Como lidar com a ansiedade

  • TEXTO Diogo Antonio Rodriguez
  • FOTOGRAFIA Fabian Moller | Unsplash
  • DATA: 21/02/2019

Entender esse sentimento é o melhor caminho para ter mais sabedoria e equilíbrio nas decisões e mais dias de paz com você mesmo

 “Calma. Por que você está nervoso? Não precisa ficar assim. Que exagero. Se você conseguisse apenas ficar um pouco mais tranquilo…” Sim, mas o fato é que eu não consigo. E você, consegue? E quando está nervoso, desesperado, adianta alguma coisa ouvir esses conselhos? Se você é como eu, está acostumado a ouvir frases assim. Escutou-as a vida inteira, de diferentes  pessoas: pais, irmãos, professores, amigos, namoradas, chefes, subalternos, médicos, e até de você mesmo. Calma é o que falta para quem sofre com a ansiedade. É também o remédio que todo mundo tem na ponta da língua na hora em que se depara com o sofrimento de um ansioso crônico. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), somos nada menos que 25% da população do planeta, ou seja, 1,75 bilhão. Aposto que toda essa gente já ouviu essas duas sílabas ao menos uma vez na vida, em diversas línguas. Duas vezes na vida é uma boa média? Chutando baixo, são pelo menos 3,5 bilhões de “calmas”. Pior de tudo é o desperdício de saliva. Proferir tais palavras mágicas a quem está ansioso não adianta absolutamente nada.

É importante deixar claro para o leitor que quem escreve esse texto tem conhecimento de causa. Sou ansioso crônico desde a infância. Desde cedo, tento lidar com o fato de que não sei lidar muito bem com as coisas. “Que coisas?”, perguntará o incauto. Posso falar a verdade? Qualquer uma. Das mais óbvias, como medo de perder o emprego, a pequenezas como “meu chefe me deu uma olhada meio estranha” (uma interpretação de como a pessoa deve estar se sentindo sem base alguma na realidade). Tal “defeito” tem explicação biológica. Ansiosos têm reações desmesuradas porque sua amígdala (órgão na base do cérebro) é mais ativa que o normal. E, adivinhem, ela é responsável por processar, entre outras coisas, o medo. A ideia, porém, não é falar da ansiedade sob um olhar científico. Para isso, o melhor é ler Meus Tempos de Ansiedade  (Companhia das Letras), do jornalista americano Scott Stossel, outro ansioso assumido. A reportagem de Stossel resgata a história dessa terrível condição na história, na filosofia e na psiquiatria. “Tenho uma lamentável tendência para vacilar em momentos cruciais”.

É com essa frase que o autor inaugura o volume. Os primeiros parágrafos narram o dia do próprio casamento. “Perdi o controle do corpo. Este deveria ser um dos momentos mais felizes e importantes da minha vida e estou passando muito mal. Tenho medo de não sobreviver.” Tomado pelo nervosismo, embarca numa espiral de preocupação, o que só piora a situação: “Enquanto suo, quase desfaleço e tremo, esforçando-me para cumprir o ritual (dizer ‘sim’, pôr a aliança no dedo da noiva, beijá-la), preocupo-me com o que as pessoas (os pais de minha mulher, os amigos dela, meus colegas) estarão pensando ao olhar para mim: Será que ele está mudando de ideia sobre o casamento? Será que isso é prova de sua fraqueza inerente?”. Para quem não padece desse mal, pode parecer exagero,mas não é. Quando se entra em um surto desses, é impossível agir racionalmente. O sujeito se vê tomado por um desespero retroalimentado e pouco pode fazer, no momento em que ele ataca, para se convencer de que não há nada a temer. Para quem está de fora, a solução parece simples. Basta dizer: “calma”.

Não basta querer
Além de irritante, essa cura imposta aos ansiosos é injusta porque parte do pressuposto de que podemos interromper o tsunami interno, basta querer. De que estar em estado de ansiedade é frescura ou cena para chamar a atenção. Nada mais distante da verdade. O irlandês Stephen Little, físico, budista ordenado, especialista no ensino da prática da chamada Atenção Plena (Mindfulness), formado em Cambridge (Inglaterra) e professor da The School of Life, explica: “Temos a cultura de manter a calma”. “Essa é uma ótima prevenção de um distúrbio ou de um surto de ansiedade. Mas se a gente só tem essa mensagem, ‘mantenha a calma’, o que devemos fazer quando perdemos a calma? Socialmente, a mensagem de prevenção é nobre e necessária, mas se não temos uma mensagem prática de como lidar com o surto de ansiedade ou a perda de paciência, temos uma panela de pressão. É uma receita para o pânico. Há um perigo na cultura de manter a calma.”

Se existe, afinal, algo parecido com uma solução, ela não está nesse conselho, repetido a exaustão por quem está de fora – e, confesso, dito pelos ansiosos a si mesmos quando a coisa fica feia. Talvez seja mais interessante entender porque vivemos em um mundo onde há cada vez mais gente ansiosa, no qual os diagnósticos desse transtorno só crescem. Até porque, como mostra Stossel, a ideia de ansiedade começou a tomar forma da maneira como a conhecemos a partir de meados do século 20, quando a indústria farmacêutica também voltou seu olhar para esse problema. “Antes da década de 1950, o diagnóstico da ansiedade era quase inexistente”, afirma. Ela começou a virar uma questão “quando se inventaram novos medicamentos a fim de mitigar esses estados emocionais”, continua o jornalista. A partir daí, males como a ansiedade “foram definidos como doenças”, diz.

 

Há um perigo na cultura de manter a
calma. Quando não sabemos como
lidar, de maneira prática, com o surto
de ansiedade ou a perda de paciência,
temos uma panela de pressão

 

 Há relatos sobre os efeitos do nervosismo incontrolável desde a Grécia Antiga. “A ansiedade deve ter sempre existido”, diz Monja Coen, presidenta do Conselho Religioso da Comunidade Zen Budista Zendo Brasil. “Consideremos as várias tradições espirituais e suas práticas de paciência, meditação, presença, algumas com mais de cinco mil anos de história conhecida”, afirma. Fato é que, atualmente, dedicamos muito mais tempo a essa condição. E por que vivemos tempos tão ansiosos? A primeira resposta está no tipo de mundo que construímos. “Distúrbios de ansiedade ou déficit de atenção são provenientes também de muitos estímulos”, diz Monja Coen. “Somos incessantemente provocados pelos meios de comunicação ou pelas redes sociais. É preciso aprender a usar e não ser usado pelos novos instrumentos.” Para Stephen Little, outra raiz dessa questão está na educação. “No Ocidente, a gente é especialista em sonhar no campo das ideias e solucionar os problemas usando o raciocínio, e não temos praticamente nenhum conteúdo para uma educação emocional.”

Onde tudo começa
A base para dar segurança e conforto para uma 
pessoa em formação deve vir, dentre outros lugares, do núcleo básico da família. “A ansiedade é também um clima em casa”, afirma Little. “A relação entre pais e filhos tem que ser levada em conta. Segundo a neurociência, a mudança de hormônios em uma criança de dez anos faz com que passe por uma nova etapa de crescimento cerebral. Isso porque os novos hormônios apresentam novas emoções, que são mais agressivas e rápidas. O cérebro tem que se adaptar a essas alterações até os 20, 21 anos. O papel dos pais nesse período é crucial para passar a arte da resiliência ao filho. Os psiquiatras costumam dizer que, nesse período, os pais são o córtex pré-frontal (área do cérebro relacionada à tomada de decisões, planejamento e medição das consequências) da criança. Quando o  jovem ainda não tem as capacidades desenvolvidas, são os adultos ao redor que fazem o papel dessa estrutura cerebral.” Como? Ensinando a garotada a lidar com as frustrações, decepções e erros. A resiliência é a capacidade de se recuperar a tranquilidade mesmo diante de momentos difíceis. E os pais são essenciais nessa hora, dando o exemplo e ajudando o jovem a entender que não é necessário entrar em desespero. A culpa é só dos pais? Não, claro. Nenhuma resposta é tão fácil, adverte Little: “Sem entrar em causalidade direta: o problema é complexo”.

Mas se sabe que o clima emocional na casa de infância tem um poder grande. “Existem pesquisas mostrando que o perfil emocional do líder influencia o clima de liderança em empresas ou instituições. Um líder motivado por ameaças vai passar isso para todos. A família também tem essa questão do clima emocional. Esse é, provavelmente, o berço do problema.” Faz todo sentido. Veja bem, não basta apenas culpar nossos pais. Mas, convenhamos, o ambiente em que se vive hoje não ajuda os ansiosos a lidarem com o problema. A começar pelo autor destas linhas. A morte de sua profissão, o jornalismo, é decretada semanalmente; ele trabalha como freelancer, o que significa que não sabe qual será o salário de cada mês; depende das novas tecnologias para trabalhar e gosta de usá-las no lazer, o que se traduz em centenas de notificações, mensagens, apitos, barulhos durante o dia. Pior: nasceu, cresceu e vive em São Paulo, terceira maior cidade do mundo, onde 20% dos habitantes declararam sofrer de ansiedade, segundo a OMS. Stephen Little ajuda a pintar esse nervoso quadro: “A nossa sociedade está, há muito tempo, cada vez mais focada em sobrevivência e resultado”.

“Parece que estamos perdendo o contexto maior da vida profissional e até de família. Vou dar um curso sobre potencial no Rio e aposto que quando perguntar sobre o que isso significa, boa parte das pessoas vai associar com potencial profissional. Esse é um sintoma da nossa época. Estamos esquecendo do crescimento emocional e humano”, pondera.


Nada vai tirar a sua ansiedade básica.
Esse sentimento é normal
e não 
precisamos ter medo dele.
Isso faz 
parte da nossa natureza.
Não dá para 
escapar das
coisas desagradáveis

Não lute contra
Fica, então, a dúvida a respeito do que se pode fazer para conviver com a ansiedade sem que isso nos destrua . Está claro que dizer “calma” não adianta, mas como evitar a ansiedade? Como se livrar dela? O erro está aí. “Nada vai tirar a sua ansiedade básica”, diz Little, desanimando quem achava ser possível acabar totalmente com o problema. Esse sentimento é normal e não precisamos ter medo dele. Por mais assustador que pareça, isso faz parte da nossa natureza: “O corpo humano sempre teve tons de ansiedade, tristeza, frustração, vergonha”, diz. “Não dá para escapar das coisas desagradáveis. Mas podemos fazer com que nosso campo emocional não valorize demais isso. A questão é: como lidar com esses incômodos para que possamos continuar a tomar decisões sábias e compassivas?”. Ótima pergunta. Monja Coen dá uma pista: “Quando estou ansiosa, reconheço isso. Percebo a aceleração dos batimentos cardíacos, as contrações musculares, a expectativa. Então, retorno a atenção para a minha respiração e procuro torná-la mais lenta e pausada. Também aprecio o fato de que, estando viva, tenho anseios e ansiedades que podem ser estimulantes e instigantes ao meu viver. Basta reconectar com a mente que observa, reconhece e realinha. É treino.”

Pode parecer assustador, mas o que ambos estão dizendo é que não se deve tentar extirpar a ansiedade como se fosse uma farpa de madeira. O ideal é entendê-la e conviver com ela de modo a não deixá-la definir nossas ações e pensamentos. Segundo Stephen Little, “nossa sociedade tem muito medo da emoção”. “Temos que acolher a ansiedade e passar por esses momentos como se fosse a primeira vez”, observa. Uma noção quase alienígena no mundo em que vivemos: acolher o nervosismo. “Estamos tentando controlar as emoções e essa é a pior coisa que se pode fazer. O tsunami vem e a pessoa pode aprender a lidar e a surfar, estando completamente em contato com a energia dentro da onda. Assim, a ansiedade passa por você, sem a necessidade de dominá-la. Temos um nível de consciência e atenção internos suficientes para não deixar a ansiedade definir como reagimos.”

Um desses recursos é a técnica na qual Little é especialista, a de Atenção Plena ou Mindfulness, definida por ele como “a nossa capacidade de ter a plena consciência de estarmos conscientes do que está acontecendo”. Monja Coen diz algo parecido, baseada nos conhecimentos do budismo: “É impossível estar em outro momento além do agora”. “São ilusões da mente considerar que está no antes ou no depois. A respiração consciente é um dos instrumentos mais hábeis de percebermos como estamos. Se três vezes ao dia, por cinco minutos, conseguirmos respirar seis vezes por minuto haverá um novo arranjo das ondas mentais. Meditar é um caminho, mas não é o único.”

Que fique claro: não há cura para a ansiedade. As sugestões acima são maneiras possíveis de encarar a questão. A ansiedade é um problema grave, principalmente se paralisa a vida de quem convive com ela, e pode também ser tratada com medicamentos e terapias variadas. Mas é essencial perceber que não há solução fácil e que as raízes estão na maneira como vivemos, na educação, nos recursos tecnológicos de hoje e no nosso jeito de perceber o mundo.

Não se deve extirpar a ansiedade
como se fosse uma farpa de madeira.
O ideal é entendê-la e conviver
com ela de modo a não deixá-la definir
nossas ações e pensamentos

Nas últimas páginas de seu livro, Scott Stossel reproduz uma carta que recebeu de seu psiquiatra – além de tratá-lo durante anos, o profissional acompanhou a obra desde o início: “Dada a magnitude do problema [da ansiedade], você conquistou muita coisa. Você precisa se dar mais crédito”. Essa deve ser a única lição possível que essa reportagem terá, depois do problema ter sido esmiuçado e de uma onda de ansiedade ter tomado conta de quem escreve. O resultado talvez não sirva de consolo para quem procurava “mil maneiras de acabar com o problema”. Quando a onda da ansiedade vier, não tema: surfe-a. E se dê um pouco mais de crédito. Quem sabe assim, a palavra “calma” se torne parte da rotina de quem se deixa torturar pela incerteza e pela falta de respostas. 

DIOGO ANTONIO RODRIGUEZ é ansioso crônico desde pequeno. Fazendo essa matéria, aprendeu que não precisa ter medo da ansiedade.


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COMENTÁRIOS

  • Gabriel Pompeo

    De um ancioso para outro! legal a reportagem. Show!

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