Flauta mágica

  • TEXTO Jorge Massarolo
  • DATA: 17/09/2020

Só ouve quem gosta de boa música. Boa música não incomoda, ainda mais quando ela surge do nada, assim, no meio da rua.

 

Acho que vi um duende na vila onde moro. Na verdade, acho que vi vários duendes. De vez em quando passa um em frente de casa. Penso que são duendes por causa da música que tocam.  

Nem sei como são duendes, se são pequenos, invisíveis e se vivem escondidos em jardins, mas gosto de chamar de duendes o que vejo, ou melhor, o que ouço. Também passei a acreditar depois que vi um adesivo em um carro que dizia “acredito em duendes”. Não estou sozinho. 

Às vezes, estou descansando em casa quando o som harmônico de uma flauta começa baixinho e depois vai aumentando, aumentando. É o duende se aproximando pela rua de terra, em meio às árvores. Pela fresta da janela o vejo passar. Chamo minha filha para confirmar, e ela cai na risada. 

— Pai, não é duende, é um estudante de música, diz. 

Ok, finjo que acredito. No dia seguinte é a música de um violão que ouço lá longe, dobrando a esquina, e que vai crescendo, crescendo até passar por mim. Música linda. Outro dia é uma sanfona que passa, desta vez tocada por uma “duenda” de cabelo comprido e saia. Aliás, todos eles usam cabelos compridos. Machos e fêmeas me confundem, todavia, são todos jovens e usam roupas, digamos, de duendes… 

flauta mágica música

Assim eles vão desfilando quase que diariamente num show inusitado de harmonia. Eu fico ali, na espreita, ouvindo aquela música mágica, seja de dia ou à noite. Aliás, é muito comum ouvi-los também pela madrugada. Às vezes eles param na praça, sentam no tronco de uma árvore caída, e ficam tocando boa parte da noite. 

Em festa 

O som da flauta invade os sonhos tal qual nos contos de fadas, se bem que estou velho para acreditar nelas. É como se tivesse duendes no jardim. O bom mesmo é quando se reúnem e resolvem dar uma festa. A música e a alegria invadem a vila. 

É difícil resistir ao som das flautas, violões, instrumentos de percussão, gaitas. Em torno de uma fogueira eles cantam, dançam e tocam.  A festa atravessa a noite e a vizinhança não reclama nada. Por isso acredito que são duendes. Só ouve quem gosta de boa música. Boa música não incomoda, ainda mais quando ela surge do nada, assim, no meio da rua. 

O jardineiro e sua música

Tem um cantor que sei que não é duende. Ouço-o lá longe, dobrando a esquina com sua bicicleta e voz rouca. Ele é inconfundível, pois não consigo entender uma palavra do que canta em altos brados. É o jardineiro da vila, que adora expressar sua alegria dessa forma. 

Isso me lembra anos e anos atrás, quando vim morar na vila … sempre ouvia um piano dentro de casa tocando sem parar, aliás, ouço até hoje. Depois veio um violão, uma bateria… acho que tenho duendes dentro de casa. Ainda bem, pois, o que seria do mundo sem música e sem duendes?  Nem quero imaginar.  

 


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