Como falar sobre emoções com as crianças

  • TEXTO Nara Siqueira
  • FOTOGRAFIA Istock
  • DATA: 06/08/2019

Ajudá-las a lidar com aquilo que sentem é tão importante quanto ensiná-las a escrever e fazer contas


Acolha sua tristeza
é o tema da edição de agosto de Vida Simples (você pode adquirir o exemplar avulso em nossa loja virtual ou ainda receber a revista em casa todo mês via assinatura). Percorrendo caminhos em busca de maneiras para acolher os dias nublados, aqueles em que nos falta ânimo e energia, descobrimos que, antes de encontrar formas de lidar com os sentimentos dolorosos, precisamos reconhecer que eles existem. Mas se nós, que temos domínio da linguagem e acumulamos experiências diversas, temos dificuldades em identificar o que estamos sentindo, imagine os que estão no começo da vida. Caímos no erro de acreditar que essas questões são exclusivas da vida adulta, quando, na verdade, tristeza, frustração e raiva são comuns a pessoas de todas as idades.

Clara Freitas, especialista em disciplina positiva e mãe do Gabriel, de quase dois anos, trabalha auxiliando famílias a colocar em prática o que ela chama de educação empática, aquela que reconhece a criança como um ser único, que precisa ser ouvido, acolhido e respeitado. À Vida Simples, ela fala sobre como podemos conversar com os pequenos sobre o que não é visto, mas sentido, e o porquê é essencial fazê-lo. 


Por que é importante falar sobre sentimentos com as crianças?
Assim como elas precisam aprender sobre o mundo físico, nós devemos instrui-las quanto ao seu universo interior. E não só o delas próprias, como também o das outras pessoas ao seu redor. Apresentar as emoções para os nossos filhos fará com que eles tenham repertório para entender o que se passa dentro deles e o que acontece com seus colegas – e isso ajudará na resolução de conflitos, na tomada de decisões e na construção de novos relacionamentos. 

E como conversar sobre questões emocionais?
A melhor forma de ensinar sobre sentimentos é no dia a dia, em meio à rotina. Não precisa separar um momento específico para isso, como “hoje vamos falar sobre alegria”. Desde recém-nascidos, podemos ter essas conversas, explicando que determinado choro é medo ou dor, por exemplo. Um outro ponto relevante é, enquanto adultos, praticarmos a honestidade emocional, dizendo para as crianças como nos sentimos. Quando estivermos irritados, podemos dizer “não estou bem agora, filho. Estou irritada. Preciso de um tempo”. Assim, os pequenos aprenderão a identificar e a respeitar as emoções alheias. É claro que deve haver certo cuidado para não explodir com a criança e transferir a ela a responsabilidade pelo que estamos sentindo – afinal, os adultos somos nós. 


Existem diferenças na abordagem de sentimentos tidos por positivos, como amor, alegria e entusiasmo, e dos considerados negativos. como raiva, frustração e tristeza?
Não acredito nisso. Todos os sentimentos são importantes e têm algo a nos dizer. Vamos pensar na raiva. Ela aparece quando algo não está legal ou quando estamos nos sentindo desrespeitados. A tristeza, por sua vez, traz certa introspecção, permitindo que nos acalmemos e voltemos nosso olhar para dentro de nós mesmos. Precisamos nomear todos eles para as crianças, sem classificá-los como bons ou ruins. O que pode ser negativo é o comportamento que temos diante de uma emoção, como bater quando estamos raivosos, mas nunca a emoção em si. Por isso devemos, além de dar nome àquilo que pulsa na gente, é preciso mostrar aos pequenos como elas podem expressar esses incômodos de maneira sadia. 

Enquanto pais ou responsáveis, qual conduta deve ser evitada?
Sabe aquela história de incentivar seu filho a fazer carinho ou dar um abraço quando está bravo com alguém? Talvez essa não seja a melhor opção. Você, um adulto, gostaria que, no ápice da frustração, te proibissem de externalizar a raiva e, ao invés disso, mandassem que fizesse carinho em quem te magoou? A questão é ensinar a maneira de manifestar esses sentimentos. No caso da raiva, é inadmissível bater em alguém, mas a criança pode dar um grito em uma almofada ou amassar uma folha de papel, por exemplo.


Voltando à tristeza. Como trabalhá-la com a criança de modo que ela não evite situações que possam trazer este sentimento à tona?
Quando se trata de emoções, o mais importante é o equilíbrio. A tristeza em excesso pode levar à depressão e à desistência, mas a falta da tristeza pode ser tão negativa quanto. Por isso, evite falar coisas como “não precisa ficar triste. Está tudo bem”, mas também não maximize a tristeza, dando o foco maior do que ela merece. Respeite o tempo e o momento do seu filho. Diga que entende que ele está triste e que você está ali pronta para conversar. Depois que passar a emoção intensa, busque o diálogo. Esteja aberto à verdadeira escuta. Pergunte como ele se sentiu, se sabe dizer o que o deixou assim e o que poderia ser feito para evitar que tal situação aconteça novamente. Se possível, compartilhe uma história sua de superação, de um momento em que você sentiu que a tristeza bateu à porta e como fez para lidar com ela. Quando nos colocamos no mesmo nível de dignidade da criança, ela percebe que também é capaz.

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