Viajar pra quê?

  • TEXTO Rodrigo Braga Motta
  • FOTOGRAFIA Simon Migaj | Unsplash
  • DATA: 11/03/2019

Quando eu estava na universidade, tive a oportunidade de fazer a minha primeira viagem internacional, a sonhada e planejada viagem pra Machu Picchu, com direito a trem da morte, aventura e muito, muito desconforto.  Deslumbramento total!

De lá pra cá, foram anos procurando destinos, realizando sonhos, viajando pra todos os lados, particularmente pra fora do país.

Não que seja mais chique viajar para o exterior, não é essa a questão. É que um maior distanciamento geográfico e o encontro com o diferente me permitem me sentir mais distante da minha realidade.

Isso me traz amplitude de visão e uma expansão de consciência  que clareia as minhas ideias e me faz refletir melhor sobre a minha vida e sobre a própria vida. Além disso, confesso, adoro me imaginar em que local estou no mapa-múndi.

Claro que no retorno, nem todas essas reflexões necessariamente se revertem em frutos, crescimento, mudanças de qualquer natureza, mas de alguma forma algo me acontece internamente!

Certa vez passei um susto que me trouxe muito aprendizado. Viajaria em duas semanas para a Turquia e Israel e sem me atentar pra isso, porque já estava pensando na próxima viagem, deixei meu passaporte no consulado americano para obtenção do visto, para a viagem que faria ao Alaska, nos meses seguintes.

Devido a uma greve dos correios, só recebi o passaporte um dia antes do embarque para a viagem e quase tive um piripaque. Essa experiência me fez compreender que nem tinha vivido uma viagem e já estava no futuro, tentando viver outra.

Aí saquei que, a despeito de ser um bem imaterial, de existir todo um discurso pronto e batido de que viagem é o verdadeiro investimento (e realmente pode ser…), um bem que ninguém nos rouba, que nos enriquece como seres humanos, etc e tal, se a gente não ficar atento, não cuidar desse viajar, vivendo a sua inteireza, e de preferência, uma viagem de cada vez, corre-se o risco de transformar tudo em um bem de consumo, como outro qualquer.

Viajar é uma grande oportunidade de transformação, de encontrar e enxergar o outro, de perceber que ele pensa diferente, acredita diferente, gosta diferente, tem a cor diferente, vive diferente. O igual não acrescenta muito, a riqueza é justamente em lidar e aceitar o que é diferente.

É legal também que a gente faça o exercício de imaginar que poderíamos ter nascido ali naquele lugar, naquela cultura; poderíamos até, quem sabe, ser aquele outro.

Essa experiência pode desenvolver a nossa compaixão. Mas viajar não é garantia de aprendizado ou mudança.

Alguns viajam pelo mundo afora, mas continuam passeando com seus carrōes pela cidade, parando nos semáforos e vomitando lixo pelas janelas. Essas pessoas têm a oportunidade de viajar, mas não conseguiram aprender, se educar, se transformar, no mais elementar.

Outros também têm essa incrível oportunidade, mas retornam sem acrescentar muito em suas vidas e mantém as mesmas crenças, os mesmos pontos de vista, conceitos, preconceitos, apesar de pipocarem por vários destinos pelo planeta.

No fundo, todo mundo gosta de carimbar o passaporte para rodar o mundo, mas nem todo mundo tem a mesma disposição quando a viagem é interna, quando tem que parcar com o visto pra transpor as fronteiras que a gente tem por dentro.

Não é mesmo fácil escarafunchar os cantos e recantos dentro da gente, quando sempre se corre o risco de se deparar com paisagens não tão bonitas.

Aqui sim, tem que ter coragem de aventureiro, de desbravador. Descobrir e lidar com quem se é, reparar caminhos, redefinir roteiros, rever itinerários onde se quer chegar ou do que se quer ser, não é pra todo mundo.

Quando se pensa em liberdade, se pensa normalmente em aproveitar a oportunidade, ir, fazer, curtir, vivenciar.

Mas liberdade mesmo é ter consciência na escolha, inclusive de não ir, não em um determinado momento, não praquele lugar, não com aquela pessoa, não fazer, não visitar, não experimentar, enfim, não vivenciar.

Mesmo porque, nem tudo é para ser vivido e às vezes, a grande oportunidade da viagem pode ser justamente a de não ir. Já pensou em ficar?

Enfim, você pode viajar para comprar; entreter-se, relaxar, visitar pontos turísticos, conhecer culturas, experimentar sabores e conhecer lugares novos.

Você pode viajar para conhecer e tentar entender o outro e sua realidade. E se estiver aberto, pode viajar para ampliar, se conhecer, se inspirar e se transformar.

Viajar pra quê?
Também para crescer.

 


POSTS RELACIONADOS

EDIÇÃO DO MÊS

Edição 211, setembro de 2019 ASSINAR
COMPRAR A EDIÇÃO

NESTA EDIÇÃO

Cultive sua coragem: Entenda como dar os próximos passos para finalmente realizar aquilo que seu coração deseja


COMENTÁRIOS

  • Adriana

    Texto espetacular !!!

    Responder
  • Patrícia Pinto Coelho

    Que lindo meu amigo…..eu sabia que tinha um motivo pra te Love You !

    Responder
  • Vania tilia

    Gostei. Grande sacada a comparação das viagens exteriores e conhecimento interno

    Responder
  • Ilene

    Adorei !
    Viajar para quê??
    Bela reflexão, … Sempre buscando ser melhor para você e para o outro !

    Responder
  • juliana Couto

    Texto que demonstra uma delicadeza e inteligência emocional de arrepiar!!! Parabéns pela lucidez , amei!!!

    Responder
  • Raquel B. M. Neiva

    Adorei o texto, muito bem escrito e real, na verdade temos que melhorar de dentro para fora e conhecendo outro modo de viver, pensar, agir pode nos ajudar nisso. Parabéns pela mensagem que nos transmitiu!

    Responder
  • Raquel B. M. Neiva

    Adorei o texto, muito bem elaborado! A maior de todas as viagens é conhecer a si mesmo mas através de culturas diferentes pode nos acrescentar muitas coisas e rever também! Parabéns pelo texto!

    Responder
  • Thomaz

    Belo texto, Rodrigo, muito inspirador! Que todas as viagens sejam motivos para crescermos e tornarmos melhores pessoas. Parabéns!

    Responder
  • Cinara de Souza Gondim

    Lindo texto!Deu vontade de marcar a próxima viagem, girar o mapa-múndi e sair por aí….

    Responder
  • Rita

    Excelente reflexão.

    Responder
  • Patricia

    Eu amo “viajar”… em todos os sentidos!!! Rs Viajar alimenta a alma e dá um colorido diferente na nossa vida!!!
    Conhecer lugares, novas culturas, novos mundos, tudo que alegra o coração, eu amo!!!
    Vivo intensamente cada momento… viajo desde a programação até quando retorno com as delícias das lembranças dos momentos vividos!!!

    Responder
  • Marielly

    Texto incrível! Viajar é exatamente isso pra quem se entrega: nunca se volta pro mesmo lugar! Parabéns

    Responder
  • Lelia

    “Viajei” com seu texto Rodrigo Braga! Viagem de reflexão também é muito bom ! Parabéns!!

    Responder
  • Thaís

    Rodrigo, parabéns pelo texto. É intenso, denso, inspirador. Assim como suas viagens, assim como você.

    Responder
  • Carolina

    Grande reflexão… fazemos tanta coisa correndo, no “automatico”, que às vezes até uma viagem tão desejada não é aproveitada totalmente. Viajar ou nao, que seja uma opção consciente!

    Responder
  • Cássia

    Caro Rodrigo, obrigada por compartilhar esta bela reflexão. Simplesmente amei.

    Responder
  • Ana Lúcia

    Um reflexão profunda se coisas simples, assim como deve ser a vida. Na teoria, bem mais fácil que na prática, mas cada viagem pode ser uma razão para praticar o que traz no seu artigo.

    Responder
  • Larissa Siman

    Adorei, Braga!! É isso mesmo que eu sinto!
    O que tenho de aprender é o que fazer quando volto pra a realidade daqui… isso tá bem difícil!

    Responder
  • Liliane

    Que texto lindo! Mexeu muito comigo e veio a calhar nesse momento em que “escolho”, forçosamente, não viajar. Gratidão por compartilhar conosco suas reflexões.

    Responder
  • Mariana Frois

    Texto Sensacional!
    Exatamente o que tento absorver após feita uma viagem, após conhecer uma cultura e até mesmo outras vidas e pessoas.
    Evolução constante sempre!!!!

    Responder
  • Oriana

    Rodrigo, adorei a sua reflexão. Você traduziu bem o sentimento de várias pessoas que viajam, buscando algo mais dentro si, e por um outro lado, discorreu muito bem a cerca da perda de oportunidade de crescimento, daqueles que apenas “consomem” viagens.

    Responder
  • Laila

    Rodrigo,

    Adorei suas reflexões sobre a essência de uma boa viagem. Compartilho desses mesmos pensamentos e sentimentos sobre os benefícios e aprendizados entre chegadas e partidas. Já visitei 27 países e 16 capitais aqui no Brasil. Cada viagem me fez ampliar o meu estado interior e a consciência sobre a vida.

    Responder

  • TAMBÉM QUERO COMENTAR

     

    Campos obrigatórios*