Quando o amor se torna oxigênio

  • TEXTO Valeria Campos
  • FOTOGRAFIA Debby Hudson | Unsplash
  • DATA: 24/12/2018

O tio estava há dias no hospital. A primeira vez que o visitei, ele estava no leito da UTI. Confesso que fiquei com medo de visitá-lo, mas, antes mesmo de ser chamada pelos enfermeiros, eu fui preenchida de coragem.

Logo na entrada enxerguei a ilha de camas e os pacientes deitados sobre lençóis brancos, com a vida ligada por fios e canos. E também por corações. Por mãos que seguravam firmes as suas e diziam em silêncio: não te abandonarei. Todos ali estavam travando batalha contra a morte. Os sons dos batimentos cardíacos em volume alto pareciam transpassar para o meu corpo. Meu coração batia no ritmo daquela ilha. Por segundos, observei aquela ala tão cheia de vida e resistência. Por segundos, me senti agradecida por sentir a vida mais de perto.

Eu não havia encontrado meu tio e pedi ajuda para uma enfermeira – e ele estava bem atrás de mim. Os ossos estavam finos. O corpo com cor pálida. E a respiração descompassada. Eu quis chorar. Chorei. Mas precisava me retomar. Fiquei por segundos olhando seus movimentos ofegantes. E minhas mãos se encostavam uma na outra em um ritmo veloz. Até que achei uma função para elas. Me aproximei da cama e mesmo assustada com toda aquela cena, pensei: preciso ser forte. Ele precisa da família. E de forma vagarosa, minha mão encontrou a dele. Seus dedos estavam inchados, quase chegando na cor preta. Enquanto segurava suas mãos, eu olhava ao redor, tentando me nutrir com a força de cada um. E num respiro fundo, comecei minha oração. De alguma forma profunda, eu senti aquela energia sendo transplantada para ele. Passou pelos fios, canos e chegou ao coração.

Depois de mais alguns dias naquele leito, ele foi transferido para o quarto. Foi quando quis vê-lo novamente. Enquanto isso, a minha família se unia. Nenhum dia meu tio ficou sozinho. Uns ficavam dias por lá. Se revezavam. Não dormiam direito. Mas sempre entendiam que aquela força maior, aquele amor doado sem nada em troca, era o oxigênio que meu tio precisava.

Naquele momento, ele ainda estava se alimentando por sonda e por conta do aparelho na garganta, ele não falava mais. Ao mesmo tempo, todos os movimentos do corpo estavam parando.

Nessa hora, todos da minha família continuaram firmes, nutrindo uma esperança diária. Cada dia alguém dormia na poltrona ao lado da sua cama. E ficava ali de prontidão para amenizar aquela passagem difícil. Uma batalha dolorosa, mas repleta de aprendizados. E que foi o laço que faltava para unir partes importantes da família. Ali todos se nivelaram a um mesmo propósito: ser instrumento de luz para devolver uma vida.

A voz lhe faltava, mas o olhar cumpria o papel vital da comunicação. Para cada palavra de conforto, uma forma penetrante de devolver o carinho – mesmo sem saber muito bem o que estava acontecendo. Dessa última vez, antes da enfermeira chegar para trocar o lençol da cama, eu peguei em uma de suas mãos, que insinuava mexer. Ali, mesmo sem saber o que exatamente falar, senti uma quentura vindo de dentro e que me fez expor frases sem a devida coerência. Mas, que se juntadas, transmitiam a intensidade daquele momento: “Vai ficar tudo bem. Nossa família está unida e rezando por você. Eu não tenho dúvidas, de que vai ficar tudo bem. Estamos com você.”

Ele me olhou profundamente e respondeu descendo suas pálpebras lentamente. E mesmo sem voz, colocou som no silêncio dos seus timbres, enquanto formava a palavra obrigado em sua boca. Aquele olhar tocou a alma e eu sinto aquela sensação até hoje. Era um pedido de vida entrando pelos poros, pelas minhas veias. E tudo que eu fazia em silêncio era agradecer. Agradecer por ele ter ensinado a maior lição da minha vida. Agradecer por todo amor envolvido da minha família, que mesmo cansada com a mudança de rotina, fez o amor transpassar por todos aqueles fios e canos.

O amor é também oxigênio e fez meu tio voltar para casa.

E a lição valiosa que fica é que de nada adianta sermos grandiosos nas nossas tarefas diárias, se as nossas ações e o nosso olhar para o outro ainda continuam beirando miséria. Se ainda nossas atitudes são requentadas ao sabor de uma situação. De uma pessoa. E não em todo momento. Nada adianta. Porque dar amor não é algo pontual e não pode ser oferecido em temperatura média. Precisa ser intenso. Acolhedor. Profundo. A ponto de ser transferido com sucesso para o coração do outro – mesmo não sendo doador compatível. A gente também precisa ser Unidade Intensiva na vida de quem nos cerca. Sem distinção.


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