Essência

  • TEXTO Cris Guerra
  • FOTOGRAFIA Alex Jones | Unsplash
  • DATA: 16/01/2019

Uma mensagem chega pelo WhatsApp. No grupo dos antigos colegas de escola, alguém replica uma postagem rasa sobre política, expressando uma opinião de que não compartilho. Não penso duas vezes: aciono a opção “sair do grupo” e continuo meu dia, sem um segundo de raiva ou rancor.

Em outros tempos, eu investiria numa inflamada discussão. Hoje, escolho a alternativa menos barulhenta. Não tenho a pretensão de mudar a opinião do meu colega, nem energia para acompanhar os eventuais desdobramentos de sua mensagem.

O episódio denota a minha idade. Fiz 48. Não que eu esteja ranzinza ou desanimada. Estou é mais prática. Finalmente sei escolher as batalhas que valem a pena. Outro colega me chama diretamente e pede que eu reconsidere minha saída do grupo. Ouve meus argumentos e não insiste. Ele também está à beira dos 50. Trocamos ideias sobre política, confrontamos respeitosamente nossos pontos de vista, sem esboçar uma ruga de contrariedade. Amadurecemos. E amadurecer, no bom sentido da palavra, é saber escolher. Uma espécie de aprimoramento da capacidade de discernir as coisas e, por que não, de certa flexibilidade para mudar de opinião. Acontece que já vivi o suficiente para reconhecer quando é o caso.

O sol se põe, enquanto em cima da mesa resta uma luminosa lista de tarefas não cumpridas. O sono embaça a vista e amolece a urgência das coisas. As questões que me ocuparam a cabeça ao longo do dia estão menores agora. Amanhã penso nisso. O sono é uma boa metáfora dessa habilidade de desconstruir dramas no dia a dia. Inebriados por ele, somos capazes de apontar o que é de fato importante. O agora é a única urgência. Também aprendo com ele a suavidade das transições. Não preciso abandonar o que fui para ter orgulho do que vou me tornar.

A idade me ensina a colocar os problemas para dormir. Quantas vezes me debati em insistentes tentativas de mudar o outro? Agora, na quietude do corpo que adormece, a consciência finalmente desperta. Importante é transformar a mim mesma. Envelhecer é o melhor que já me aconteceu.

 

CRIS GUERRA acaba de lançar Procurava o Amor em Jardins de Cactos. Escritora, apaixonada por moda, acha que até as palavras servem para vestir.

COMENTÁRIOS

  • Tereza

    Maravilhosa! Eu, aos 46, ainda no exercício cotidiano de tentar colocar os problemas para dormir.

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  • Patricia

    Verdade,bem por aí mesmo!!!😁

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  • Andréia Santos Humsi Rayes Donxeva

    Enxerguei-me no texto. Coincidentemente também farei 48 e também estou deixando diversos entraves, dos quais não “fugiria” antes, de lado. O lado bom do amadurecimento é perceber que algumas coisas não valem o tempo dispendido…

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  • elba

    Simplesmente, PARABENS!!!!!!

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  • Lúcia Bodeman

    Estou nesse mesmo momento, e fiz 59. Envelhecer me trouxe a paz libertadora.

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  • Rejane I Roos

    Eu, aos 60, fiz exatamente como a Cris.
    Já não me debato em inúteis brigas de egos. Já não me ocupo em ter razão sobre assuntos que não acrescentarão leveza em minha vida cotidiana.
    Prefiro cuidar de mim mesma. Da minha saúde mental. Talvez apoiar um filho, abençoar os netinhos com minha presença não invasiva. Cultivar amizades verdadeiras (poucas). Rezar, preparar minhas refeições. Obedecer meu relógio interno que me diz a hora de calar… e viver a vida de forma fluida, sem pressa!

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  • Mayra

    Que respiro na alma…

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  • SHELLIN SHIELDS

    Eu que vou fazer 38, mas me sinto com 48 ainda estou na transição desse amadurecimento. Amadurecer significa isso mesmo: ser mais eficiente.

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