Fique só com o que puder carregar

  • TEXTO Katia Soares
  • FOTOGRAFIA Justin Luebke | Unsplash
  • DATA: 05/02/2019

Hoje, olhando a casa vazia, me dei conta: tudo que restou foram vinte e três quilos em malas para despachar e mais dez quilos de bagagem de mão.

Depois de pagar boletos intermináveis de alguns carros, trocar algumas televisões, mobiliar algumas vezes a casa, assinar pacotes com mais de trezentos canais de TV que nunca consegui assistir, comprar roupas e sapatos que se acumulavam até não caber mais nos armários, bolsas…e sei lá mais o que. Restaram trinta e três quilos. Tudo que preciso para começar uma vida nova.

Enquanto me desfazia de tudo que era material e não conseguiria levar comigo, refletia sobre tudo que carregamos sem necessidade. Olhando agora para trás, toda a aflição das provas de matemática, o medo de não ser aprovada no vestibular, a ansiedade para me encaixar no mercado de trabalho, os amores não correspondidos, as discussões acaloradas sobre pontos de vista e todos os momentos de desgaste emocional se tornaram tão pequenos. Alguns deles são lembrados até com um leve sorriso no rosto. Como se fosse uma grande amiga dizendo: Sua boba! Tanta preocupação sem saber das lindas histórias que viriam.

Em clima de despedida trocamos os trezentos canais à cabo por um abraço de alguém que amamos, deixamos de comprar um sapato novo para sentar pela última vez com um amigo e ouvir um chorinho, trocamos nossa casa com a cama do jeitinho que gostamos para passar a última noite toda torta e desajeitada com alguém que sentiremos muitas saudades e, por fim, deixamos de nos consolar com ilusões para buscar conforto no que realmente importa.

Na mala são trinta e três quilos de pertences materiais, mas no coração carrego todo amor que já recebi. Todos os chás preparados por minha mãe nas semanas de prova, cada amigo que me ajudou a estudar para os vestibulares, cada amizade que fiz nas empresas por onde passei, cada ensinamento, cada pessoa que me escolheu como amiga, amor ou confidente no lugar de tantas outras, cada pessoa que me ensinou de maneira amorosa que meu ponto de vista não era o correto e cada ajuda que recebi de pessoas que nem esperava ou ao menos conhecia.

Porque no final, o que fica é tudo aquilo que escolhemos carregar. No meu caso, três malas nas mãos e o coração cheio de amor, gratidão e boas lembranças.

COMENTÁRIOS

  • Maria da Glória Muniz

    Feliz recomeço!!!
    É difícil, quando estamos no dia a dia, nos compromissos e obrigações que nos impomos, perceber o quanto juntamos de desnecessário e perdemos em não curtir o que realmente importa. Mas, faz parte do nosso aprendizado e é para nos tornarmos
    pessoas melhores que estamos aqui.
    Parabéns por ter percebido a tempo, nem todos conseguem.

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  • Telma R Alves

    Que texto inspirador..Estou mudando de uma casa em que vivi por 60 anos.Infância, adolescência , idade adulta e idade madura, uma vida inteira., seu texto foi de grande ajuda porque estou na fase do despego, destralhar o que já não faz mais sentido.Muito obrigada.

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  • Silzer

    Que texto expressivo.. sentimento e sentido em cada frase.. obrigada por compartilhar 🙌🏼

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  • Mariana

    Amei o texto.
    Bela reflexão.

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