Sala

Imagine só passar anos e anos com uma imagem distorcida de quem se é, dentro da sua própria cabeça!

Olhando pra dentro com cautela, só que mais pelo medo de olhar pra si e lidar com seus próprios demônios, do que pela necessidade em assumir sua essência.

Agora imagine que um dia você está tranquilamente tocando sua vida e de repente bate com a cabeça numa das quatro paredes que criou em volta de si mesmo. E só aí se de dá conta de que não sabe quem você é!

Tem suspeitas, algumas ideias, mas não coloca em prática aquilo que está mais profundo e enraizado no seu âmago.

E desse momento em diante, passa a sentir uma dor tão profunda, que percebe que se não encontrar uma saída  dessa sala dentro da qual se colocou, talvez fique dentro dela pra sempre!

Ela não é ruim. É bem confortável até. Bem decorada. Daria tranquilamente pra passar a vida toda ali numa boa. Mas o que será que é mais assustador: sair da sala confortável e segura ou nunca sair da sala confortável e segura pra ver o que existe do lado de fora?

Mesmo com medo, mesmo sem entender os motivos de querer sair de um lugar tão confortável, você pouco a pouco encontra a porta e devagarzinho começa a espiar o que tem lá fora. E quanto mais você coloca seu corpo pra fora, mais você percebe que não dá para voltar pra dentro da sala. Aí você entende que num determinado momento, a sala vai ficar totalmente pra trás.

Mais adiante você percebe que tudo isso que começou a observar fora da sala, na verdade corresponde a outra sala e que durante a sua vida inteira, vai ter que ter coragem pra levantar e se arriscar em sair da sala que vai se tornando confortável — ou desconfortável até, dependendo da situação – , pra começar a investigar o que existe por trás da próxima porta.

E a cada escolha, você deixa algo pra trás. Mas a cada porta que parece assustadora a princípio, sabe que precisa de  coragem pra seguir em frente e sair do novo espaço que já não faz mais sentido.

Moral da história?

Pra cada um vai ser um. E não existe certo ou errado. Pra mim é não ficar esperando que alguém venha me resgatar da sala confortável. É ter coragem de levantar e ver o que há na próxima porta, mesmo que seja muito assustador a princípio!

É plantar meu próprio jardim e compartilhar minhas flores somente com quem saiba apreciar suas cores e aromas.

É me conhecer de uma maneira tão profunda, que a coragem em seguir minhas escolhas seja cada dia mais comum e presente.

É não me deixar abalar pelas pedras no caminho e sim saber lidar com cada uma delas.

E assim sigo, de sala em sala. Me aprofundando cada vez mais em mim.


Camila Guidelli – @c.guidelli


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