Como o renascimento da Fênix

  • TEXTO Lara Briani
  • FOTOGRAFIA David Clode | Unsplash
  • DATA: 01/11/2019

Para curar-se é preciso deixar morrer o que não mais serve na nossa nova vida e o o que já não faz bem para a alma e renascer melhor


Para curar-se é necessário morrer. Todo mundo já escutou alguma vez na vida o mito do renascimento da fênix. O pássaro que, após a sua morte, entra no processo solitário de combustão para depois renascer de suas próprias cinzas.

E ninguém nega que esta morte é dolorosa e dolorida. Esmaga o peito, espreme as emoções até sair a última gota pelos olhos. A cabeça pesa, o viver fica cada vez mais devagar, quase que para. E a sensação é essa mesmo. É a angústia de achar que a vida vai se congelar assim, neste ponto e que não há mais como se mover a partir daqui. Dói, mói cada parte visceral em pequenos pedaços.

Mas o que se esquece é que esses pequenos pedaços nada mais são do que a desconstrução do que se tinha como verdade. E o medo de olhar para toda essa bagunça em carne viva é o medo de saber que é necessário renascer e encaixar, de uma nova maneira, cada peça que se quebrou nesse processo.

Mesmo sabendo que o que se havia antes não preenchia de vida a vida, paralisamos frente à dor da necessidade de mais um recomeço. A sensibilidade vem à flor da pele e a insegurança toma conta de cada agir.

O desespero e a falta de esperança andam logo atrás do medo. E, portanto, a força e cura internas nascem da compreensão desta dor. É difícil reconhecer que deve-se desapegar de uma verdade que havia sido construída, de um sonho colocado no mais elevado altar dentro da vida. A sensação é de que foram recuadas duas casas no jogo da vida.

Porém, quando a fuga de tentar somente olhar para este sonho ideal termina, inicia-se o enfrentamento de si mesmo e da realidade presente. A vida vem, sem sutilezas e joga um balde de água fria insistindo para que se desperte deste sonho. E a verdade é que é preciso abrir mão do que já não nos alimenta de vida para conseguir dar um passo adiante. Fechar portas e deixar morrer para que o novo tenha espaço para desabrochar.

O que morre transforma-se em adubo e potência para este renascer interno. No entanto, não é sobre jogar na lata de lixo e nunca mais olhar para trás. Mas, sim, sobre saber que cada experiência tem seu devido lugar. E que apenas podemos agradecer ao que aconteceu.

Somente agradecer e deixar onde deveria ficar. Se carregamos nas costas tudo o que foi vivido, o tempo todo, ficamos cansados e sem forças para viver o presente. Pois sentimos um peso enorme nos ombros que nada nos traz além de exaustão e a sensação de que não há mais espaço para nada. Há um bloqueio da vida para o agora.

Então, para curar-se é necessário deixar morrer o que já não faz bem para a alma. É doloroso confrontar os bloqueios que nos impedem de ver a verdade de quem realmente somos e do que realmente queremos para nos preencher de vida.

O medo de não ser mais acompanhado pelo peso sobre os ombros que, de certa forma, formavam uma proteção, uma espécie de armadura, uma vez ou outra, nos faz acreditar que aquilo já faz parte de nós e que as coisas são assim e pronto. Que a vida é pesada e pronto. Que se nasceu para sofrer e pronto.

Mas, quando decidimos olhar para esta enorme bagagem e conseguimos deixar cada coisa em seu devido lugar e seguir adiante, os ombros ficam mais leves. Deixamos de andar curvados e olhando para o chão e podemos erguer a cabeça para vislumbrar novos horizontes, ter força para correr com mais vitalidade em direção aos nossos sonhos de agora.

Portanto, a morte de momentos vividos, de pensamentos, ações e sentimentos é a cura para um novo começo. E isso traz uma nova percepção do que mais tememos na vida – a morte em si.

Ao entendermos que a morte (e aqui pense nela no sentido que quiser) também é um remédio para curar a alma de algo que está doente. Com ela o medo se dissipa. Desse modo, a grande falácia na vida é desejarmos a eternidade e a permanência de tudo o que somos e nos cerca.

Em suma, a vida é mudança. A vida é impermanência. A vida é transformação. É ação. Para que continuemos crescendo, aprendendo e construindo é preciso matar o que já não faz sentido. Abrir espaço e oportunidade para o desconhecido.


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