Uma companheira de viagem 

  • TEXTO Samara Semião Freitas
  • FOTOGRAFIA Kalisa Veer | Unsplash
  • DATA: 20/08/2019

Há muito tempo venho tentando entender como funciona a lógica de uma convidada especial. Quando a chamo para estar em momentos importantes da minha vida e ela aparece, é algo indescritível. Mas quando falta, e não manda nenhuma justificativa, sempre me causa grande aborrecimento. Tem temperamento forte e gosta de ser livre, odeia estereótipos. 

Certo dia quis fazer uma surpresa e preparei um momento para compartilharmos juntas. Comprei uma passagem para uma viagem dos sonhos. Seria o nosso momento perfeito. Eu tinha absoluta certeza de que ela amaria integralmente aquela experiência. 

No começo tudo ocorria conforme o esperado e estávamos mais unidas do que nunca. Mas com o passar dos dias,  ela alegou que era difícil ficar longe da família, da rotina, e que – para ser bem sincera – já estava começando a ficar cansada e não sabia se conseguiria estar comigo em todo o período da viagem. 

Fiquei absolutamente indignada. Achei aquilo um desrespeito. Eu queria que ela estivesse presente em todos os momentos, sem exceção. Minha birra não adiantou de nada e ela não só ignorou meus lamentos, como se distanciou ainda mais. Fiquei sozinha remoendo onde eu tinha errado. O que estava faltando para ela, afinal?

Confusa e com o orgulho ferido, decidi fazê-la entender que estava cometendo um grande erro não me acompanhando. Mantive o cronograma e fiz todos os passeios que mostravam os cartões-postais. Registrei lindas fotos, publiquei nas redes sociais, e esperei que ela viesse arrependida dizer que sentia muito por não ter estado ao meu lado. Nada adiantou e minha frustração só aumentava. 

Confesso que também fui cansando um pouco daquele joguinho e, sem perceber, já não estava mais tão interessada assim. Um dia, quase no fim da viagem, decidi fugir do roteiro. O dia estava lindo e a cidade vazia por conta de um feriado. 

Andei a pé pelas ruas próximas ao hotel onde estava hospedada. Tomei café da manhã em uma padaria simples, observando pela janela as pessoas seguindo suas rotinas. Algumas visivelmente em piloto automático, outras – principalmente idosos e crianças – vivendo atrevidamente cada segundo do presente. Havia um tapete de folhas secas pelas ruas. O céu estava pintado em diferentes tons de azul. E eu estava sorrindo.  

Não pensei no fuso-horário, nem na planilha com os passeios imperdíveis. Ignorei despretensiosamente minha obrigação de aproveitar ao máximo. Eu não estava sentindo a necessidade de pegar o celular para registrar nada, muito menos de provar nada a ninguém. Eu só queria viver aquele momento.

E foi então que eu senti a presença dela. Sentou ao meu lado, lançou um olhar de cumplicidade, pegou na minha mão, e do jeito mais afetuoso e desafiador possível, disse que era exatamente isso que ela estava esperando que eu fizesse desde o começo. 

É ou não é cheia de caprichos, essa tal da felicidade?

 

Samara Semião Freitas é jornalista em busca da melhor versão do mundo e de si mesma.


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