Que tal um cafezinho?

Lembranças de uma tarde de conversas e afeto. E o cafezinho, que memórias despertam em você?

As mãos dela tecem flores de filtros de papel usados para coar café; moldam folhas e galhos; revestem frascos de vidro. É amor coado em criações e reinvenções de novas e velhas formas de demonstrar bem-querer. Tudo com alto grau de personalização. 

Afetos “embalados a vácuo” para não se estragarem. Criações injetadas nas veias do presenteado com pensamentos e os modos de ela ser. Sangue puro de regalos adoçados com amor. Histórias e memórias que vão surgindo em longas conversas antes mesmo de terminar o café da tarde.

Não há festa ou encontros na casa de vovó Dirce, que de lá cada filho, neto, bisneto – ou novos agregados – não volte com uma lembrancinha por ela preparada, ainda que sua mão direita esteja tola – como ela mesma diz – por causa de uma disfunção neurológica. Ela já fez muitos adornos, bordados para os recém-nascidos da família; peças cravejadas com miçangas e paetês; sachês de crochê para perfumar guarda-roupa. Ou ainda “fuxicos” de tecidos que viram mimos natalinos; um recortadinho de publicidade de revista ou papel de presente se transformam em cartão de aniversário.

Nas mãos da vovó – não menos no coração – nada se perde, tudo vira expressão de afeto e carinho. Amor, enfim.  

E quando se toma café pensando nela, não se joga no lixo o filtro de papel em que se coou a bebida. Seria desperdício. Antes mesmo de se falar em reciclagem de materiais, para não poluir o meio ambiente, garrafinhas revestidas com os saquinhos de papel já eram uma de suas criações preferidas, destinadas a animar corações, com a mais pura expressão do “cuidar de quem se ama”. 

Nesse caso, não importa a forma, mas o conteúdo subjetivo dos presentinhos. Ela já foi capaz de devolver imagens de santo que ganhara de presente no aniversário, na falta de uma lembrança de próprio punho, só para não deixar passar em branco a data do festejado.  

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Amor

Sobretudo no coração da minha avó, objetos comuns, em desuso, significam não a perda e sim o estímulo à reutilização; recriações que deixam marcas indeléveis sendo simbólicas do pretérito. O que no passado se verteu de frascos não tem mais importância se deles derramam-se agora sentimentos com selo de exclusividade. 

Suas artes carregam o aroma inigualável de amor que vovó emana a todos. Lembrancinhas são grãos de zelo, delicadeza e doçura. Intensos e suaves ao mesmo tempo, como se fossem a essência dos melhores grãos cultivados do café que impregnou a utilidade de papel na cozinha. E a nossa alma. Coisas simbólicas da vida, nem sempre doces.

Mesmo o que é forte para nós, surge sem acidez, vindo dela na forma de um sentimento personalizado e transfigurado em algo material – sinal de que, horas bordando, recotando e colando alguém estava nos pensamentos da minha avó, geralmente arrematados com uma oração.

Lembro dela toda vez que passo café no filtro de papel – que de pano não existe mais na minha cozinha. O hábito de tomar a bebida no final da tarde implica pensar no perfume imaginário das flores brotadas de um material estéril que vovó dá vida ressignificando coisas que, se não fossem suas habilidades manuais e as virtudes indizíveis, não se eternizariam. 

Assim, ela renova memórias que se perderiam com o tempo. E com ele, o sentido maior de atos aparentemente banais, como tomar o precioso líquido escuro. O que ela quer mesmo é que reguemos o afeto contido em cada gole. Que tal agora um cafezinho?

criancas

 


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