Como montar a trilha sonora da sua vida

  • TEXTO Diogo Antonio Rodriguez
  • FOTOGRAFIA Thiago Justo | iStock
  • DATA: 25/07/2019

Mais do que selecionar um apanhado de músicas para uma viagem, um momento de fossa ou uma nova paixão, as playlists funcionam como um retrato das fases pelas quais passamos

Não sei se você tem, como eu, o hábito de fazer playlists. Uma boa dose de paciência é necessária para ouvir e escolher uma sequência de músicas. E paciência é artigo que, em geral, nos falta. Mas recomendo esse pequeno cultivo, especialmente se você gosta de música.

Essas listagens de canções não são apenas pequenas coletâneas pessoais. São também testemunhas de tempos passados, como as fotos, as cartas e os “testimoniais” do saudoso Orkut. Correndo o risco de soar piegas, as listas de músicas conseguem fazer um retrato de quem éramos – e como éramos – tão bem quanto qualquer outro tipo de objeto de afeto.

Melhor ainda: essas trilhas sonoras reproduzem uma parte de nós que é impossível reconstruir por outras vias porque reflete o modo como pensávamos, tanto de maneira racional (retratada na estrutura da lista), quanto emocional (simbolizada pelos artistas e canções escolhidas). O desafio está posto. Busque uma velha fita cassete, um CD coletânea ou lista de mp3 e veja se aquela pessoa não é um tanto diferente da que você se tornou hoje.

Contumaz produtor de “trilhas sonoras da vida”, tive dezenas de encontros com versões minhas ao fazer esse texto e atesto: é quase como ter, na garagem, o DeLorean, carro construído pelo cientista Emmet Brown, no filme “De Volta Para o Futuro”.

Se você ainda não tem esse hábito e gosta de música, fica a recomendação e os passos a seguir. Nunca foi tão fácil organizar e guardar suas canções favoritas, graças às muitas ferramentas ao alcance de praticamente todos.

Afinal, a playlist feita hoje pode ser um tesouro no futuro, porque nos reapresenta a quem um dia fomos em forma de preciosos sons.

Abra seus ouvidos

Para enfileirar canções em uma sequência que desperte o interesse do seu ouvinte (pode ser você mesmo), será necessário ter um repertório amplo. Um bom “montador de playlists” não pode ter preconceitos. Ouça de tudo: visite a parada de sucessos de vez em quando, confira aquela banda que um amigo recomendou e também o programa de música popular na TV, que normalmente passa batido.

Pérolas podem estar escondidas nos lugares mais inesperados. Zé Luís, locutor e apresentador da rádio 89, recorre às filhas para se manter atualizado: “[Peço] ‘Grava pro pai alguma coisa?’ E aí fico conhecendo coisas que, talvez, não teria acesso, e me ajudam muito, mesmo na minha profissão. Eu trabalho numa rádio de rock, não tenho a obrigação de conhecer a música a fundo, mas tenho que saber quem está fazendo sucesso. Nesse aspecto, as playlists delas cumprem esse papel”.

Busque novas fontes

Já mais atento aos sons à sua volta, agora você precisa buscar músicas fora do circuito de coisas com as quais tem contato no dia a dia. Ouve sempre a mesma rádio? Troque de vez em quando. Quando está concentrado recorre ao mesmo álbum? Experimente outro.

Tudo ajuda a aumentar o arsenal musical: festas, filmes, conversas. E, dessa forma, comece a guardar as canções que mais lhe agradam. Fazer isso é importante porque é assim que seu repertório vai se contruindo.

Sempre que ouvir um som que desperte seu interesse, tente saber quem é o autor dela. Se você usa um smartphone, duas ferramentas para fazer isso são os aplicativos Soundhound e o Shazam, que identificam a música que está tocando em um determinado ambiente e revelam quem está cantando. Esse é, digamos, o momento da concepção das playlists: quando você começa a juntar material para os próximos passos.

Pense em temas

Como (quase) tudo que é legal na vida, uma lista boa tem que ter um assunto, uma história, uma questão. Pablo Vilanova, um dos responsáveis pelo site 60’ Playlists, onde é possível encontrar listas como “Prestenção” (com bandas novas) e “Ressaca de Carnaval IV”, conta como surgem as ideias. “Costumo seguir entre dois caminhos: ou faço algo para ouvir em alguma ocasião, ou penso em um conceito – geralmente engraçadinho, porque sou um (mau) piadista – e monto uma lista em cima disso”.

Uma das coisas mais atraentes ao cria-la é deixar a cabeça fazer relações livremente. “Em geral, playlists inspiradas em um estado de espírito, em um tema ou momento especial são mais interessantes do que aquelas focadas em um único artista ou estilo”, acredita Vilanova. E Gustavo Diament, diretor geral do Spotify para a América Latina, acrescenta: “deixe sua criatividade ser o guia”.

Selecione as canções

Pronto, você já ouviu uma porção de artistas diferentes, nos lugares mais variados possíveis e encontrou um tema que lhe agrada. Agora é a hora de afunilar suas escolhas. Com os recursos disponíveis atualmente, dá para fazer listas infinitas, mas é bom sempre pensar em limitar o tempo.

Como escolher as que mais se encaixam? Uma sugestão é ouvir tudo de novo para ter uma ideia geral. Depois, escolher quais canções entram e quais vão ficar de fora – e isso exige uma pequena dose de desapego. Aqui, Vilanova aconselha: “parto das músicas que conheço para encaixar no conceito das playlists, mas sempre acabo pesquisando algumas coisas novas até que fique satisfeito com o encaixe no resultado final”.

Conte uma história

Essa dica não precisa ser levada ao pé da letra, mas é bom pensar que a sua lista pode ser como a trilha sonora de um filme. “Normalmente, vou jogando todas as músicas, depois consolido a ordem criando uma narrativa pessoal ou só juntando as do mesmo estilo”, explica Alexandre Caldera, também do 60’ Playlists. Por fim, compartilhe.

Se resolver usar a internet, mostre aos amigos o resultado final. Coloque nas redes sociais, mande por email, peça opiniões. Alguém pode dar uma sugestão de algo que “não pode ficar de fora” daquela seleção. E em aplicativos como Rdio, Deezer e Spotify, é possível criar playlists colaborativas.

Assim, um amigo que utilize o mesmo serviço consegue adicionar sugestões ali. “Mantenha suas playlists sempre atualizadas”, aconselha Diament, do Spotify. “Os usuários são notificados sempre que novas canções são adicionadas a uma lista que seguem”.

Escolha a ferramenta

Outro ponto importante e que você precisa saber: existem muitas maneiras de criar sua lista. A melhor escolha depende do seu estilo de vida e como costuma ouvir música. A forma mais prática é usando a internet e as dezenas de possibilidades que ela oferece.

Por exemplo, o bom e velho Youtube. No site de vídeos, o usuário consegue salvar as faixas de que mais gosta e montar uma “lista de reprodução”. Uma vantagem dessa opção é a facilidade em compartilhar com os amigos e a universalidade: qualquer um que esteja na internet consegue ouvir. Mas as opções são limitadas e não se encontra de tudo.

Hoje, existem ferramentas de streaming pagas, que por uma taxa mensal dão acesso a milhões de músicas de artistas variados e têm suporte para criação de listas, como as já citadas aqui Rdio, Spotify e Deezer. Todas possuem um vasto catálogo e oferecem um período de “degustação” gratuito.

Diogo Antonio Rodriguez é viciado em playlists e sente falta das fitas K7 com suas ‘paradas de sucesso’.


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