Descobri que fui adotado aos 47 anos

Eu tinha uma certeza: minha vida não seria tão boa se ela não tivesse me escolhido. Era o que me motivava a seguir em frente. 

criancas

Não tenho certeza do mês exato, mas acredito que foi entre agosto ou setembro de 2014. Acordei com vontade de reencontrar umas primas que não tinha contato há mais de 26 anos. Acredito que o afastamento se deu pela sucessão de doentes que vieram se tratar em minha casa (avó materna, tia, irmão…). 

Pesquisando numa rede social encontrei a prima mais velha. Mandei mensagem, que rapidamente foi respondida. Era a única que estava numa rede social. Trocamos números de telefones, fato que deixou minha mãe emocionada. Na época, ela se movimentava com dificuldade, pois sofria de artrose nos joelhos. 

Depois de vários telefonemas, agendamos um almoço num domingo de outubro na casa de um delas.  A chegada da data foi acompanhada de ansiedade e apreensão. Com meu namorado e minha mãe, pegamos estrada. Foram 71,3km para chegar à cidade onde nasci. 

Foi estranho, mas elas foram receptivas, curiosas e barulhentas e curiosas.  Sem entrar em muitos detalhes, minha mãe adorou. Para mim, era o que importava.  Passados alguns dias depois do almoço, uma delas entrou em contato. Queria comentar o almoço, entre outras coisas. 

Seguir em frente

Conversa vai. Conversa vem. Ela relata uma conversa com uma das irmãs sobre minha adoção. E continuou a falar.  Pedi para me explicar direito sobre essa adoção. Ela se surpreendeu. Achava que eu sabia. Respondi que não.  Nesse momento, aos 47 anos, eu soube que fui adotado. 

Assim que terminei de falar com ela, liguei para meu namorado, que ficou tão chocado quanto eu. Perguntou se eu iria falar com minha mãe, que naquele momento deixava de ser exatamente minha mãe. Enfim… Respondi que iria.

Experimentei diversas emoções nos dois dias seguintes. Aí, numa manhã, depois de dar banho e estar secando minha mãe, depois do mantra que ela usava: ‘Só Deus para te agradecer pelo o que você estava fazendo por mim’, eu falei: ‘Bom, já que está falando nisso, que tal me contar direito sobre minha adoção?’

Ela tentou desviar do assunto, mas cravei: ‘A Valéria contou a verdade. Não adianta esconder’. 

Sem saída, contou uma história: em 1967, tinha uma amiga que era irmã de uma assistente social da Maternidade de Piracicaba, onde deixavam recém-nascidos abandonados. Um dia, essa mesma a convidou para ir lá ‘escolher’ um bebê. 

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Ela escolheu ‘o mais branquinho’. Isso que eu sou negro, mas isso é outro assunto.  Completou dizendo que nunca contou, pois tinha medo que eu fosse ‘embora’. Dei risada e perguntei: ‘Mas para onde eu iria?’

Naquele momento, o assunto se encerrou. Porém, durante alguns dias, ele voltou à tona em praticamente todas as manhãs. Queria entender direito, preencher várias lacunas e ir absorvendo as informações. 

Isso me ajudava a transitar por variados sentimentos, como desconfiança, raiva, frustração e agradecimento.  Dos primeiros, fui compreendendo que não adiantava senti-los. Pelo menos, naquele momento. 

Mas eu tinha uma certeza: minha vida não seria tão boa se ela não tivesse me escolhido. Era o que me motivava a seguir em frente. 

Cinco meses depois dessa revelação, minha mãe perdeu a lucidez graças ao Parkinson.  Ela faleceu nove meses depois.  Ou seja, em 48 anos de relacionamento, eu e minha mãe vivemos apenas cinco meses sem mentiras. Pelo menos, é o que acredito. 


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