Evento propõe discussões sobre vida e morte

  • TEXTO Nara Siqueira
  • FOTOGRAFIA Divulgação | Istock
  • DATA: 29/08/2019

Dos dias 03 a 08 de setembro, São Paulo recebe o Festival inFINITO, um encontro de palestras e atividades pautadas na nossa finitude. Aqui, o idealizador, Tom Almeida, fala sobre o tema

Um ativista do bem morrer. É assim que Tom Almeida, fundador do movimento inFINITO, que tem como missão ressignificar a morte, se define. Isso porque, há alguns anos, ele tem promovido encontros e experiências em torno do fim da vida. “Somos finitos e isso é inquestionável”, diz ele. “Formar uma comunidade forte e disposta a compartilhar aprendizados acerca dessa máxima faz com que nosso processo de crescimento e autodescoberta seja ainda mais rico e único”.

No começo de setembro, Tom receberá convidados nacionais e estrangeiros para a segunda edição do Festival inFINITO, que contará com mais de 40 atividades divididas nos eixos que norteiam a programação dos seis dias de evento: amadurecimento, adoecimento, terminalidade, morte e luto.

À Vida Simples, ele fala sobre os tabus que ainda permeiam esses temas e a importância de nos abrirmos para conversas sobre os ciclos da vida.  

 

Quando você se deu conta de que a morte existia?
Eu tinha uns seis, sete anos. Um dia, minha mãe me chamou em seu quarto e disse “olha, nessa caixinha tem todos os documentos importantes. Se algo acontecer comigo, está tudo aqui”. Fiquei completamente assustado. Como assim minha mãe morrer? Quando nasci, meus pais já tinham uma idade mais avançada, então esse medo passou a me acompanhar constantemente. Lembro que os natais eram um conflito entre celebração, por tê-los por perto mais um ano, e temor, por ter a sensação de que a morte estava cada vez mais próxima da gente. 

E de que forma você decidiu transformá-la em tema principal do seu trabalho?
Passei por três perdas importantes no período de três anos. Primeiro, foi minha mãe, que faleceu aos 84 anos sem que eu pudesse me despedir dela. Depois, aos 41 anos, foi a vez do meu primo. Foi aí que entendi a importância de falar sobre os fins, porque o não falar causa muito mais sofrimento e dor, acaba afastando as pessoas. Pudemos, com ele, criar espaços para que essas conversas acontecessem. No ano passado, perdi meu pai, mas foi uma experiência totalmente diferente. Ele morreu em casa, cercado de amor. Por um tempo antes de isso acontecer, conversamos. Perguntei se ele tinha medo da morte, se achava que já estava na sua hora e o que era importante para ele naquele momento. Ele foi o protagonista da própria história até o fim. Os três acontecimentos me ensinaram muito e despertaram uma consciência que, até então, não tinha. Logo, trabalhar com isso não foi exatamente uma escolha. Foi mais uma consequência de um processo muito particular e engrandecedor.

>> Você também pode se interessar por Precisamos Falar sobre a Morte


Por que um festival inteiro sobre nossa finitude?
O Brasil é um dos piores países do mundo para morrer. Em 2015, uma consultoria britânica, a Economist Intelligence Unit, avaliou a forma como 80 nações lidam com o fim da vida. Nós ficamos na 42º posição. Um dos critérios utilizados foi o número de profissionais que trabalham com cuidados paliativos – no nosso caso, são só três mil pessoas para atender toda a população. Eles também olharam para os hospitais e clínicas que estão aptos a receber essa abordagem mais humanizada da morte. Aqui, existe um processo muito doloroso. Normalmente, colocam o paciente em uma Unidade de Tratamento Intensiva, o sedam e entubam, e assim permanece até seu último suspiro. A família não consegue se despedir direito, tudo é muito frio e distante. Nós lidamos muito mal com esse momento, o da morte. O Festival inFINITO quer oferecer diversas portas de entrada para essa discussão. Vamos falar sobre os ciclos da vida, o amadurecimento, o adoecimento, o luto… São convites para olhar para a morte sem tabus, com mais empatia e amorosidade. 

Você afirma que “não devemos ter medo de morrer, mas sim de não viver”. O que é esse não viver?
É viver no automático, com a certeza de que vou chegar até os noventa anos e, por isso, terei tempo de fazer tudo o que quiser lá na frente. O não viver é contemplar a nossa existência de forma adormecida, não celebrando o momento presente por esperar o próximo fim de semana, as próximas férias. O que a gente tem é o agora. 

Costumamos dizer que, enquanto vivos, nossa única certeza é a morte. Se assim o é, por que você acredita que ainda evitamos tanto falar sobre ela?
Porque, no fundo, não temos essa certeza. É bastante incomum encontrar espaços de reflexão sobre a nossa finitude. As pessoas não querem falar sobre morte, muito menos lidar com ela. Quando há uma catástrofe, nós paramos para pensar que tal situação poderia ter acontecido conosco, mas, no dia seguinte, já não nos ocupamos mais disso. Se tivéssemos consciência sobre nosso fim, nos abriríamos para conversar sobre ele. Afinal, falar sobre morte é falar sobre a vida. O viver tem um limite: o morrer. Como aproveitar, então, esse tempo que nos é dado? Como construir conexões verdadeiras? Não dá para postergar aquilo que nos é importante.

 

 

Festival inFINITO
De 03 a 08 de setembro em São Paulo
Mais informações e ingressos disponíveis em: http://festivalinfinito.etc.br/

 


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COMENTÁRIOS

  • Hulda

    Esse evento poderia acontecer em Brasília também. É essencial falar sobre finitude. Amo estudar tanatologia. Somos mortais. E não é apenas sobre o processo do morrer, e sim, do viver. Precisamos aprender a morrer, não só a nossa, mas de quem nos cerca.

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