho onde pessoas pudessem trocar ideias, conhecimentos de mundo e criar uma realidade melhor.

Apesar dos muitos questionamentos dele e de outras pessoas, Monique convocou gente de confiança, colocou a ideia no papel, desenhou-a em plataformas gratuitas e jogou nas redes sociais. Foi assim que seu novo sonho veio ao mundo: uma comunidade de artistas e criadores de conteúdo que precisam ganhar dinheiro com o seu trabalho. Desde então, ela sente um orgulho imenso ao ver seu “bebê”, batizado de Inventivos, crescer.

“O que me trouxe até aqui foi o que chamo de intuição promissora, que faz com que eu crie, queira ou não queira alguma coisa. Quando eu realmente acredito que o caminho é esse e não aquele, eu me movimento com mais agilidade e as coisas funcionam.”

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Monique voou porque usou seus sentidos como asas. Algo que está ao alcance de todos nós.

“A cada segundo que passamos despertos, experimentamos a vida quando ela encontra nossos cinco sentidos — visões, cheiros, gostos, sons, texturas. O cérebro humano evoluiu de modo a que sejamos capazes de reagir com eficácia ao que se passa à nossa volta, à medida que acontece no presente”, afirma o psicólogo social John Bargh. É o casamento dos sentidos com a intuição, da sabedoria consciente com a inconsciente, que gera ideias capazes de nos alçar a lugares incríveis, que nos inspira a ter as melhores escolhas e nos faz escapar de armadilhas internas e externas.

Sem medo de altura

Só que ambos costumam passar despercebidos. Por falta de tempo, na maioria das vezes. Mas também por medo. É ele quem fica repetindo que tentativas de voar sempre terminam em quedas. “A pessoa vê o outro maior do que ela. Como uma criança, que precisa de orientação, de apoio emocional. E segue buscando essa orientação, aprovação, porque não confia nela mesma, nos seus sentidos. Espera, com o pensamento mágico infantil, que o outro descubra as suas necessidades”, analisa a psicóloga junguiana Amélia Kassis.

Esse exercício de perceber os sentidos e se comunicar bem com eles não é algo que podemos pular, que não fará falta. “Desenvolver a autopercepção, até mesmo para saber como vamos nos posicionar no mundo, é de extrema importância. Essa segurança se forma na infância, mas pode ser desenvolvida na vida adulta também”, ressalta Amélia.

Quem passa por um trauma ou uma carência de estímulos quando criança tem essa capacidade natural prejudicada. Sem ela, a pessoa cresce insegura, se sente desconfortável a cada passo que dá sozinha, precisa sempre de alguém que confirme o que está vendo e sentindo, e ainda corre o risco de atravessar a vida sem saber o que de fato quer.

Por isso é tão importante ter os sentidos “alfabetizados” e fazer uma leitura correta deles. Para saber quando dizer sim e não, calar ou falar, parar ou se movimentar, dar um passo para trás para ter condições de avançar depois, revisitar o passado em busca de respostas, mudar a rota ou seguir em frente. É um aprendizado que dura a vida toda e parte importante do autoconhecimento. Quanto mais habilidade tivermos de decodificar os sentidos, clarear as emoções e tirar da nossa bagagem de vida experiências que podem nos dar um norte, mais tranquilas serão as nossas reações aos acontecimentos, mesmo os difíceis.

Quando o mundo se abre

A espanhola Laia de Ahumada, doutora em filologia catalã, inspirou-se em sua infância cercada de liberdade e silêncio, correndo pelos campos e ao pé do mar, para escrever o livro infantil O Sexto Sentido (Fragmenta Editorial). Nele, reproduziu a explicação que dava aos filhos pequenos do que considera um dos grandes mistérios da vida, que está além dos cinco sentidos.

“O que sinto é um calorzinho interior que me guia como um farol para eu não me perder; que me diz que aquilo que eu faço está bem feito; que me faz sentir que eu, as outras pessoas, os animais, as árvores, a Terra, a Lua… tudo, tudo tem relação com tudo e está onde deve estar, no seu lugar, em paz.”

E continua: “O sexto sentido tem uns binóculos que me permitem perceber se o outro está triste ou contente olhando apenas para a sua cara, ainda que não me diga. O sexto sentido tem um ouvido tão fino que por vezes me faz calar para escutar o silêncio, para descobrir como respira uma onda ou para sentir a voz do vento no cimo de uma montanha. Tem um olfato tão apurado que detecta logo se aconteceu alguma coisa estranha ou se está tudo calmo. Tem um paladar tão sensível que me ajuda a saborear os bons momentos com os amigos, com a família… ou sozinha. O sexto sentido permite-me comunicar sem palavras, sentir o pulsar de uma rocha ou o formigueiro da seiva que passeia dentro da árvore”.

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Essa sabedoria natural desembaça emoções e pensamentos e, nutridos dos nossos sentidos de forma integral, temos mais pistas sobre quais rumos seguir. “Quando estamos vidrados num único caminho, a gente se torna um pouco míope. As pessoas usam muito o termo ‘lugar de fala’ e esquecem que precisamos ter o ‘lugar de escuta’.” O problema é que, quando somos muito racionais, erguemos um muro que nos separa da sabedoria que mora em nós.

Fortalece suas asas

John afirma que somos programados para confiar em nossas percepções. “A informação que chega às nossas mentes de forma fácil e natural, sem que tenhamos que interpretá-la ou dedicar a ela qualquer esforço, parece ‘verdadeira’ e ‘parte do mundo lá fora’”, explica.

Como uma flor, que sabemos o que é sem ter que pensar, porque está ali, diante dos nossos olhos.

Estar sintonizado com os instintos não garante que a insegurança vai embora para sempre. Dúvidas vão continuar existindo, mas não a ponto de nos deixar perdidos como se estivéssemos numa escuridão completa.

Quando elas insistem em incomodar, é sinal de que precisamos buscar a resposta dentro de nós. “Feche os olhos, respire e perceba como você se sente melhor, se é indo ou ficando. Cheque as decisões com a sua sensação”, aconselha Amélia.

É hora também de dar mais atenção aos sentidos, mesmo que a correria diária tente atrapalhar. Coisas simples como sentir a textura da xícara na mão, o aroma e o sabor do café, ou perceber a água escorrendo pela pele durante o banho. “A gente fica dissociando corpo e cabeça. Essa dissociação prejudica os nossos sentidos. Qualquer coisa que possa nos fazer voltar para o nosso corpo, integrar a mente ao corpo, ajuda. Não temos desculpas para não estar conosco”, frisa Amélia.

Existem infinitas formas de apurar os nossos sentidos, como fazer meditação, exercícios de respiração, ioga e corrida de rua. Além de prestar mais atenção no que os sonhos nos dizem, de acordo com o significado que os símbolos contidos neles têm para nós.

Ainda assim não estamos livres de errar ou de ter arrependimentos, porque, no fim das contas, a responsabilidade do que fazemos é só nossa. Se isso ocorrer, tudo bem. Da mesma maneira que acontece com os pássaros, cair no chão não significa que não temos condições de voar. Ao contrário. Estamos fortalecendo as nossas asas para ir mais longe.

 


SIBELE OLIVEIRA recorre aos sentidos sempre que se vê numa situação complicada. A solução nunca demora a chegar.

***Este texto foi originalmente publicado na edição 232 da revista impressa Vida Simples com o título “Confie nos seus sentidos”.


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