Sobre a vida que querem que a gente viva

  • TEXTO Natália Sousa
  • FOTOGRAFIA Istock
  • DATA: 12/09/2019

Eu tinha uns vinte e pouquíssimos anos na primeira vez. Voltava da caminhada, que sempre fazia antes de ir para o trabalho, quando a coisa se abriu dentro de mim. Eu vivia dias carregados. Uma mistura de “tenho que escalar o mundo” com a “minha escada não alcança três andares”. Andava densa, pesada, difícil. Pesarosa. Até que naquele dia, voltando da caminhada, antes do trabalho, atrasada meia hora, no meio do nada, algo dentro de mim se abriu. E eu entendi algo inédito: eu podia usar a escada para outra coisa.

Dizem que as escadas servem para subir. Dizem que é para isso que as escadas servem. Dizem que todo mundo precisa de uma e que todo mundo precisa usá-la do mesmo jeito. Para subir. E a gente, sem saber se quer, de verdade, uma escada, vai crescendo e carregando elas. Quanto mais melhor, dizem. Só que tem época (e vidas) que a gente não pode, não consegue ou não quer subir. E a inutilidade das escadas pesa nos nossos braços e nas nossas costas. Era isso que me acontecia ali. Com vinte e pouquíssimos anos, eu tinha que escalar o mundo. Só que minha escada só tinha três andares. E com três andares, ninguém alcança o topo do mundo. E eu me angustiava.

Até aquele dia. Porque naquele dia, atrasada meia hora, no meio do nada, algo dentro de mim, se abriu. E eu descobri que eu não tinha de escalar o mundo. E quando eu descobri isso, eu também descobri que as escadas serviam para outras coisas.

Por exemplo. Você sabia que se juntar pedras nas pontas das escadas, elas servem de sofá bem arejadinho para olhar o céu? Te conto também que enquanto o mundo tentava alcançar o topo do mundo, eu apoiava minha escada no muro da escola da minha infância para ver as crianças pulando amarelinha no pátio e dividindo o pirulito de coração – e esticando o peito ali vi o mundo sendo topo com todo tipo de gente, sem precisar subir. A escada também me ajudou a ver Dona Joana fazendo bolo fubá e chá para o café da tarde e abrigou rodinhas fazendo do meu peso um carrinho de rolemã.

E tão leve, com o vento no colo, eu corri ladeira abaixo. E lá embaixo, nesse lugar que pouca gente quer estar, bem, bem perto da avenida, onde tudo passa depressa e despercebido, sem aplauso e sem encanto, eu vi o dia escurecer enquanto eu brincava de achar um fusca amarelo entre os carros, como eu fazia nos tempo de menina. Menina que sabia que a vida era mais.

E ali, com a escada repousando do meu lado, com os joelhos ralados, e a pele toda suja de uma vida gasta, experimentada, sugada, vivida, lambida, eu percebi: aquele mundo que, um dia, eu tanto quis alcançar, aquele topo que eu tanto achei que deveria estar, de repente, tava bem ali. Sem subida, sem escada.

Dentro.

 


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