Futebol e o “saber sofrer”

  • TEXTO Hosana Oliveira Martins
  • DATA: 14/01/2020

No dia a dia, saber a hora de “sofrer” e saber a hora de contra-atacar pode ser bem complicado. Porém, me alegra a nova perspectiva de que “saber viver” não é, necessariamente, tomar cuidado em não sofrer

 

Eu escuto cada vez mais em entrevistas de técnicos e jogadores de futebol, e até mesmo os comentaristas esportivos, utilizando a expressão “saber sofrer”. Essas palavras conjugadas me chamam a atenção e me geram questionamentos. No esporte, saber sofrer é a capacidade do time de suportar a posse de bola e o ataque adversário. Chegou-se ao entendimento que no jogo existirão os momentos de criar jogadas, estar com a bola e buscar resultados, mas terão momentos em que será necessário se defender, se fechar e aguentar a pressão do time adversário.

Diante disso, eu fiquei me perguntando: “será que na vida precisamos também “saber sofrer”? Eu cresci escutando o alerta contido na música “É Preciso Saber Viver”, composta por Erasmo Carlos e Roberto Carlos de que: “É preciso ter cuidado. Pra mais tarde não sofrer. É preciso saber viver”.

Nunca me explicaram o que é esse “saber viver”, inclusive, estou tentando “saber viver” até hoje. Mas tem uma referência na música para não sofrer. E aí vem essa virada do “saber sofrer” que me passa uma mensagem que o sofrimento não deve mais ser evitado, o sofrimento dever ser suportado.

Não é apenas suportar o sofrimento

Quem nunca passou por uma fase difícil? Aquele momento em que nos sentimos impotentes de resolver a situação e temos que aguentá-lo na esperança que ele passe. Um ente querido doente, ficar desempregado, uma crise no relacionamento, uma crise política, uma crise econômica… Tem algumas pessoas que preferem não lidar com o sofrimento ou que não tem a esperança que ele um dia acabe, então fogem como podem da situação. O que me intriga é essa capacidade de ficar e aguentar o sofrimento até superá-lo.

Acredito que “saber sofrer” não seja simplesmente suportar o sofrimento. Veja que os jogadores não apenas ficam se defendendo a partida inteira, eles aguentam os momentos de pressão, buscando o momento para o contra-ataque. Acho que a expressão “saber sofrer” mostra que a vida não pode ser só alcançar resultados, só celebrar vitórias ou só atacar.

Mostra que a vida é composta dos momentos de sofrimento, pressão e dificuldades. Esse entendimento parece óbvio, mas veja como somos estimulados a nunca perder a posse de bola, a sempre estar por cima, a sempre estarmos felizes, a sermos realizados e vitoriosos. A parte em que estamos perdendo no placar ou estamos passando por um sufoco deve ser escondida ou evitada, como se fosse uma vergonha não ter a posse da bola, não estar no ataque, não estar se realizando, sendo feliz, sendo o melhor… E agora o “saber sofrer” vem como uma característica a ser considerada como louvável. Os jogadores e técnicos falam com orgulho que o time soube sofrer. Isso, pra mim, é uma reviravolta. Será podemos nos sentir orgulhosos de na vida de saber sofrer?

Ser feliz

Não me parece que saber sofrer seja o mesmo que ser resiliente. Talvez esteja mais para ser resistente e persistente.  Quando os jogadores estão se defendendo do ataque adversário, eles não sabem se irão vencer o jogo, eles simplesmente cumprem a parte de não perder o jogo. O zero a zero pode ser o resultado de dois times que sabem sofrer. 

Na vida, talvez, os ataques não sejam tão evidentes e saber se defender seja algo que exija uma visão de si e de tudo que nos cerca. No dia a dia, saber a hora de sofrer e saber a hora de contra-atacar pode ser bem complicado. Porém, me alegra essa nova perspectiva que “saber viver” não é, necessariamente, tomar cuidado em não sofrer. Mas talvez seja um tanto de “saber sofrer” somado com  um tanto de “sabe ser feliz”.


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