Fora do ritmo

  • TEXTO Gustavo Gitti
  • DATA: 27/12/2019

A experiência de entrar no ritmo não é apenas musical. Ela nos entrega a confiança ancestral de que somos todos uma só família.

 

A nossa vida parece estar sempre para chegar ou já ter passado. Alternamos entre correr atrás do tempo (estresse, ansiedade, correria, distração, “quase lá”) e esperar o tempo chegar (tédio, torpor, embotamento, depressão, “quando tal coisa acontecer, aí sim…”). Os ritmos das coisas, da natureza, das pessoas ao redor parecem diferentes do nosso próprio ritmo. Não nos sentimos no tempo certo. É como assistir a um filme com o áudio fora de sincronia. Ou, ainda, antecipar o começo do refrão de uma música.

Se você medita das 9h às 12h, isso é uma prática limitada: é como se você fizesse a meditação da espera do almoço (lembro do Lama Padma Samten brincando assim durante um retiro em Viamão, no Rio Grande do Sul). Nós nunca vamos relaxar de verdade dentro da sensação de ter uma hora, uma tarde, uma semana, um ano, uma década, uma vida. Pense: se tirarmos férias de um mês, vamos ficar restritos ao relaxamento de um mês – pior: na terceira semana, já estaremos com a sensação de ter uma semana. Experimente tentar boiar no mar logo depois de ver uma onda bem grande despontando no horizonte. Você deita com prazo de validade. Mesmo enquanto dura, há um pano de fundo de inquietação. Estamos mais deitados sobre nossa própria tensão do que no oceano.

A felicidade do tempo infinito

Porém, quando nossa mente começa a não se restringir à duração de tempo, pode surgir aquela famosa sensação de ter passado uma hora em um minuto ou um minuto em uma hora. Mesmo se temos apenas 15 minutos de conversa, nossa mente repousa com todo o tempo do mundo. A felicidade do tempo infinito só pode ser encontrada além da passagem do tempo. Senão estamos em algum lugar no tempo, antes ou depois de algo, condicionados, mesmo que por um éon.

As diversas temporalidades existem dentro de bolhas de percepção. Tudo bem esperar uma hora entre chegar ao aeroporto e embarcar, mas uma hora é demais para esperar o feirante arranjar o seu troco. Dez minutos são uma eternidade quando estamos com dor, mas passam rápido quando estamos com prazer. As sensações de urgência, de ter passado muito ou pouco tempo, de estarmos no começo ou no fim de um ciclo, de existirem momentos diferentes ou de estarmos em um mesmo momento… são todas relativas apenas à nossa mente.

De acordo com o músico austríaco Reinhard Flatischler (que vem ao Brasil em março), para a sincronização acontecer precisamos de duas condições: contato e flexibilidade – distância e rigidez nos separam da grande vida. Quando há algum processo de cair junto no mesmo ritmo, nos sentimos como um só corpo, como as 30 mil pessoas que bateram palmas com o time de futebol da Islândia, ou as 1500 pessoas cantando Hallelujah, de Leonard Cohen.

Gustavo Gitti é professor de TaKeTiNa (transformação pelo ritmo). Seu site é taketina.com.br


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