Aprender a respirar em meio ao caos

  • TEXTO Márcia Silveira
  • DATA: 16/03/2020

Viva um dia de cada vez e tente sempre ter em mente que tudo passa. As nuvens escuras vão embora e o sol reaparece. Respire e siga

 

Há quase vinte anos eu luto contra o transtorno bipolar e a ansiedade. Se hoje estou aqui, viva, é porque tenho vencido batalhas, mesmo com dificuldades. Porque, muitas vezes, a sensação é de que não vou conseguir e a vontade é de me entregar. Mas eu acabo tirando forças, sabe-se lá de onde, para seguir vivendo.

Em todos esses anos, tomei inúmeros medicamentos e consultei diversos profissionais, bons e ruins. Já tive uma psicóloga que gostava mais de me contar sobre a vida dela do que de saber da minha. Já me consultei com um psiquiatra que me ouviu por três minutos e rapidamente me diagnosticou e receitou diversos remédios. Foram anos iniciando e interrompendo tratamentos. Eu melhorava e abandonava os medicamentos, o que me fazia voltar para o inferno. Depois de tantos altos e baixos, finalmente entendi que teria de tomar remédios e fazer terapia pelo resto da vida.

ASSINE A VIDA SIMPLES

Há mais ou menos dois anos recomecei o tratamento com um novo psiquiatra, com quem me trato até hoje. E há um ano encontrei um psicólogo cuja abordagem é a “gestalt terapia”, que tem me ajudado a ver que sempre há uma percepção diferente daquela que me deixa depressiva ou ansiosa. Minha tendência é sempre ver o pior lado de tudo. Ele me mostra que existem outras formas de ver as coisas.

No fim do ano passado, comecei a praticar meditação e, com o passar dos meses, comecei a perceber os benefícios dessa prática na minha vida. Parece bobo, mas aprender a respirar em meio ao caos faz toda a diferença. Tenho aprendido a me fixar no presente quando os arrependimentos pelo passado e a desesperança com o futuro parecem me sufocar.

Vai passar

Só recentemente (dois anos depois de reiniciar o tratamento e um ano depois de recomeçar a terapia) consegui voltar a praticar exercícios, coisa que tentei fazer várias vezes antes, sem sucesso. O exercício físico é mais uma coisa que ajuda a minha mente a se manter sã. Tem dias em que é muito difícil sair da cama e ir à academia, confesso. Mas quando vou, nunca me arrependo. Ainda não consegui estabelecer uma rotina de exercícios que eu consiga cumprir com rigor, mas espero um dia conseguir. Por enquanto, tenho tentado ir pelo menos três vezes na semana e fazer exercícios durante quarenta minutos. Isso ajuda a acalmar minha mente.

Tudo isso dá trabalho? Sim, muito. Principalmente quando você mal tem energia para sair da cama e fazer as coisas mais simples. É um esforço diário. E uma escolha também. Todo dia eu tenho de escolher não deixar que a depressão me derrote. Todo dia eu tenho de escolher levantar da cama e fazer o possível para passar o dia bem, sem crises. Um dia de cada vez. E cada dia que consigo é uma vitória. Às vezes não consigo e esses dias são horríveis. Mas se tem uma coisa que eu aprendi em anos e anos tendo crises depressivas e ansiosas, é que elas passam, por mais dolorosas que sejam.

ASSINE A VIDA SIMPLES

Eu disse lá no início que não sei de onde tiro forças para continuar vivendo. Mas, pensando bem, eu sei sim. Basta ver o sorriso dos meus filhos para eu lembrar por que ainda estou aqui.

Para você que passa pelo mesmo que eu, o que eu posso dizer é: continue. A persistência e a constância, principalmente, são grandes aliadas. Faça o que for possível, procure tratamentos e atividades com as quais você se identifica e persista, dando tempo ao tempo. Preciso dizer: não é fácil, nunca vai ser. Mas viva um dia de cada vez e tente sempre ter em mente que tudo passa. As nuvens escuras vão embora e o sol reaparece. Respire e siga.

EDIÇÃO DO MÊS

Edição 221, julho de 2020 ASSINAR
COMPRAR A EDIÇÃO

NESTA EDIÇÃO

Ao olhar para nossas emoções, compreendemos que a estabilidade é um empenho permanente. O caminho para harmonia surge quando estamos bem com nós mesmos.



TAMBÉM QUERO COMENTAR

 

Campos obrigatórios*