Como trabalhar nossa inteligência familiar em tempos de pandemia

  • TEXTO Cristina Zamberlam Giongo
  • DATA: 15/07/2020

O resultado da equação da nossa inteligência familiar é o que nós atribuímos para determinados fatos. À medida que achamos uma nova significação, mudamos o sentido

 

No esforço de darmos sentido a vida, nos deparamos com a tarefa de organizar a experiência dos acontecimentos em sequências temporais, a fim de obtermos um relato coerente de nós mesmos e do mundo que nos rodeia.

Percebemos que as experiências específicas de sucesso do passado e do presente, e aquelas que ocorrerem no futuro devem estar conectadas entre si em uma sequência linear para que possamos desenrolar a narração. Nesse momento entra em cena nossa inteligência familiar.

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Não é à toa que na construção da nossa história familiar temos estabelecido uma equação, que faz luz a tal inteligência. A equação tem como base a maneira como, enquanto casal e família, lidamos com as angústias, com o que nos falta e com o que cada um de nós coloca de seu na relação familiar. Nessa configuração, o universo familiar, às vezes, há que se multiplicar. Outras, há que se dividir, ou somar e subtrair.

Flexibilização

O equacionamento encontra suporte na gestão da nossa afetividade, da nossa pessoalidade, da nossa sexualidade, dos nossos limites, do nosso pertencimento, do nosso sistema grupal e da nossa identidade individual e coletiva. Desenvolvemos nossa inteligência familiar quando trabalhamos as nossas ambivalências: a capacidade de nos impormos e de dialogarmos, de competirmos e de partilharmos, de sermos indiferentes e de escutarmos. A prova disso é a existência de medos que nos distanciam enquanto casal e que podem ser comuns ou pessoais.

Tanto assim que uma das nossas ilusões da relação de casal é que esta relação ofereça uma forma de manejar a nossa solidão existencial. Por isso o amor.

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O amor é como o ciclo das estações: aquece, floresce, esfria, declina, reaquece e, uma vez que cultivado, vive suas mutações em infinitas aprendizagens. Com isso possibilitamos um delicado equilíbrio para gerarmos autonomia e intimidade.

Quando algumas experiências deixam a sensação de inacabado ou de alguma coisa no ar, ainda que não se saiba de fato se foi possível a compreensão, estamos diante da equação da nossa inteligência familiar. Quando as sensações ocorrem, deixam um estranhamento e certa angústia. Por isso, a necessidade de falarmos sobre a primeira mágoa, a primeira dificuldade ou outro assunto pertinente com o momento.

Emoções

O equacionamento está quando refletimos acerca das dificuldades e das desvantagens que elas trazem, assim como acerca das vantagens que nós temos com as dificuldades e o que temos a aprender para fazermos mudança. Nos permite, além disso, a explicitação das polaridades ou de aspectos implícitos e não conscientes de alguma situação, relação ou sentimento.

Compreende também adquirirmos consciência sobre elementos conflitantes e percebermos formas alternativas para expressar as nossas emoções. Antes de tudo, ao levar em consideração perguntas e respondê-las, nós obtemos redescrições extraordinárias e novas de nós mesmos e de nossas relações. Por exemplo: ao nos negarmos a colaborar com a solução do problema, nós estamos fazendo aumentá-lo ou diminuí-lo?

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Ao ampliarmos e ao flexibilizarmos a nossa percepção, aprendemos outros jeitos de fazer a mesma coisa, o que traz à tona questões relacionadas com o colocar e o invadir limites. E é isso que possibilita a visualização de um padrão de funcionamento.

Como a comunicação é um dos padrões aprendidos na família de origem, os aspectos funcionais e disfuncionais são profundamente introjetados e se repetem nas outras relações. Por isso é importante enxergarmos o que estamos mantendo, mesmo que aparentemente tenhamos feito mudanças. Isto nos oferece a possibilidade de experimentarmos uma nova sensação de gestão pessoal. Aumenta, ainda, a nossa percepção sobre nossos vínculos e as possibilidades de aprendizado e de trabalho terapêutico.

Resultado da equação

Ao tomarmos consciência do que é possível retomar, desenvolvemos a capacidade de raciocínio diante do novo. Assim treinamos situações futuras e auxiliamo-nos na compreensão do padrão de funcionamento do nosso grupo familiar.

É exatamente por isso que a nossa inteligência familiar está contida na forma concreta como manejamos nossas carências e expectativas. E isto acontece toda vez que verificamos como o nosso respectivo sistema familiar lida com a criatividade e o inusitado e como criamos as próprias regras. Só assim abrimos a possibilidade de avaliarmos a relação e definirmos as áreas a serem retomadas.

O resultado da equação da nossa inteligência familiar é o que nós atribuímos para determinados fatos. À medida que achamos uma nova significação, mudamos o sentido: o que significa isso para nós? O que nós descobrimos sobre nós?

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Assim, nos desafiamos a posicionar e perceber, inclusive, como reagimos em situação de disputa e competição, com ganhos e perdas, como identificamos ambivalências, concordâncias e rigidez presentes no nosso relacionamento familiar, como treinamos comportamentos de doação e troca de afetos, como enxergamos a nós mesmos pelos olhos dos outros.

Enfim, nesses tempos de pandemia, a capacidade de flexibilizarmos nossas atitudes e pensamentos pode ser a chave para uma nova convivência familiar, mais harmônica e positiva.


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