Fadiga de decisão: quando o cérebro não sabe o que fazer.

  • TEXTO Gisela Garcia
  • FOTOGRAFIA Jens Lelie (Unsplash)
  • DATA: 28/05/2021

O termo Fadiga de Decisão surgiu após um estudo que constatou que o processo de decisão é exaustivo para o corpo e para a mente.

“A vida é feita de escolhas”. Este texto começa com um clichê para alertar que — talvez você nunca tenha parado para pensar nisso — mas realmente estamos o tempo todo tomando decisões. E quanto mais decisões tomamos ao longo do dia, mais cansados ficamos. E com isso aumentam as chances de fazermos escolhas erradas. Sim, esse fenômeno existe e tem nome: Fadiga de Decisão.

O neurologista e prof. Dr. Adjunto da PUC-PR, Leonardo Valente Camargo explica, que graças a neurociência, hoje entendemos melhor como acontece o processo de decisão no cérebro. Já sabemos que tais processos são complexos e envolvem diversas áreas do sistema nervoso central. Entre elas, a parte onde se processam as emoções e que essas podem interferir nas nossas decisões”, comenta. “Tomamos decisões praticamente a todo momento. Estima-se que uma pessoa adulta tome 35 mil decisões por dia. Decisões menos ou mais complexas. Com impactos em diferentes proporções individuais e coletivas”, explica o neurologista. Ou seja: tomar decisões pode ser um processo exaustivo, já que exige esforço de diversas áreas do nosso cérebro.

Decidir demais cansa.

O termo Fadiga de Decisão é atribuído ao psicólogo norte-americano Roy Baumeister e surgiu após um estudo realizado pela universidade israelense Ben Gurion em parceria com a Universidade de Stanford (EUA). O estudo foi feito com juízes israelenses e apontou que os participantes da pesquisa tinham mais chances de negar o pedido de liberdade aos presos quanto mais tarde fosse realizada a audiência de análise do pedido.

Os pesquisadores analisaram 1,1 mil decisões e observaram que 70% dos pedidos analisados no começo da manhã foram deferidos. No fim da tarde, o índice de pedidos concedidos caiu para 10%. Aqui no Brasil, a juíza Federal Substituta da 21ª Vara Federal de Curitiba, Amanda Gonçalez Stoppa, diz que sente o peso de ter que tomar decisões no seu dia a dia. Muito decidida em suas questões pessoais, quando o assunto é profissional, a situação muda. “Não é só decidir, eu tenho que ser justa”, revela.

fadiga de decisão

Tingey Injury (Unsplash)

São muitos os processos para serem sentenciados em um dia de trabalho e Amanda diz notar que suas decisões no começo do dia são mais assertivas e analisadas com mais calma. “No final do expediente, eu sinto que o cansaço torna as decisões mais rápidas e as chances de passar algum detalhe são maiores”, explica. Amanda conta que quando tem dúvidas sobre uma decisão importante, prefere deixar para outro momento, em que esteja mais descansada. “Por mais que eu tenha que tomar muitas decisões, ser justa ainda é o mais importante no meu trabalho”, relata.

Quando a decisão certa pode salvar vidas

Mas nem todo profissional pode deixar decisões importantes para depois. É o caso do médico neurorradiologista intervencionista Marcelo Boldato. Ele explica que no seu dia a dia precisa tomar decisões importantes que podem impactar muito na vida de outras pessoas e para isso ele segue protocolos de segurança e não hesita em recorrer a outros médicos. “Os protocolos existem para ajudar o médico em momentos de emergências, de decisões rápidas. E quando é um caso fora da curva, eu peço ajuda aos colegas. A troca de informação sempre é válida e importante.”, comenta.

Marcelo diz que, apesar da responsabilidade, ele se sente confortável para fazer essas escolhas que salvam vidas. “Mas realmente minhas decisões são mais firmes pela manhã. Talvez por estar com a cabeça fresca, ter dormido”, conta. “Claro que isso varia de um dia pro outro. Se fiz muitas coisas no dia anterior, alguma cirurgia complicada, paciente complicado, na manhã seguinte, eu fico mais devagar e demoro a entrar no eixo”, finaliza.

Marcelo conta que quando existe a possibilidade de adiar uma decisão, ele faz isso. “Se estou na dúvida e posso deixar para decidir depois, eu coloco isso de lado, fora da cabeça por uns dias e quando eu retomo o problema, sinto que a decisão fica mais clara para mim”.

Com que roupa eu vou?

De fato, existem mecanismos que podem diminuir o número de decisões durante o dia e assim, amenizar o cansaço e as consequentes más escolhas. O ex-presidente americano Barack Obama e o criador do Facebook, Mark Zuckenberg, por exemplo, já admitiram que usam o mesmo tipo de roupa todos os dias, porque assim têm uma decisão a menos a tomar. Mas, é claro que você não precisa ser tão radical.

A psicóloga, psicoterapeuta e diretora do Centro de Psicoterapia Somática (CPSB) para Portugal e Espanha, Maria del Mar Cegarra Cervantes, explica que fadiga da decisão tem a ver com excesso, com algo que ultrapassa o limite daquilo que é suportável para a pessoa. “A fadiga é um estresse que já não é saudável e acontece quando a pessoa é exigida de forma extrema”, conta.

fadiga de decisão

Victoriano Izquierdo (Unsplash)

E se fadiga é excesso, temos que encontrar uma forma de retirar esse excesso. Maria del Mar ensina como: “devemos fazer planejamentos para reduzir as decisões por impulso, que têm mais chances de serem equivocadas. Por exemplo, criar uma rotina semanal, planejar no domingo as compras de mercado para a semana, o cardápio da alimentação da família, planejar o tempo que será destinado para descanso e tentar cumprir e, por que não, as roupas que pretendemos usar”.

Planejando suas escolhas

De fato, tanta organização e planejamento não são tarefas fáceis, exigem disciplina para começar. E é muito importante criar algo possível, real, para não se frustrar. A psicóloga Ana Clara Fernandes concorda que criar regras para decisões corriqueiras é uma ótima maneira de evitar a fadiga de decisão. Segundo ela, o ideal é planejar o máximo de coisas que conseguir. “Sugiro inclusive, definir quanto tempo cada tarefa deve levar para ser concluída. Ter hora e dia certos para cada atividade ajuda muito na tomada de decisão”, revela.

E tanto ela quanto Maria del Mar são categóricas sobre os imprevistos e as decisões por impulso decorrentes da falta de organização da rotina. “Imprevistos sempre acontecem. Planejar o que já sabe que irá acontecer no início da semana evita correria e estresse extra”, diz Maria del Mar. “Estipule um horário para executar as tarefas que irão surgir na semana e que não foi possível prever no planejamento”, comenta Ana Clara. A carência por trás da decisão por impulso.

Maria Del Mar diz que a impulsividade que leva às escolhas rápidas — e, talvez, más — está relacionada com a carência em nível afetivo. “A carência faz disparar indicadores como glicose e cortisol, por exemplo. Essas cargas emocionais geradas pelo stress podem gerar a impulsividade para mitigar imediatamente a falta de algo no organismo. É como comer por impulso para suprir a falta de açúcar no sangue. E o mesmo para mitigar a angústia de não fazer algo concreto”, explica.

fadiga de decisão

Brandon Lopez (Unsplash)

Mas a psicóloga conta que também é possível se habituar a tomar decisões rápidas. E isso, mais uma vez, passa pela disciplina. “Pequenas pausas no dia para respirar conscientemente são fundamentais. Isso tem um efeito reparador e reorganizador. Mas é preciso que todos os dias estejamos atentos a essas pequenas pausas e não as deixemos apenas para os finais de semana ou férias. Está comprovado por diversos estudos científicos que as pausas têm um efeito enorme na saúde. Elas são uma espécie de barreira contra o estresse e o desgaste do organismo.

Como driblar a fadiga?

Ana Clara afirma que pensar sobre o processo de decisão em etapas facilita muito. Primeiro é preciso definir o problema. Quanto mais clareza e precisão melhor. Segundo, fazer um levantamento das alternativas possíveis. Mesmo as que não pareçam tão boas assim — ainda não é o momento de racionalizar sobre elas. A seguir, reflita sobre todas as alternativas e pense qual será a que tem melhor resultado e que está dentro da sua possibilidade de tempo e espaço. Decida! E, por último, implemente a solução escolhida.

Segundo ela, esses passos pacificam a decisão tomada. “Traz a certeza de que mesmo que não seja a melhor alternativa de todas, foi a melhor que você conseguiu avaliar e executar no momento. Caso seja difícil seguir esses quatro passos, Ana Clara sugere que se reflita sobre as possibilidades que essa decisão trará. “É pensar no custo e no benefício e ver qual é a mais acertada”, finaliza. Mas lembre-se: todo mundo erra. Quando tomar decisões erradas, aprenda a lição e siga em frente. Aceitar as questões do passado e focar no futuro é a melhor decisão que você pode tomar.


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