Como um professor ensina e também aprende?

  • TEXTO Wellington Soares
  • DATA: 15/10/2020

Muitas vezes, falamos mais do que escutamos, em uma tentativa de mudar os outros pela via do discurso. Agindo assim, não avançamos tanto

criancas

“Quando a gente é jovem, Wellington, a gente fala demais. É importante também aprender a ouvir.” Foi em algum dia de setembro de 2014 que ouvi essa frase. Quem me disse isso foi a professora Antonia Terra de Calazans, da Universidade de São Paulo (USP), enquanto me explicava os pontos fortes de um projeto que havia acabado de ganhar o Prêmio Educador Nota 10, uma interessante iniciativa que dá destaque a dez trabalhos de professores todo ano.

Entre 2012 e 2018, acompanhei de perto os trabalhos dos ganhadores da premiação, escrevendo ou editando reportagens para contar as histórias deles, e fui profundamente marcado pelas experiências desenvolvidas por esses profissionais incríveis. Um trabalho feito quase sempre em escolas públicas e que trazia lições importantes não só sobre conteúdos escolares, mas também sobre o que significa ser professor atualmente e, no fim das contas, sobre o que significa ensinar, aprender e, também, conviver.

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O trabalho sobre o qual Antonia Terra falava na frase que inicia este texto se referia ao professor João Paulo de Araújo, que atuava na comunidade de Tebas, no município de Leopoldina (MG). A região era o local com maior proporção de pessoas ainda escravizadas quando a lei da abolição foi assinada, em 1888. Ainda assim, os alunos de sexto ano do professor não reconheciam marcas da história e da cultura dessas pessoas que ali viveram. Para mudar esse quadro, não bastava que ele fizesse discursos sobre o tema: era preciso que os alunos enxergassem vestígios da história local. Os jovens pesquisaram jornais antigos – onde viram anúncios de procura por aqueles que conseguiram se libertar do cativeiro – e conversaram com a população.

Saber escutar

João Paulo e os alunos exercitaram, nesse trabalho, uma das mais importantes ações para se viver no século 21, uma cada vez mais difícil de se praticar em sala de aula: a escuta. Ouvir os estudantes foi a ação que proporcionou a maior revolução na educação. O biólogo suíço Jean Piaget (1896-1980) nos deu uma grande mudança na visão da educação ao criar um método de pesquisa baseado não apenas em ouvir as crianças, mas também em fazer intervenções para aprofundar a compreensão sobre o que elas sabiam e como também apreendiam seus próprios conhecimentos.

As descobertas de Piaget mostraram – como discutimos em edições anteriores – que a mente da criança não é uma tábula rasa, mas que ela constrói conhecimentos sobre o mundo o tempo inteiro. Acessar esses conhecimentos e usá-los como apoio para avançar na aprendizagem é o grande fundamento da educação moderna.

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Mas, na escola, como no restante da sociedade, escutar não é uma tarefa simples e demanda algumas posturas bem específicas. A primeira delas é, justamente, encarar o outro com um olhar curioso, com respeito, empatia e afeto. Quantas vezes, em discussões sobre políticas com parentes e colegas, não acabamos subindo em um pedestal
e olhando para nosso interlocutor como um professor à moda antiga olhava para seus alunos: como se tivéssemos todo o conhecimento do mundo e aquele a quem nos dirigimos não tivesse nenhum?

A hora da fala

Para realizarmos uma escuta efetiva, precisamos nos abrir para conhecer o outro, para nos surpreender com sua história, para reconhecer que podemos aprender com as pessoas com quem achamos que sabemos menos. É realmente se dispor a ouvir o que a pessoa traz.

Uma das aplicações mais bonitas dessa filosofia talvez seja o trabalho do professor Felipe Bandoni, ganhador do Prêmio Educador Nota 10 em 2012. Felipe trabalha em um dos colégios mais tradicionais e caros de São Paulo, mas atua na Educação de Jovens Adultos (EJA), oferecida gratuitamente no período noturno (conheça o trabalho dele aqui). Professor de Ciências, ele planejava abordar conteúdos ligados a astronomia com sua turma, mas, para começar, decidiu perguntar aos alunos quais histórias conheciam sobre a Lua: as respostas mostram uma riqueza
gigantesca de conhecimentos culturais, poéticos e até místicos sobre o astro, revelando um saber ancestral que perdura entre as pessoas.

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Para construir uma educação em diálogo, a escuta também precisa ser permeada pela fala. Como, depois de ouvir o que o outro tem a nos dizer, podemos apresentar também o que nós sabemos? E mais do que isso: como fazê-lo de uma maneira tão significativa que se transforme em aprendizagem para o outro? Felipe conduziu os estudantes com provocações que os fizeram investigar o olhar científico sobre o satélite. Observações, leituras, discussões em grupo fizeram a turma conhecer mais sobre o tema, aprofundar seus conhecimentos e relacionar com aquilo que já traziam consigo.

Educação é comunhão

O professor levou seus estudantes a viver experiências que pudessem impactá-los, assim como as histórias que ouviam na infância ou nas cidades de onde vinham. E também que ampliassem a maneira como viam o Universo; ou seja, vivências que trouxessem a eles possibilidades de discutir também cientificamente aspectos ligados a memórias afetivas e à fé, sem que nenhuma delas fosse anulada. Porque, na construção do saber, algo valioso emerge quando o que se aprende pode se conectar com o que já se sabia, ainda que para fazer alguma oposição.

A principal característica dessas experiências é, justamente, abrir possibilidades para que novas experiências sejam vividas. Todos nós já vivemos muitas delas: qual a lição que mais nos marcou na relação com nossos pais? Quais trocas mudaram, mesmo que só um pouquinho, a maneira como nos relacionamos com o mundo?

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Para mim, escutar da professora Antonia Terra sobre a importância de ouvir, e não apenas falar, foi uma delas – entre dezenas que eu consigo citar. Aquele momento me impactou como educador e me fez refletir sobre o quanto estar em frente a uma turma nos ajuda a estar também frente ao mundo. Talvez a melhor síntese de toda essa discussão seja aquela feita por Paulo Freire (1921-1997), em uma de suas citações mais conhecidas: “ninguém educa ninguém, como tampouco ninguém se educa a si mesmo: os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo”.

 

Wellington Soares é jornalista formado pela Universidade de São Paulo. Trabalhou por seis anos na produção de conteúdos para professores da Educação Básica. Atualmente, descobriu-se professor e dá aulas, mas segue escrevendo e ajudando organizações do terceiro setor a produzir conteúdos sobre Educação.


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