Um atropelamento e um bilhete guardado para sempre

  • TEXTO Ana Beatriz Lesqueves Barra
  • DATA: 24/07/2020

Apesar da passagem dos anos, nunca consegui jogar fora. O bilhete representa, para mim, a bondade desinteressada, especial e rara. Sempre que olho para ele fico feliz

 

Certo dia, após tentar medicar umas manchas na minha pele com meu próprio CRM, assim me dignei, finalmente, a procurar um dermatologista. Então, ia dirigindo sozinha, chateada com o trânsito absurdo e de ter que interromper minha rotina para procurar um outro médico.

Parada em um sinal em Botafogo, abaixei a cabeça por um momento, tentando encontrar distração no rádio (o celular naquele tempo só servia mesmo para falar no telefone). Então, de repente, um motoqueiro bate com as mãos na minha janela e faz sinal para que eu abaixe o vidro.

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A cidade maravilhosa sempre foi muito violenta e neste exato momento o sinal abriu. Assustada, arranquei com o carro e nitidamente senti que passei em cima de alguma coisa. Alguém gritou, por isso, freei abruptamente. O mesmo motoqueiro bateu de novo no meu vidro e berrou:

– Você atropelou uma pessoa! Tentei te avisar.

E assim se foi.

Pânico! Como? Não havia ninguém na minha frente! Liguei o pisca alerta e desci pra olhar. Uma moça magrinha estava deitada na rua. Marcas de rodas nas pernas. As pessoas em volta me contaram que, enquanto eu estava distraída, parada no sinal, ela se deitou no meio fio, com metade do corpo para fora da calçada, exatamente na frente das rodas do meu carro, abaixo do meu campo de visão.

Um rapaz se aproxima e me entrega um bilhete:

– Este é meu telefone, ele diz. Se precisar, posso testemunhar que ela se deitou na frente do carro, sem que você pudesse ver.

Talismã

Guardo o bilhete na bolsa automaticamente. Me concentro na moça que gemia e falava coisas desconexas. Não havia feridas, nem fraturas evidentes, mesmo nas pernas. Mas a respiração era assustadoramente estranha, os olhos esbugalhados. Examinei o resto do corpo, tudo normal. Pulsos fortes. Confirmei com testemunhas:

– Passei somente (somente?) em cima das pernas?

– Sim, sim.

Unanimidade.

Apareceu um guarda, desviou o transitou, ligou para os bombeiros. Eu paralisada, não tirava as mãos do pulso da mulher, quando o marido dela apareceu. Alguém a reconheceu como esposa do garçom da churrascaria ao lado e o chamou.

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– É minha mulher. Não acredito… acabou de me pedir dinheiro. Me disse que estava limpa e que queria visitar a irmã em Realengo. E eu dei R$ 50. Idiota. Pelo visto comprou droga de novo. Está doidona, ela usa crack moça, coisa pesada. Deixa ela aí que o bombeiro vem pegar. Eu não vou ficar aqui. Não tenho mais paciência para isso. Voltou, então, para o restaurante, sem titubear.

Força interna

Aí entendi o torpor e a respiração. Dessa forma, fiquei mais tranquila. Logo depois, eis que se aproxima um casal jovem. Ele se identifica com orgulho:

– Sou estudante de medicina, estou no último ano.

E examina a moça de novo. Eu continuava atordoada, não falei nada.

– Ela está fazendo uma parada respiratória!

E declara:

– Vou fazer um “boca a boca”, me ajudem aqui.

– Não! Você não vai fazer nada. Não vai nem mesmo mexer nela.

E, então, acabo me identificando:

– Você é quase médico, e eu já sou médica, de verdade, entende?

Mas ele não entende. Acha que estou debochando.

– Não vê? Ela vai morrer!

Tento argumentar, mantendo a calma:

– Não, não vai. É só efeito da droga, veja que ela volta a respirar, são pausas. É viciada, acabou de usar algo.

Conto sobre o relato do marido, tento convencer. Mas o rapaz insiste, finge que não estou ali, se agita, se coloca em posição de “boca a boca”. E depois de tentar explicar várias vezes e várias formas sem sucesso, acabo precisando contê-lo com meu corpo, gritando e cercando a moça no asfalto.

– Não mexa nela! Estou falando sério! Não sabemos se tem alguma coisa no pescoço, não sei o que de verdade aconteceu. Se realmente quiser ajudar fique esperando a ambulância e, como eu, tomando conta para que ninguém mexa nela.

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Era só o que me faltava! Paro meu dia para ir ao dermatologista, atropelo alguém e ainda tenho que cuidar de um estudante de medicina, enlouquecido e salvador do mundo.

Caminhos

Logo após, a ambulância chega, colocam o colar cervical, pegam a moça com a maca e só me perguntam o que aconteceu. O guarda não troca nem uma palavra comigo. O casal de estudantes vai embora sem se despedir. E eu sigo para a dermatologista, tremendo dos pés à cabeça.

O motoqueiro se indignou com meu preconceito, mas tenho certeza que não vai desistir de ajudar outros motoristas. O marido desistiu da mulher, mas desconfio que ainda vai acreditar nela, outras inúmeras vezes. O estudante não conseguiu ajudar a moça, mas ainda vai salvar muita gente.

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Por fim, o número de telefone da minha possível testemunha ficou na minha caixa de documentos importantes. E apesar da passagem dos anos, nunca consegui jogar fora. Virou um talismã. Representa, para mim, a bondade desinteressada, especial e rara. Sempre que olho para ele fico feliz.


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