Maternidade e filhos com TV em tempo integral

  • TEXTO Ana Elisa Granziera
  • DATA: 15/06/2020

Nenhuma família é igual e nenhuma solução é universal. Crianças se desenvolvem em ritmos diversos e têm personalidades variadas. Liberar a televisão na minha casa foi maravilhoso

 

Começou a partir de uma conversa com uma amiga, que sempre me mandava relaxar quando ouvia, do outro lado da videochamada, eu fazer valer alguma regra de casa. Não tínhamos muitas, mas éramos firmes com as que básicas: horários para as refeições, para dormir, educação para garantir boa convivência e tempo restrito de telas (TV e videogame apenas aos sábados e domingos). No restante da semana, as crianças tinham um bocado de tempo livre para escolher atividades e explorar possibilidades, contanto que arrumassem a bagunça produzida.

Na conversa, comentei com essa amiga que passamos o tempo de tela para 2h por dia, devido à quarentena. Foi o modo que achamos para ter 2h de trabalho sem interrupções. Expliquei a ela que as crianças andavam ansiosas, falavam apenas sobre videogames, mesmo ao caminhar no parque, e ficavam hiperativas após o desligamento da TV. Eu pensava em voltar ao esquema antigo, pois achava que meus filhos não lidavam bem com a presença diária da televisão. “E por que você não libera a TV de uma vez?”, perguntou-me, com um sorriso impaciente. “Aqui é liberado e as crianças se autorregulam. Desligam a tela quando se aborrecem e vão fazer outra coisa, porque sabem que a TV não vai fugir”.

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Respirei fundo, sentindo os músculos ao redor da nuca retesando enquanto eu armava minhas defesas. “Aqui isso não funciona. Meu filho tem personalidade com tendência à compulsão e ao hiperfoco, e minha filha vai no embalo. O videogame está cheio de jogos, além do streaming. Não consigo imaginá-los desligando a TV voluntariamente”, expliquei, emendando: “Meus filhos sempre precisaram de certa dose de rotina, estrutura.”

E se liberássemos a TV?

Eu sabia que ela me julgaria por esta última frase. Quando nos conhecemos, há quase dez anos, ela era um espírito livre, e eu era uma mãe que desejava ser livre, mas ainda me encontrava presa a estruturas rígidas e tradicionais, como as que fui criada. As críticas dela eram tão duras quanto as minhas defesas, mas, como água sobre pedras, eram insistentes o bastante para encontrar um caminho. E ao longo dos anos eu fui vivendo uma maternidade mais livre e relaxada, mas com limites bem estabelecidos que, aos seus olhos, pareciam controle e restrição. Para mim, nós duas subíamos a mesma montanha. Mas ela fazia uma escalada livre enquanto eu usava cordas de segurança.

À noite, repassando a conversa com meu marido, ele me pergunta: “E se liberássemos a TV? Eles brigam pelo tempo de cada um, ficam ansiosos a semana toda. Cansei de ficar recompensando com TV e punindo com a falta dela”. No dia seguinte, convocamos uma reunião e explicamos que não estávamos contentes com o esquema das telas. Quem sugeriu a liberação integral fomos nós, desde que já tivessem feito suas obrigações matinais: arrumar a cama, trocar de roupa, pentear os cabelos, tomar café, escovar os dentes e fazer as lições da escola. E o uso só poderia ocorrer desde que os adultos já estivessem acordados.

Uma nova rotina no lar

Na primeira semana, tudo aconteceu como o combinado. O pai trabalhava o dia todo e eu aproveitei o tempo extra para me concentrar no livro que estava escrevendo. Sabíamos que os primeiros dias seriam de excessos, pois eles nunca experimentaram tanta liberdade com a TV. Mas nos comprometemos a ter paciência e esperar pela autorregulagem.

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Na segunda semana, não houve mudança no comportamento – videogame, desenhos, videogame novamente e assim seguia até a hora de alguma refeição, quando desligavam sob protestos e negociações.

Aquele excesso começou a me incomodar. Eu tinha saudade das crianças que haviam sido até a quarentena começar: liam livros e gibis por horas, criavam todo tipo de arte, exploravam e perguntavam, pediam por mato, terra e céu. Dei-me conta de que, sem o limite de horário que as obrigava a lidar com o próprio tédio e criar suas atividades, precisaria ser eu a responsável por atraí-los para fora do mundo eletrônico.

Começamos dar longas caminhadas ou voltas de bicicleta no parque, na tentativa de diminuir o tempo que restava para ser usado com a bunda no sofá. Mas assim que eu os deixava sozinhos, corriam novamente para a TV. Se eu resolvesse ocupar a sala para ouvir música, ler um livro no sofá ou trabalhar, teria como resposta braços cruzados e bicos.

Mais tempo?

Na terceira semana ficou claro para nós que as crianças não tinham demonstrado qualquer evolução na relação com as telas. Para nossa surpresa, haviam instaurado, entre eles, um sistema de medida por tempo, garantindo que cada um assistisse a seus programas favoritos de forma igual. Quando o sistema falhava, um deles se sentia prejudicado, causando frustração e discussão.

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As crianças pararam de ler. Perderam o interesse nos livros novos que pediram e começaram a negociar por mais tempo para ver desenhos. Recusavam participação em outras atividades que eu lhes propunha, como jogos de tabuleiro ou passeios externos. Comiam apressadamente para voltar à tela o quanto antes. E ainda que tomássemos cuidado para que assistissem apenas desenhos com conteúdo razoavelmente positivo, começaram a reproduzir nas relações conosco e entre eles os comportamentos dos personagens.

Readaptação

“O experimento falhou miseravelmente”, afirmei no dia seguinte a meu marido, frustrada. Ele concordou. “Eles têm sete e nove anos. Era óbvio que não iam se autorregular. Ainda mais morando num apartamento”, disse. Planejava outra reunião familiar que os levasse a concluir conosco que precisávamos mudar tudo de novo. Mas meu marido foi mais prático: no café da manhã, entre um gole e outro de café, anunciou que a TV só poderia ser usada nos finais de semana. Ambos responderam com um “tá bom”.

A mudança para suas antigas rotinas e personalidades foi quase instantânea. Com a certeza de não haver telas durante a semana, se entregaram ao ócio criativo. Voltaram a desenhar, pintar, ler, escrever, cozinhar, montar, desmontar, construir, destruir, pesquisar, perguntar, criar histórias e simplesmente conversar. Eles não são livres para ver TV, mas são livres para viver seu caos criativo.

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“Liberamos a TV”, contei à minha amiga, que respondeu com empolgação. “Deu miseravelmente errado”, continuei, rindo. “Mas foi ótimo, no fim das contas, e obrigada pela sugestão”.

Nenhuma família é igual e nenhuma solução é universal. Crianças se desenvolvem em ritmos diversos e têm personalidades variadas. Liberar a televisão na minha casa foi uma decisão maravilhosa e, no fim das contas, me ensinou a confiar em meus instintos. Aprendi que eu, mais do que ninguém, conheço meus filhos, seus potenciais, limitações, processos cognitivos e personalidades. Aprendi que eles são os melhores filhos para mim – e eu sou a melhor mãe para eles. Perfeito.

Se você conseguiu obter qualquer espécie de harmonia familiar, é melhor parar de olhar a grama do vizinho e curtir o seu matinho gostoso, catando quantas ervas daninhas você julgar necessário. Obrigada, amiga, por me ensinar a ser a mãe que eu sou sem pedir desculpas por sê-lo.


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