Câncer, pandemia e isolamento

Como a mudança e as novas escolhas me salvaram nestes tempos sombrios

Março de 2019, suspeita de alguma doença infecciosa. 4 meses de investigação. 26 de julho do mesmo ano, diagnóstico de câncer no pulmão. Setembro, dia 09, cirurgia para retirada do tumor e do lóbulo superior do pulmão esquerdo. No mesmo dia choque anafilático ao final da cirurgia. Além do tempo da cirurgia, mais 5hr no centro cirúrgico para salvar minha vida.

Na UTI, 1hr agonizando pedindo socorro sem atendimento, quando acordei antes do tempo previsto da sedação, amarrada ao leito e sem poder falar por estar intubada. 4 meses de recuperação em casa, bronquite crônica. Fevereiro, volta ao trabalho e retorno as atividades físicas. 13 de março, comemoração do meu aniversário em família. Vida normal. Só que não.

Domingo, 15 de março converso com meu médico pedindo aconselhamento sobre se deveria ir ao trabalho, frente aos primeiros casos de COVID. Resposta negativa, agora só tinha 1 pulmão e tinha que cuidar bem deste. Pandemia e isolamento logo após quase 1 ano em condições anormais, me vejo agora intimada a viver este novo normal.

Outro lado da (mesma) estória. Tempo livre, almoço em casa, cochilo depois do almoço, assistir séries, comparecer a consultas sem cancelamento por falta de tempo, conversar com os amigos ao telefone, compartilhar o dia inteiro com minha cachorrinha e o mais importante escrever.

Fruto de uma conexão profunda, não sentida nos últimos 25 anos de batalha diária para criar filhos, trabalhar, fazer Mestrado e Doutorado, casar e descasar e casar novamente. Podia desfrutar de mim mesma, viver num ritmo estabelecido pelas minhas necessidades, ter momentos solitários sem sentir solidão, paz e bem estar. Alegria e beleza sentida pela alma consciente que se expressava neste tempo “sombrio” que me trouxe tanta luz.

Adoecimento e cura, tempo para construção de uma nova vida. Experiências vividas no mesmo tempo que trouxeram sentimentos tão diversos e muitos aprendizados. Constatei que nada é absoluto, a vida não é absoluta em nada. Nem completamente ruim, nem totalmente bela. Doente e feliz, com câncer e em crescimento. A revelação da consciência de que não poderia ser feliz com a vida no formato antes da doença. Oportunidade de cura do câncer e de outros males silenciosos, tão mortais quanto -tristeza, cansaço, stress, ansiedade.

Medo. Sabia que precisava mudar, mas não sabia o que, nem quando e pior ainda, como, talvez a resposta mais difícil. Tudo (quase) certo com filhos, trabalho, marido e outras coisitas mais. De onde viriam as respostas para questões tão complexas? Como não sabia o que queria, comecei estabelecendo o que NÃO queria.

Foi simples, estava evidente que acordar e sair correndo em 40 minutos, tomar café em pé, voltar toda arrumada do elevador para limpar o cocô do cachorro e o vômito do gato, consultar o aplicativo para saber qual o caminho mais seguro, sem tiroteios para chegar ao trabalho, ligar para casa para passar instruções para sua secretária que chega ao trabalho às 11h e você não tem como encontra-la pessoalmente e ouvir uma ladainha de uma pessoa descontrolada, muitas vezes chorando porque a vida está complicada, acompanhar o marido na aula de dança (sim ele é professor de dança de salão) após um dia pesado e pensar aliviada, ufa chegou meu momento de descarregar, mas ao invés de diversão, encontrar mulheres excitadas dando descaradamente em cima do seu companheiro, tentar dar suporte aos filhos que sempre tem uma crise em curso, mesmo que por celular, e chegar em casa pensando que terá algumas horas, meia hora livre, só para você, mas se sentir culpada porque não conseguiu dar atenção aos pais, decidir o que comer ou se vai ficar mais dura e gorda e pedir uma pizza.

Definitivamente essa não seria mais a minha vida.

Mudar e preservar o essencial, um equilíbrio necessário. Não deixaria o trabalho pelo qual sou apaixonada numa instituição incrível. Mas entreguei o cargo de chefia e propus um novo modelo para minha inserção. Me envolvi em projetos inovadores, que exigem dedicação e responsabilidade, mas muito mais protegida dos desgastes que as relações de trabalho muitas vezes acarretam. Essa base me permitiu tomar a decisão de mudar de cidade. Saí do Rio de Janeiro, onde dormia e acordava com o barulho da vizinhança, vivia assustada com a violência, cansada do trânsito e hoje estou em Nogueira, num apartamento “abraçado” por uma árvore, primeira coisa que vejo ao acordar com o som da sinfonia diária dos pássaros.

Não deixaria meus filhos e minha família para trás, mas resgatei um tempo e um espaço no qual consigo me priorizar. Tenho meus momentos sozinha de que tanto precisava, no qual faço minhas leituras, ouço músicas, rezo, e crio espaço para meu processo criativo. Um distanciamento sem afastamento, afinal estou muito perto do Rio e continuamos a compartilhar momentos maravilhosos, talvez até melhores, pois mais seletivos.

O novo e desconhecido também é carregado de incertezas. Tinha receio de que meus colegas de trabalho tivessem algum preconceito por eu estar trabalhando à distância, mas a pandemia colocou todos na mesma condição. Neste ano tão caótico coordenei um projeto inovador, com toda a equipe trabalhando remotamente e que teve um resultado acima das expectativas. As primeiras duas horas do meu dia, me ocupo da casa, abraço e beijo infinitamente minha cachorra, passeio com ela ao mesmo tempo em que faço exercício, tomo café sentada e trabalho cheia de energia e criatividade, muitas vezes com liberdade de gerenciar os horários da melhor forma para mim.

Para construir esta nova vida, foi preciso descontruir a que tinha. Desapegar de onde vivi, do cargo que tinha e ir em busca do que realmente me fazia bem e me nutria. Acreditar que era possível criar uma nova forma de me relacionar com o mundo e com as pessoas. Confiar na minha intuição e estar disponível para a mudança. E como Gilberto Gil nos ensinou “Andar com fé eu vou, que a fé não costuma “faiá”!


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