O que aprendi com um joelho ralado

  • TEXTO Matheus Dantas
  • DATA: 15/09/2020

Um tombo, real ou figurado, pode trazer lições sobre como lidar com as nossas cicatrizes e autoconhecimento para finalmente nos aceitar

 

Pense num tombo daqueles! Daqueles que a gente levava quando ainda era menino, de ralar os joelhos, com sangue escorrendo pela perna, muito drama e todo aquele sofrimento na espera pelo medicamento que ardia até na alma. Pensou? Pois a vida deu um jeito de me fazer recordar que quando saímos correndo sem saber o que queremos alcançar, além de não consquistarmos a chegada, é possível que caiamos antes, feito criança no desespero da alegria. Foi assim que aconteceu comigo, na rua, durante uma corrida – e por mais maluco que soe, na vida também.

Tombos geram autoconhecimento

O tombo aconteceu no primeiro semestre de 2018. Lembro que protegi o rosto com as mãos, e derrapei com os joelhos no asfalto. Tudo isso durante uma corridinha inocente. Na hora, fiquei sem ação, levantei assustado, ninguém por perto para ajudar, e só o sangue escorrendo até o tênis. Eu já estava distante de casa, e a única solução foi caminhar, sentindo as consequências da minha desatenção.

Compartilhar todo esse prelúdio acaba fazendo mais sentido quando volto para o início de 2017, quando minha vida passou por um vendaval, e eu me vi totalmente longe da minha zona de conforto. Jornalista formado, recém-desempregado, latino-americano, sem dinheiro no banco ou parentes importantes, e (com toda certeza) vindo do interior.

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O início do período em casa passou despercebido. Festival de música ali, cursinho tão sonhado aqui, viagenzinha com a família, tudo a mil maravilhas para quem não estava batendo o ponto diariamente. Eu fiquei até de cabelos loiros, e não estava nem aí para a torcida. Mas, o tempo da vida é outro, e não demorou muito para uma sensação de desânimo, muito maior do que eu mesmo, passar a tomar conta dos meus dias, do meu tempo no relógio, da minha vida como um todo.

Quando não dá mais pra esconder

Sem vontade de levantar da cama, sem vontade de conviver, de comer, de ir para minha amada aula de ioga ou celebrar por nada, como era de costume. As redes sociais me traziam pavor. Estava caminhando para um ciclo depressivo. Bem eu, que havia conquistado tanto, profissional e pessoalmente. Entendi melhor minha cor, minha opção sexual, meu papel no mundo. Como jornalista, realizei vários sonhos logo cedo, e talvez estivesse acomodado, achando que nenhuma estrada traria novidade pela frente.

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O ano virou, e no início de 2018, entre outros desencontros, desapontamentos e decepções que foram surgindo pelo caminho, motivados por mim ou até por quem permiti estar por perto, um dia me peguei chorando durante uma viagem de São Paulo até Sorocaba, cidade onde moro. Meus pais iam me buscar no local combinado, e eu tratei de enxugar bem as lágrimas, fingir naturalidade, e colocar no palco o ator quase formado que existe em mim. Mas a peça não durou muito tempo. Ainda bem!

Aceita esta dança?

Gosto de pensar que o meu momento de virada foi quase como pegar minha vida pela mão e tirá-la para dançar. Uma dança só nossa, de ritmo honesto, embalada por autoconhecimento, com a permissão de alguns passos em falso, afinal até o melhor bailarino trabalha com a possibilidade do erro. Aceitar que muitos deles haviam acontecido pelo caminho foi uma das melhores decisões que já tomei na vida.

Logo retomei o contato com a Ari, psicóloga que tinha me atendido havia um tempinho, para voltarmos com as sessões de terapia. Até porque quem quer dançar bem precisa ensaiar com quem sabe boa parte dos passos, não é mesmo?

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Com cuidado, paciência e carinho, principalmente comigo mesmo, fui compreendendo, de uma maneira cada vez melhor, que a vida realmente só nos coloca em meio a furacões de onde vamos tirar bons aprendizados, se quisermos, é claro. Eu quis seguir na jornada de autoconhecimento, e continuo querendo. Nossas escolhas permeiam tudo! Aos poucos, voltei a ver o brilho das coisas, cobrando-me menos, respeitando o fato de que muitas coisas não vão ser como espero, e entendendo que ainda assim existe o belo nisso tudo. Um dia por vez.

A paixão pela música voltou forte, tornou-se presente novamente, e cheguei até a compor uma canção após ler um depoimento na sessão Experiência da Vida Simples que você está lendo agora. Numa madrugada, li palavras de encorajamento, que me despertaram inspiração e fizeram o coração bombear mais rápido, da melhor forma que você possa imaginar.

Novo olhar com mais autoconhecimento

Até mesmo as redes sociais passaram a ter uma função diferente no meu dia a dia. Não permito que nada que eu veja ali represente mais do que uma simples imagem, que afete meu humor ou que me leve a comparar o que sou ou tenho com o que o outro diz ser ou ter. E, nesse caminho de autoconhecimento, minha família teve papel fundamental. Está comigo sempre, nos altos e baixos, confirmando o clichê de que é a base de tudo.

E os amigos? Nessa transição louca, e nos momentos em que me permiti estar mais ausente, para me entender melhor no silêncio, os que seguem ao meu lado agora estavam ali também, prontos para ouvir o choro, dar o conselho e mostrar que sempre há um jeito para tudo. Em períodos assim, compreende-se bem quem está por você, e não só com você quando convém.

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Até mesmo oportunidades de trabalho inesperadas vieram a minha direção. Eu vejo que aceitei que precisava me encontrar, entender quem sou, o quanto já fiz e as inúmeras possibilidades que sempre existirão para que eu faça qualquer coisa acontecer. Pés no chão, tempo ao tempo e novos olhares. Mesmo no meio da dor, eu disse sim para mim mesmo, com todas as minhas cicatrizes. E foi a resposta mais bem dada que eu poderia me oferecer.

Mas, e os joelhos?

Eles parecem até desconexos na história, mas foram os joelhos ralados que me fizeram refletir. Naquele mesmo dia, corri para a farmácia, para comprar medicamentos. Passei o remédio e troquei os curativos por vários dias seguidos. Quando pequeno, eu costumava arrancar a casca logo, sem esperar a ferida cicatrizar totalmente.

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Já nessa recuperação, resolvi fazer da mesma maneira como tenho levado a minha vida: exercitando a paciência. E então me vi capaz de tomar as rédeas, o controle da minha própria vida. Agora, essa analogia acaba seguindo comigo para diferentes lugares, guardada no bolso junto com os ensinamentos que ela me traz: há que se ter calma com as feridas, com os tombos. Eles não podem significar mais do que realmente são.

Coragem

Minha ansiedade, minha profissão, meus erros ou minhas decisões não são o meu todo, elas fazem parte de quem eu sou, do que me proponho a aprender, a deixar de ser, a evoluir e também a transformar. Eu não sou feito só de coisas boas nem terei sucesso em tudo. E está tudo em ordem quanto a isso. Estou vivendo o que o universo tem me possibilitado. Eu olho para trás e vejo o que já conquistei e isso me fortalece para continuar na caminhada com mais autoconhecimento, construindo minha autoestima e confiança, mesmo que os tombos venham novamente.

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Sobre a música que compus, o refrão diz: “coragem para ser quem eu sou, coragem para falar de amor, coragem para viver o que há dentro de mim. Coragem para viver minha cor, para ser então meu próprio amor. Coragem para só ser feliz, e ser feliz só, também!”. Que eu e você consigamos fazer desses versos uma verdade, boa sorte para nós, e que saibamos aproveitar cada instante do nosso tempo por aqui.


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