A natureza é professora: os aprendizados que ela traz

  • TEXTO Adriana Antunes
  • FOTOGRAFIA Eduard Militaru | Unsplash
  • DATA: 23/03/2019

Quando a vida parece chata e sem sentido, observar a natureza pode ser de grande valia para mudar o rumo das coisas e voltar a florescer

Abrir a janela e dar-se conta de que o tempo passa, levando embora as flores e as folhas, é também um movimento de compreensão de que tudo na vida tem um momento e um espaço para acontecer. Na Região Sul do país, onde moro, a estação que amarela e faz cair as folhas chega lentamente e traz consigo um período de mudança. Assim também ocorre com a vida da gente, só que nem sempre nos damos conta disso. Muitas vezes, ficamos parados, expostos às intempéries por receio de mudar, experimentar novos rumos, semear em outros terrenos.

Quando a vida fica estreita, sem graça, monótona, talvez tenha chegado a hora de cultivar novamente seu jardim (ou a vida). É também dentro de tempos mais áridos e espinhosos, por exemplo, que percebemos a necessidade de regar novas plantas, cultivar mudas, transplantar outras, limpar o espaço em busca de mais luminosidade e adubar o solo. Se autofertilizar para voltar a florescer, como faz o ipê ao longo do inverno. Nesta reportagem, fomos atrás de pessoas que são como o vento, espalham sementes, fertilizam, acreditam na sua própria natureza para encontrar mais felicidade em seus dias. A ideia é que você se inspire também e, assim, encontre seu espaço para germinar por aí. Faz par- te da vida, não é mesmo?

Tem gente que é flor
Foi percebendo a passagem das estações e aceitando a necessidade de redirecionar a própria rota de vida que Daniela Antunes largou os empregos que nunca davam certo para ser escultora em cerâmica. “Você já viu um ipê florir pela metade?”, me perguntou logo de cara, sorrindo e oferecendo um pedaço de bolo de banana. “Eu queria florir por completo”, disse, puxando a cadeira e me olhando dentro da alma. Daniela, antes da argila, havia trabalhado como empacotadora de supermercado, manicure, depiladora, secretária. Um dia, teve síndrome do pânico e decidiu se dar de presente um curso num ateliê. Não sabia direito o que queria, mas tinha certeza de que não queria mais fazer o que fazia. “Foi uma necessidade, sabe, aquele aperto que dá no peito e você percebe que terá de fazer alguma coisa por si mesmo para não morrer.” Tempos depois, lá ia Daniela comercializar seu trabalho. “Não foi fácil, eu colocava tudo dentro de uma cesta e passava de galeria em galeria, de loja em loja oferecendo minhas peças. As pessoas achavam que eu vendia pastel”, conta rindo de si mesma.

Levou 15 anos para conseguir ter seu trabalho reconhecido: “Foram os 15 anos mais felizes da minha vida até aqui”, completa. Às vezes, quando temos de tomar decisões tão impor- tantes, abrir mão de uma falsa segurança é aceitar o próprio desenraizamento. A monja budista Pema Chödrön, em seu livro A Beleza da Vida — a Incerteza, a Mudança, a Felicidade (Gryphus), fala que precisamos aprender a nos desapegar da ilusão de segurança e aceitar que a vida está em permanente fluxo.

Tem gente que é semente
Foi ao aceitar sua natureza que Cleonice Araújo permitiu-se sair dos padrões sociais e tentar seguir a própria vida. Cléo, como é mais conhecida, nasceu mulher dentro de um corpo de homem. Sentia na carne uma lei que contradizia seu espírito. Logo cedo descobriu que precisava de coragem para seguir o que sua alma pedia. O preço por se aceitar sendo uma mulher trans é contabilizado na memória das dores que enfrentou dentro de casa e na rua. “As pessoas ainda me julgam, seja por causa da voz diferente ou do corpo, mas eu não desisto”, fala entre suas bonecas de feltro e os álbuns artesanais que confecciona com o marido. Cléo foi a primeira mulher trans, brasileira, a participar como delegada na Cúpula dos Povos que aconteceu no ano passado na Argentina. Militante das causas das minorias, seu trabalho é dedicado aos travestis, homossexuais e transgêneros. Por que, pergunto a ela, se expor, levantar bandeiras, correr o risco de se machucar ainda mais, tentar florir em meio a tanta intempérie? “Por necessidade”, ela responde. “Porque, quando dou visibilidade e dignidade a pessoas como eu, dou a mim mesma a chance de ser alguém de verdade.” Cleonice é pessoa-semente. “Eu me lanço na vida, não sei se vou desabrochar, mas, se uma de nós for flor, todas seremos”, fala emocionada e convicta de que, apesar de todas as dificuldades, ninguém pode tirar dela sua identidade.

Para a psicanalista Maria Beatriz Jacques Ramos, coordenadora do Instituto de Estudos de Psicanálise no Rio Grande do Sul, aceitar-se é comprometedor. “Isso afeta nosso modo de ver, ouvir e sentir os ruídos produzidos dentro de nós mesmos. Para acreditar em si mesmo é preciso buscar o espelho não encontrado, compreender o imperativo da sexualidade e entender a dialética da vida e da morte”, afirma.

Tem gente que é vento
Marga Zanol também sonhou em viver diferente. Sempre foi uma criança, depois adolescente e adulta, cheia de curiosidade, mas sentia-se sufocada. Nos dias em que a angústia apertava demais o peito, ia ao jardim plantar flores, corria, andava de bicicleta, respirava, meditava. Depois de tantas idas e vindas, decidiu-se. Casada havia 30 anos, dona de casa, mãe de dois filhos já adultos, aos 57 anos fez as malas e foi viajar sozinha. Ela queria seguir com o vento. “Sempre quis fugir com o circo”, brinca. “Não foi fácil”, relembra, pois nunca tinha viajado de avião e não sabia outra língua além do português. Planejou com antecedência, juntou dinheiro e partiu rumo à Itália com o apoio da família. Foram três meses de aprendizado, desafios e saudades. Tempo que a fez voltar menos insegura e mais desapegada. “Quando você está sozinha, no início, dá até para se sentir meio egoísta, porque há um transbordamento de novidades; depois passa, e você percebe que realmente está sozinha e que tudo depende só de si mesma. Isso é assustador”, conta enquanto faz café e o cheiro se espalha pela cozinha. As experiências nos fazem descobrir mundos novos, inclusive aquele que frequentamos todos os dias. As ruas, as cidades de sempre, se modificam, como se nossos pés tocassem nesses espaços pela primeira vez. Ou seríamos nós que nos modificamos quando aceitamos que nossas folhas caíram dando espaço para a renovação?

Para cultivar um jardim é preciso disposição e aceitação para o novo. Plantar pode ser uma metáfora de aposta na vida, na força da renovação e na descoberta de que também somos capazes de florescer. É, ao mesmo tempo, doação e partilha, pois, assim como as plantas, quando estamos vivendo de acordo com nossa natureza, podemos ofertar amor e experiência, transformados em flores, frutos, sabores e sombra.

Tem gente que é jardim
Buscar essa proximidade e intimidade com a natureza foi o que motivou Taíse Poletto a largar o direito e o emprego em um cartório e abrir uma floricultura. “Eu passava o dia dentro de uma sala sem saber se chovia ou fazia sol. Ansiava pela sexta-feira, para andar de bicicleta e ver verde. Chegava o domingo e eu adoecia só de pensar que teria uma semana pela frente outra vez”, conta enquanto observa os pássaros brincarem no horizonte. Entre uma e outra crise de labirintite, conversou com o companheiro e por um ano foi amadurecendo a ideia. Não sabia direito o que faria. Sabia que queria trocar de caminho, mas não poderia ser um enxerto. Nada de arrumar um hobby, precisava voltar a ter vontade de se levantar todos os dias e fazer algo que compensasse. Há três anos, abriu uma floricultura. “Ganho menos, mas não dá para sacrificar uma vida por causa de dinheiro ou status”, reflete, afirmando que não se arrepende da escolha. O recém-naturalizado brasileiro Abdou Lahat Ndiaye, senegalês mais conhecido como Billy, vive no Brasil há dez anos e também não se arrepende de ter buscado uma vida que correspondesse ao seu desejo. “Lá no Senegal, todo mundo nasce com a ideia de ir embora, seja para a Europa, Estados Unidos, Argentina ou Brasil”, conta. “Eu também nasci com essa marca, e quando fiz 23 anos saí”, conta ele, que deixou mãe, irmãos e amigos para trás. “Eu sou minha própria necessidade”, me diz enquanto atende no balcão de sua loja de importados, aberta logo que chegou ao país e que se tornou um ponto de encontro de senegaleses e haitianos. “Que culpa eu tenho se tenho urgência de mim mesmo?”, fala rindo alto.

Conhecido em muitos lugares do Brasil, explica que quando tem que ir a São Paulo, por exemplo, não precisa ficar em hotel, alguém sempre se oferece para recebê-lo. Mas nem sempre foi assim. Billy tem 17 irmãos, quase todos se espalharam pelo mundo em busca de melhores condições de vida. Quando lembra da família, seus olhos brilham de saudade. Pergunto por que ser tão radical e tentar florescer em outro solo que não o de origem. “Um dia você se dá conta de que tem um abismo tão grande dentro de si mesmo que ou você o encara e decide mudar ou é puxado para dentro dele. E eu não queria nem podia me deixar ser abatido.”

Para plantar um jardim e cuidar de sonhos é preciso sensibilidade e observação. Sensibilidade para entender a demanda de nossa alma e observação para perceber que as mudanças precisam ser realizadas em etapas e de modo consciente. Assim, água, adubo, sol e paciência são fundamentais. Para Pema Chödrön, podemos escolher passar por esta vida sofrendo ou abraçar a flexibilidade da condição humana, sem nos fixarmos e sem preconceitos.

Viver, afinal, é muito mais que o desdobrar sucessivo dos dias. E a natureza nos ensina como podemos ser generosos e honestos com a gente mesmo. Quando plantamos, nos permitimos perceber que a realidade é diferente daquela que supomos, e questionar se esse era mesmo o cantinho de terra onde se queria estar é o primeiro passo para nos transformarmos em sementes e começar tudo outra vez.


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