Eu S/A

  • TEXTO Kati R Chambers
  • DATA: 11/09/2020

Tenho aprendido que a vida acontece no lento, enquanto observo a chaleira que esquenta a água para o café fresco e espero ansiosa pelo bolo que assa no forno

 

Com mais tempo e espaço para pensar, nessa quarentena eu me dei conta de que vivi a maior parte da vida como se eu fosse uma empresa. Vivi cheia de metas, deadlines (prazos), relatórios de performance e condições. Isso é cruel. A vida não precisa ser empresa, pode ser arte, literatura, como disse o meu psicanalista.

Acho que foi este o script de felicidade e sucesso que eu assimilei. Inconscientemente, entendi que para que a minha vida valesse à pena, eu teria que ser produtiva o tempo todo e fazer algo para mudar o mundo. Uau. Quanta responsabilidade.

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Com este script internalizado, saí como se estivesse treinando para uma maratona o tempo todo. Fazer, fazer, ler, estudar, criar, aprender, buscar o desenvolvimento pessoal continuamente. O resultado dessa busca desenfreada por um suposto sucesso – que nem eu sei o que significa – foi um colapso mental. Fiquei internada por 6 semanas, e sigo fazendo tratamento em casa.

No fundo, acho que foi a maneira perfeita que a vida encontrou para me dizer: “pare!” Então eu parei. Por meses não consegui correr, ler ou elaborar ideias. Meu pensamento estava lento por causa de um remédio, e como disse uma grande amiga, eu estava monossilábica.

Fiquei semanas à toa. Um tédio. Fiquei cara a cara com as minhas emoções e vazios, que eram em parte anestesiados pelos medicamentos. Sentia uma fome voraz e em 6 meses engordei 15 quilos. Depois de 6 meses, comecei a correr aos poucos e a médica retirou o medicamento que me deixava lenta. Voltei a ler e, aos poucos, fui retomando a rotina. Aí veio a quarentena.

Encarar os vazios

Eu já tinha ficado meses “olhando pro teto”, dias inteiros só de pijama, semanas maratonando séries e quando a quarentena começou eu já estava mentalmente pronta pra retomar a minha vida ativa.

Comecei a cozinhar. Estranhamente, comecei a gostar de cozinhar. Descobri temperos e especiarias e isso trouxe um frescor pra minha vida. Também comecei a cultivar menta, manjericão e alecrim. Adoro olhar pra eles e para minhas flores – flores de verdade e não de plástico como eu costumava a ter antes.

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Olhar para a nossa relação com a comida nos permite mergulhar nos nossos desejos e faltas. Comer é também se conhecer. Encarar nossos vazios e a nossa fome. Eu ainda adoro fazer “to-do lists” e confesso: sou viciada em manuais com 7 passos para… “ter uma horta em casa” ou coisa assim. Tenho sim pequenas metas diárias, como ler, estudar, trabalhar, me exercitar e meditar. Nem sempre cumpro todas as atividades, mas ter uma lista certamente ajuda. A diferença é que hoje as minhas listas são bem menores e mais realistas.

Eu definitivamente me sinto mais satisfeita produzindo e estudando, ocupando o meu tempo de forma criativa. Mas aí me dei conta de que uma rotina muito rígida seria uma extensão do mundo corporativo. Como encontrar o equilíbrio?

Consciência e força

Sou viciada em performance, confesso, e quero “performar” bem e cada vez melhor em tudo o que me proponho a fazer. Acho que tá tudo bem. Eu ainda não sei viver de outra forma. Mas parei de sair correndo feito louca para conquistar o mundo. Tô curtindo essa ideia de viver vagarosamente.

A cobrança por aperfeiçoamento, desempenho, produtividade agora vem de dentro. O general – chefe tirano – vai continuar a morar dentro de mim. Mas sinto que agora eu tenho mais consciência e força para acalmá-lo sempre que preciso.

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Tenho aprendido que a vida acontece no lento, enquanto observo a chaleira que esquenta a água para o café fresco e espero ansiosa pelo bolo que assa no forno. Aos (quase) 35 anos, sigo descobrindo a vida e suas tantas possibilidades. Acho que isso sim é sucesso.


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