Para conviver melhor no trânsito

  • TEXTO Rodrigo Braga Motta
  • FOTOGRAFIA Istock
  • DATA: 07/09/2019

Tenho notado nos últimos tempos e cada vez mais, uma agressividade das pessoas quando estão ao volante dos seus carros, no trânsito.

Isso me faz lembrar a cena clássica daquele desenho da Disney, o do Pateta, que vai caminhando languidamente em direção ao seu carro e ao entrar e tomar a direção, transmuta sua pacífica personalidade para a de um motorista enlouquecidamente agressivo.

 Porque temos agido assim?

 A simples manobra para tentar mudar de faixa de trânsito, apenas ligando a seta do automóvel e olhando no retrovisor lateral, como aprendemos quando fizemos autoescola, se tornou ineficiente. 

 Precisamos pedir, quase tentar estabelecer um vínculo de amizade, ou até às vezes praticamente suplicar, para que o motorista ao lado seja razoável e nos deixe passar, pra trocar de faixa, sair de uma vaga onde se estava estacionado ou até mesmo conseguir sair da própria garagem .

Há muitos anos tive um professor inglês que me confessou que não conseguia compreender, apesar das diversas tentativas da sua esposa brasileira de explicá-lo, porque aqui no Brasil, para se tomar uma outra direção com o automóvel, além de acionar a seta, o condutor tem que mostrar através da janela do carro, o dedo em posição de joinha.

Em uma palestra, a Monja Coen, a quem muito admiro, disse que  quando vê esses motoristas agindo dessa forma agressiva nas ruas, antes de se irritar ou xingar, prefere fazer o exercício de imaginar que  o comportamento deles se deve possivelmente, por estarem desesperados para irem ao banheiro. Sua teoria é uma ótima dica pra exercitarmos a tolerância, a solidariedade e a compaixão.

A atitude dela é muito nobre, mas o que me espanta é: porque cargas d’água tanta gente dirige seus carros justo na hora de fazer suas necessidades fisiológicas?

Vamos lá, uma outra possibilidade para essa falta de gentileza disseminada seria a distração, considerando que muita distração pode ser sintoma típico de personalidades egocêntricas.

Esse perfil de distraído, que  passa muitas vezes como desatento, descolado e até engraçado, pode  camuflar aquele tipo de gente que só presta atenção em si e não é capaz de enxergar o outro ao lado.

Outra justificativa para a falta de educação dos motoristas nas ruas seria essa vida atribulada  que levamos, estamos sempre afobados, atrasados, fazendo milhões de coisas ao mesmo tempo, inclusive falando e teclando no celular enquanto dirigimos. Quem nunca fez isso, que jogue a primeira pedra no sinal vermelho.

Nessa pressa, agimos como se estivéssemos  numa corrida de automóveis, onde vale tudo pra não deixar o outro passar  na frente, para no fim das contas, constrangidos, reencontrarmos lado a lado com o competidor no próximo semáforo fechado.

O ser humano um pouco mais consciente tenta, mas ainda é tarefa árdua, pensar um pouco no outro. Acredito que a dificuldade consista no fato de  que intimamente ainda acreditamos que o tempo, os compromissos, enfim, que a vida da gente é mais importante que a do nosso semelhante.

Fácil mesmo é apontar um culpado, nisso somos craques. Não assumimos a nossa responsabilidade , acreditamos sermos vítimas, e arrumamos várias desculpas para a nossa atitude pouco nobre, como a quantidade excessiva de carros nas ruas, os automóveis vazios transportando apenas o motorista, o transporte público ruim, a falta de planejamento das cidades e por aí vai. Sempre achamos que a culpa do trânsito é do outro, o outro é que precisa mudar seu modo de agir.

Anos atrás, uma audaciosa e esclarecedora campanha de trânsito em Londres conclamou a responsabilidade de todos com o lema: “o trânsito somos nós”.

No fim das contas é difícil achar uma solução pra esta animosidade, já que a mudança de atitude deve partir de cada um.

 Tive uma ideia simples, aparentemente ingênua mas que, como funcionou pra mim, compartilho aqui com mais leitores. Comecei a fazer um exercício diário e acabei inventando um jogo que chamei de passa um.

No começo jogava secretamente, porque uma das regras é justamente não alardear a conduta, pra não alimentar a própria vaidade, se achando o bom.

Dentro do possível, enquanto circulo de carro pela cidade e em várias situações e momentos, tento sempre dar passagem a pelo menos um carro por vez.

Faz parte do regulamento do jogo também não vangloriar, não esperar reconhecimento nem agradecimento, muito menos reciprocidade ou recompensa da vida. A dica é, no início fazer por disciplina, depois o ato de gentileza vai progressivamente se tornando mais natural, pra um dia, quem sabe, se tornar um hábito.

Vale lembrar que vez por outra, esqueço as regras do jogo, dou bola fora, me comporto de forma pouco solidária e egoísta.

Bem, quando isso acontece, fico chateado, mas tento não desanimar. Encaro como uma oportunidade pra exercer a humildade e a autocompaixāo, lembrando que erramos, que definitivamente não somos perfeitos, ainda estamos estagiando no planeta. De qualquer forma, após a escorregada moral, o retorno ao jogo é mais fácil porque acredite, traz bem-estar.

Além disso, de vez em quando, ainda me vejo tomado pela raiva, mas já consigo na maioria das vezes mantê-la apenas no âmbito do pensamento, evitando desatinos, discussões calorosas e buzinaços.

Tenho uma amiga que considero ser uma pessoa calma e equilibrada emocionalmente, mas que me confessou com certo desconforto que não consegue controlar sua ira no trânsito. Perceber isso  levou a  moça a trocar o carro pelo metrô nos dias mais difíceis. Aqui, uma outra possibilidade, até que se consiga trabalhar melhor internamente esse sentimento.

A gentileza não é inata; é aprendizado, exemplo, educação e auto-educação. É exercício diário, é persistência na atitude, e traz leveza pra vida da gente. Só não esqueça de se perdoar pelas falhas e imperfeiçōes, que estão te esperando na próxima esquina.

 Já pensou em inventar o seu jogo para um melhor conviver?

 


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