O homem que queria abraçar a lua

  • TEXTO Antonio Cezar Martins - @acemartins
  • DATA: 15/01/2021

Oito e pouquinho. Pontualmente, oito e pouquinho. Sempre foi essa a resposta quando era perguntado. E sempre seco, direto, sem margem para saber como estava o tempo, se achava que ia chover. O homem que nunca sorri. Era conhecido assim. Era mentira. Ele sabia. Desconfiava, na verdade.

Vez ou outra sentia algo estranho nas bochechas, perto da boca. Movimentos involuntários, obviamente. Podia ser. Achava que era. Mas algo dizia que era possível. Acreditava que sim. Talvez. Os outros, nunca. Jamais. Daquelas histórias de longos anos que ninguém sabe mais como é, mas todos juram que é verdade. O quê? Ele não sorri. Nunca se viu. Oito e pouquinho, independente se dia ou noite. Noite. Era o que realmente mexia com ele.

– Já vai? – O homem que nunca sorri toma um susto e jura que ouviu alguém fazer uma pergunta. E não eram as horas.

– Já vai? – O homem olha pros lados. Ninguém. Mesmo assim começa a acreditar que está ouvindo uma voz. Não sabe de onde. Logo ele que sempre andou só. Achava que era melhor manter distância. E talvez por isso ninguém nunca o viu sorrir. Ou nunca havia sorrido mesmo. Loucura. O sorriso. A voz.

– Vai ou não vai? – Agora não tinha como negar, ouvira algo de fato.

– Quem está falando? – Disse para a imensidão, não acreditando que estava mesmo respondendo a uma voz do além.

– Eu.

Confuso com essa resposta, o homem se coçou todo, mas se entregou ao diálogo invisível.

– Vou precisar mais que isso, afinal estou sozinho olhando pro nada e, provavelmente, falando com ele. O nada.

De repente o homem se curvou. Abraçou os joelhos. O peito começou a formigar. Ficou quente. A barriga apertou. Quase um nó. Queria gritar. Não conseguia. Não sabia o que sentia. Estava confuso. Tonto. Suando. Sentia tudo. E nada. Nenhuma dor. Mas sentia tudo. Se contorcia sozinho enquanto seu peito se abria. Não sangrava. Não entendia. Sentia. Mesmo assim sentia. Olhou e viu algo sem forma. Pequeno. Cabia na mão. O peito não mais estava aberto. Estava de pé novamente. A pergunta foi inevitável.

– O que diabos é você? O que foi isso?

– Eu? Sou eu. Você sabe e me conhece e nunca reclamou ou se incomodou comigo. Sempre que pensa nela… eu faço as honras…

– Pera aê! – Interrompeu sacudindo a mão tentando tirar “aquilo” de perto, mas sem sucesso – Quando penso nela? Sempre esteve aqui?… Do que está falando?

– Sabe bem e não tente se enganar. Todos os dias, se é que eles existem, você sai à procura dela. Sempre. Fixo. Finge que não, mas eu sei. Tenho culpa nisso. Você sabe, mas é orgulhoso pra aceitar. E essa história é longa, não vou ficar me explicando pra quem sabe do que estou falando.

Ele sabia. Não acreditava. Mas sabia. Agora como aquilo sabia? O que era aquilo?


Todos os dias. Oito e pouquinho. Pontualmente. Todos o viam vagar. Não se importava. Ele seguia. Uns diziam que ele andava estranho. Outros se lembram de vê-lo correndo. Ele, em sua mente, voava. O foco era alto. Por isso voava. Ela, que nunca saia da cabeça do homem, era a lua. O homem que nunca sorri era apaixonado pela lua. Por isso não acreditava que era o homem que nunca sorria. Sabia que era o homem que queria abraçar a lua. Apenas isso.

O homem que queria abraçar a lua.

Oito e pouquinho. Independente se era dia ou noite. Ele a seguia. Sim. A notava desde sempre. Ficava louco quando as pessoas só olhavam pra ela quando já estava grande, linda, cheia – ou não -, conduzindo uns para o descanso, outros para o que fosse. Ela nunca ia embora. Pra ele não. E a seguia. Independente se era dia ou noite. Mesmo quando o sol (quente e sem graça) insistia em querer atenção. Ignorava. Tinha olhos só pra ela. A lua. Sabia que estava ali. Linda. Encantadora. Mas distante. Não conseguia alcançá-la. E tentava. Sempre tentou. Não desistia.


– E aí, percebeu?

– O quê?

– Percebeu que nessa história toda de lua e tudo mais você nunca esteve sozinho? Eu sempre estive ali.

Agora ele começava a ver algo diferente naquilo que não tinha forma e se negava a dizer o nome. Mas ele, de alguma forma sabia que ele estava certo. Ele o conhecia. Não sabia ou entendia como, mas conhecia. Mas, ainda sem certeza do nome, chamou aquilo de “Loucura”.

– Não! Sabe que não sou isso! Mesmo parecendo muitas vezes… – iniciou uma pequena revolta, aquilo sem forma e sem nome. Mas logo se aquietou e continuou a falar. Como falava!

– Enfim, vamos ao que interessa. Quero te ajudar. Estou inexplicavelmente de bom humor. Você não sabe o que é isso. E olha que dizem ser uma característica humana. Humanos… Vocês são patéticos. Se não entendem, demonizam. Tudo tem que classificável, tudo tem que ser medido, tudo tem que ter nome e blá blá blá… Vamos, deixe que eu te explique. Que eu seja eu. Que horas são?

Ele prontamente olhou o relógio, mesmo sabendo que horas eram. Sempre sabia, mas não conseguia entender o que isso tinha a ver com tudo que “aquilo sem forma” estava tentando dizer. Mesmo assim respondeu educadamente.

– Oito e pouquinho.

– Exato! Oito e pouquinho. Sabe por quê?

Ele não entendeu a pergunta. De novo. Só que dessa vez começou a se sentir tonto, estranho.

– Ei, calma. Não se esforce. Chegaremos lá. Sabe quando você olha o relógio e lembra dela, a lua? Aquilo que sente e não consegue explicar? Prazer, sou eu. A sensação de cabeça longe, peito apertado, coração na boca, sabe? Sou eu. Nunca foi o coração.

Ele começava a entender. Achava que sim. Mesmo sem forma e falante. Ele sabia que aquilo sempre esteve com ele. Percebeu que não era loucura. Não podia ser. Mas o que era? Chamou de “sensação boa e estranha”. O nome é péssimo. Ele percebeu na hora. Mas o sentimento era algo maior que ele. Não tinha palavras para aquilo. Não conseguia lembrar de nenhuma que conseguisse definir aquilo. Não tem jeito; O que não tinha forma, continuaria sem nome. Mas agora tinha ao menos uma tradução. Uma sensação boa e estranha.

– Sim. Isso aí mesmo. Vou relevar o “estranho”. Mas te entendo. Vocês humanos são limitados. Parecem ficar ainda mais quando eu apareço. Mas é o seguinte: Vou te ajudar.

O homem que nunca sorri pensou ter sentido aquele mesmo incômodo nas bochechas, perto da boca, que jurava um dia ter sentido. Movimentos involuntários, claro.

– Vai me ajudar?

– Sim.

– E como vai fazer? Sempre tento, tento, mas não consigo. Sei que me chamam de louco. Me chamam de várias coisas, mas eu sei que não sou. Ainda mais sabendo agora que boa parte do que achava que era loucura, era você. Todos os dias eu sinto que vou conseguir, sabe? Até me perco nos dias, na verdade. Não importa, porque sempre oito e pouquinho ela aparece. E sei que ela sempre esteve ali. Sempre a notei. Já consegui chegar perto, inclusive. Já cantei pra ela, escrevi pra ela, mandei vários beijos. Parece besteira. Parece loucura mesmo. Mas sinto que ela me vê. Que me retribui. Cara, não tenho nem palavras pra descrever o que sinto. Na verdade, você sabe exatamente o que sinto. Você, isso sem forma e sem nome que sempre esteve no meu peito e eu nem desconfiava. Você é o que sinto. E como você me bagunçou. Mesmo assim, nunca me perdi. Sempre olhei pra ela. Oito e pouquinho, seja dia ou noite. Sempre olho pro céu e espero ela chegar pertinho. E tudo que quero é poder abraçá-la.

– Você vai?

– Vou? Como? Quando?

– Calma, até agora nem sabia que eu existia. As coisas não são assim. Tenho um plano. Vejo como se sente. Como ela mexe com você. Às vezes eu nem tenho tanta culpa nisso. Só ajudo. Mexo com seu corpo. E é por isso, pobre homem estranho, que vou te ajudar. Seguinte, você vai fazer exatamente o que eu falar.


Tudo pronto. Um enorme laço verde no peito, quase uma gravata borboleta. O homem que nunca sorri e que quer abraçar a lua estava em pé ouvindo as instruções daquilo que não tinha forma e nem nome e que morava no peito dele. O homem se sentia meio bobo, não estava certo se iria funcionar. Não importava. Quantos já o chamaram de louco, de estranho, de tantos nomes? Nem pensava nisso. Acertou o laço, olhou o relógio, olhou para aquilo que o ajudava e perguntou.

– Tem certeza?

– Claro. Confie em mim. Sempre que apareço e você me ouve (mesmo sem saber que eu era eu) o que acontece?

– Não sei ao certo, mas sinto uma “sensação boa estranha” agora.

– Claro que sente. Não estou aqui contigo? Confia. Um belo laço verde. Você vai ficar assim, todo embrulhadinho. Um presente.

– Mas como vou saber se ela vai aparecer?

– Ela vai.

– Mas quando?

– Calma. Tá quase.

– Meu Deus, não sei nem o que pensar, o que fazer. São tantas coisas que quero falar, que quero que ela saiba… Caramba, estou passando mal. É você?

– Não tenho nada a ver com isso. É só você surtando mesmo. Calma. O homem que nunca sorri não precisa chorar.

– Sério?

– Desculpa, não resisti.

– Será que ela vem mesmo?

Aquilo não respondeu. O homem que nunca sorri olhou em volta e não viu mais nada. Estava parado com um enorme e belo laço verde no peito esperando a lua. Não sabia o que fazia. Sabia sim. Queria abraçar a lua. E sentia que hoje seria o dia. Ou a noite. Nessa hora ele sentiu. Sabia que era ela. Do nada as mãos ficaram geladas. A espinha arrepiou de uma vez só, fazendo o homem balançar. Não sabia o que estava acontecendo. Parecia loucura. Uma sensação boa e estranha.

Não. Muito mais. Indescritível. Era ela. Sabia. Não acreditava. Do suor frio passou a sentir a temperatura subir. Cada vez mais. Era quente. Era ela. De repente viu o laço em seu peito se desfazer. Olhou pra frente e viu. A lua. Linda. Era perfeita. A cor da noite, o brilho do dia, a beleza… dela. Da lua. Sentiu seu rosto ficar úmido. Sentiu seu corpo tremer. Ficou tonto. Não. Não ia desperdiçar o momento. Era o seu momento. O deles. Sem dizer nada, a pegou de uma vez e a apertou contra o peito. Segurou forte.

Não queria soltar não queria que o momento acabasse. Queria viver naquele abraço. Queria estar sempre com ela. Queria gritar pra todo mundo o quanto estava feliz naquele abraço. Queria que todos vissem que ele, o louco, o seco, o estúpido, era também feliz. Um homem que abraçou a lua. Isso. Queria que fosse conhecido assim. O homem que abraçou a lua. Sentiu que o peito palpitava. Sabia que o coração dançava junto com aquilo que não sabia o nome, que não tinha forma, mas que sempre esteve em sem peito.


A lua, cada vez maior em seus braços, olhou pra ele, deu beijo em seu rosto e sussurrou algo em seu ouvido. Ele não entendeu. Pelo menos achava que não. Ela repetiu. Um pedido. Era isso. Ele sabia o que era, mas não sabia como responder. Ela, paciente, linda, olhou em seus olhos, pedindo mais uma vez. Uma voz doce que inundou seu corpo todo. Não tinha como resistir àquela que sempre esperou e que crescia em seus braços. Sem pensar e sem saber como, o homem que nunca sorri deu espaço aos movimentos involuntários de seu rosto e abriu um enorme sorriso. Um nunca visto antes. Iluminado. O homem que nunca sorri… sorria. Na mesma hora ele ouviu aquela voz que vinha de seu  peito.

– Ei, sabe que horas são?

O homem que agora sorria, mostrou ainda mais os dentes e sabia que era oito e pouquinho, a hora que ele viu a lua, a hora que ele se deu de presente pra lua, a hora que ele, enfim conseguiu abraçar a lua. E nessa hora ele sentiu um estalo. Soube sem perceber que aquilo sem forma no peito tinha realmente um nome de verdade. Num instante foi tomado de uma sensação boa e estranha e soube que o nome daquilo era Felicidade.


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