Cidades bunkerizadas

  • TEXTO Juliana Carvalho
  • DATA: 30/07/2020

Torço pelo dia em que iremos olhar além dos muros, então, nos abriremos para a luz do sol e para a brisa

 

Sempre que posso caminho uns três quilômetros até uma praça aqui das minhas redondezas a fim de ver um pouco mais de vida. Um gramado com árvores espaçadas e um miolo de mata fechada, algo que parece ser um remanescente de uma área de preservação permanente, repleto de vegetação alta e verde escuro. Nas primeiras horas da manhã, sempre está vazia. Nos dias de mais movimento, há uma ou outra pessoa passeando com o cão.

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Em um desses passeios matinais, encontrei com um dos moradores de frente à praça. Ele sai cedinho, leva o cão para fazer cocô na mata e, posteriormente, cobre com folhas. E ele reclamou: “A prefeitura tinha que dar jeito nisso aqui. Isso é um reduto de bandidos que se aglomeram para usar drogas”.

Por que viver em bunkers?

Olhei ao redor com tristeza. Não tinha ninguém além de nós dois e dos nossos cães. No cesto de lixo quebrado, algumas garrafas vazias. Talvez alguém tenha estado ali a noite. Talvez… Não havia nada que identificasse que algo muito ruim acontecera ali. Pelo contrário, a luz do sol entrava pela copa das árvores, iluminava o gramado com tons de dourado e criando cenas da mais pura beleza. Mas, do que será que esse senhor tem tanto medo?

Nem os adolescentes do colégio a uma quadra dali aproveitam a praça. Seria reconfortante ver a molecada estirada na grama batendo papo, jogando baralho, escrevendo cartas, namorando. Seria alegre ver pais e mães brincando com suas crianças, colorindo o verde. Ah, e como seria divertido ver jovens, ou nem tão jovens, jogando bola.

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Mas não. Escolhemos viver em bunkers. E por que será? Mesmo com tanta ciência dizendo o bem que as áreas verdes fazem para nossa saúde física e mental, preferimos viver trancafiados: de casa, para o carro, para o escritório, para a escola. Passemos o dia no shopping ou em qualquer outro lugar sem sol ou sem vento, onde não há dia ou noite. Substituímos o frescor das árvores e da água pelo ar-condicionado. Preferimos comprimidos aos benefícios do sol.

Em sua prosa poética, Khalil Gibran, muito antes dos cientistas mostrarem que quem vive perto de áreas verdes está menos suscetível a hipertensão e diabetes, por exemplo, disse: “Quem dera eu pudesse pegar suas casas nas mãos e, como um agricultor, espalhar cada uma pela floresta ou pelo prado”.

Além dos muros

Infelizmente, o poeta e filósofo libanês não é nada otimista: “Por medo, seus antepassados os fizeram viver muito próximos. E esse medo reinará por algum tempo. E nesse tempo os muros da cidade continuarão separando as lavras e os lares”. Tendo em vista a forma como seguimos planejando nossas cidades, com mais muros e concreto, a obra faz jus ao nome de “O Profeta”.

Mesmo sabendo que cidades em que há mais verde, mais beleza e mais circulação de pessoas, há mais segurança, insistimos em nos fechar. Mesmo sabendo que em cidades em que as pessoas caminham mais, há mais prosperidade, preferimos viver em bunkers.

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Eu já trabalhei em um lugar sem janelas e posso dizer que o rendimento da equipe era bem abaixo do esperado, possivelmente causados pela tristeza e pela falta do horizonte. Em que momento nos separamos tanto da natureza?

Torço pelo dia em que iremos olhar além dos muros, nos abrindo para a luz do sol e para a brisa. E creio que bem lá no fundo, apesar de todo o medo, esse senhor que vociferou contra o verde da pracinha sabe bem o privilégio que tem: enquanto alguns abrem a janela nas primeiras horas da manhã e veem apenas concreto, do bunker dele a vista é linda!


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