Sons da pandemia

  • TEXTO Carmem Palheta
  • DATA: 20/07/2020

Tempos obscuros e ruidosos de pandemia pedem composições que afastem o perigo da solidão. E amenizem histerias

 

Havia um roçar frequente de patinhas caninas no teto. E um espreguiçar de alguém em uma rede no apartamento ao lado. Lá fora, o burburinho matutino de uma família que mora na casa em frente ao prédio. Já ia uma década desde quando me mudara pra ali.

No entanto, precisei de poucos meses de pandemia – aquela que começara no distante continente asiático -, pra escutar sons bem próximos. E até pouco tempo inaudíveis. Ou que devem ter passado despercebidos por meus ouvidos lotados de tanta informação.

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Entendê-los agora era como decodificar traços, notas ou até descompassos de desassossegados vizinhos. Cada despretensiosa escuta me fazia pensar: Me diz que ruído fazes e eu te direi quem és!

Ruídos entre paredes são como verdades abafadas. Desconcertadas. Porque chegam entrecortadas, feito notas musicais sem conexão. Conectam, mas sem precisar bater à porta do vizinho, gostos musicais, barulho de sacolas de supermercado, latidos, roncos, emoções. E até mesmo silêncios. Estes dizem tanto!

Foi assim que comecei a imaginar que a brincadeira de animais no apartamento de cima sinalizava o quão dóceis deveriam ser meus vizinhos desse andar! Deles – dos vizinhos – jamais escutei um pio sequer! Mas dos caninos, ahh…Como se mexem e remexem no piso que, por sinal, coincide com meu teto, como se brincassem de lixar as garras!

Entre ruídos e sonecas

Certa vez, aconchegada em pensamentos de sofá, me assustou aquele farfalhar de arranhões. Pensei serem ratos. O que me deixou aflita e desesperada. Imediatamente percebi que eram cachorrinhos – quem sabe as únicas companhias de algum vizinho (ou vizinha) solitário.

Por fim, sigo com a farra deles no assoalho. Dos cachorros, claro! Vivem na saleta cuja posição se alinha a minha de livros. Lá, por certo, há ossinhos de borracha espalhados pelo chão, uma caminha dessas que os donos preparam para a sesta dos bichanos ou, ainda, um daqueles brinquedos para pets já desgastados de tanto serem lançados pra lá e pra cá.

Essa cena, aliás, lembrou-me de uma amiga. Ela tem uma galinha velha e esquelética de borracha que joga pra cadelinha brincar. Mas esse é assunto pra depois se escutar. E por falar em sesta, aproveita mesmo estes tempos de pandemia o vizinho da porta ao lado. Dali, todas as tardes, um bocejo fenomenal! Ele acaba de se espreguiçar! Não tenho dúvidas!

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Após ter se atracado com um litro de açaí, ele passa o resto da tarde sobre a “baladeira”- rede, em paraensês. E esse nhec –nhec do punho que arranha o gancho que a sustenta, soa feito canção de ninar. Um ranger sonoro que atravessa o ar e o quebra na volta, lento e despretensioso.

O ruído mais esperado, porém, é no momento em que ele acorda: lança à plateia obscura do outro lado do tapume de concreto um gemido de satisfação! A acústica da parede o golpeia e o distribui à vizinhança que, a esta altura, está com os ouvidos pregados aguardando o gran finale do vizinho do 201!

Paz no caos

Apuro mesmo pra que terminem estes tempos de confinamento tem a moradora do apartamento em frente ao meu. Certa vez, ao cruzarmos as escadas, falou-me do quão desesperador era manter no compasso os dois filhos pequenos ali dentro. – Fazem muito barulho! Dizia-me.

Sorri e pude constatar que em sua lida diária não existiam intervalos pra sinfonias tais quais eu ouvia do aconchego de meu lar. Ora tomado por arranjos dissonantes; ora arrastado por acordes dignos de escutar. Da vizinha, lamentavelmente, foi possível tão-somente captar o compasso difuso da missão maternal. Sorte minha não sofrer de fonofobia. Afinal, o sossego interior sofre alguns arranhões com os agudos emitidos pela vizinhança em frente ao prédio.

Quando não são gritos da matriarca, obrigo-me a ouvir músicas de estilos variados. Trepidam minhas janelas e ressoam desconcertantes. Dias há em que canções religiosas dominam o repertório. Contudo, em outros, submergem letras de caráter não tão digno do reino dos céus.

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Já li, inclusive, que gosto musical define personalidade. Assim sendo, naquela casa de três andares se esbarram e convivem de modo igualitário, singularidades e múltiplas cifras. Como cadências comportamentais. Orquestra sem maestro. E todo mundo tocando junto. Por fim, se escuta mais risos, aplausos do que vaias. Sinal de que arranjos improvisados produzem convivências agradáveis.

Não sei ao certo se consigo definir o estilo de cada vizinho. Sei, no entanto, que há um som que supera todos os demais. Começa perto das seis da manhã. E me lembra que despertar ouvindo-o é saber não apenas quem são seus autores. Mas por que e para que cantam. Passarinhos são os agradáveis vizinhos matutinos. De todas, é a melhor melodia. Aposto que a vizinhança conhece e aprecia. Tempos obscuros e ruidosos de pandemia pedem composições que afastem o perigo da solidão. E amenizem histerias.


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