Ficção terapêutica

  • TEXTO Isadora Catem Santos
  • DATA: 10/07/2020

É intrigante como muitas vezes preferimos parar a vida para estarmos imersos a uma tela ou livro acompanhando a história de personagens. É o fascínio e poder da ficção

 

Substituímos sair e ter experiências verdadeiras, ou pelo menos, completamente nossas, por maratonas de séries. Nos emocionamos com o câncer de alguém que nunca existiu e torcemos por bandidos serem bem-sucedidos ao assaltarem bancos, quando nunca faríamos isso na realidade. Incontáveis vezes deixei de ir a um evento ou encontro para ter o prazer de estar em casa assistindo filmes.

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Acredite, esse não é um texto crítico a improdutividade ou ao escape que usamos através da ficção. Faz parte e todos merecem ter pequenos prazeres na vida. Tudo bem cancelar os compromissos sociais para assistir a nova temporada da série favorita, terminar aquele capítulo do livro tão animado ou simplesmente deixar a imaginação correr solta no papel.

Você tem o poder de escolher entre a realidade ou parar um pouco o tempo e fantasiar, se te faz bem.

O que tem a ficção afinal?

Ou a pergunta seria: o que acontece para querermos esquecer de nós e mergulharmos em outras vidas? Woody Allen, o contador de histórias incansável, já dizia em Meia-Noite em Paris: “O presente é assim. É um pouco insatisfatório porque a vida é insatisfatória”.

Mas o encanto pela ficção vai muito além disso. Se trata também, da necessidade inerente ao homem de contar histórias e entender sua realidade. Muitas vezes a ficção é terapêutica e nos ajuda a processar aquilo que é a existência.

Suzi Frankl Sperber escreve sobre a “pulsação de ficção”, uma teoria associada às pulsações de vida e morte de Freud. Sua fundamentação é na indispensabilidade que todo ser humano tem de elaborar a experiência vivida através da efabulação.

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A ficção se torna, assim, instrumento de transferência. Não de sentido, mas de deslocamento de sujeito e uma ferramenta poderosa de autorreflexão.

O desenvolvimento humano, psíquico e do conhecimento, parece ser revelado por jogos, imaginário e simbolização. A essência do processo parece estar vinculada a uma extrema urgência de compreensão. Godard já havia matado a charada em “A Chinesa”: tudo bem, é ficção, mas me deixa mais próxima da realidade”.

A complexidade é tão grande que é preciso considerar a questão da possibilidade. Provavelmente eu nunca irei morar na Grécia ou terei uma conversa séria sobre vestidos com ratos, mas posso vivenciar assim. Nos realizamos através dessas histórias e aprendemos lições incontáveis.

Universo fabulado

A professora Dra. Ivânia Campigotto Aquino acredita que a ficção é parte integrante da nossa formação como sujeitos, uma vez que, diariamente, mesmo que de maneira inesperada, nos retiramos do real e nos transportamos ao universo fabulado.

Ao olhar no dicionário, ficção significa: “Criação de imaginação, invenção fabulosa, opõe-se ao que é real”. De modo semelhante, em uma abordagem Freudiana da questão, ao considerarmos criações ficcionais como arte, ela se torna uma gratificação substitutiva apresentada como ilusões à realidade.

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Sobre a importância da fantasia na vida mental, o pai da psicanálise acredita que são muito eficazes psiquicamente, o que resulta em uma distração passageira da multiplicidade do mundo.

A ficção tem uma dupla armadilha de trazer compreensão e escape. Afinal, todos precisam de uma pitadinha de esquecimento de si mesmo.

Ficção do bem-estar

Essas experiências fictícias fazem parte do que Aristóteles chamou de catarse ao se referir à purificação das almas por meio de uma descarga emocional provocada por um trauma.

Ainda sobre arte, se acredita que através dela é possível que ocorra esse fenômeno. É como assistir a um filme, espetáculo, show ou até mesmo uma pintura quando esses elementos provocam grande descarregamento sentimental. Nietzsche dizia que “temos a arte para não morrer da verdade”.

A cineterapia, por exemplo, pode ser usada como ferramenta psicoterapêutica. É uma verdadeira oportunidade de aprendizagem para a cura e evolução. Utilizada cada vez mais por profissionais de saúde e em terapias complementares para melhorar o bem-estar mental, é capaz de agir como catalisador para mudanças de hábitos e desenvolvedor de empatia.

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Da mesma forma, a escrita ficcional e o desenho são atos terapêuticos e imaginativos que pela expressão transforma perspectivas e coloca o sujeito no lugar ativo de criador.

O psicólogo Julio Peres entende que essa é uma maneira eficaz de superar situações difíceis. Segundo ele, crianças e adultos precisam atribuir significados às experiências dolorosas para conseguir explicar o que ocorreu. Assim, é possível reestruturar o trauma, processar os sentimentos envolvidos e os superar.


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