A arte do equilíbrio

O dia em que o Senhor Miyagi ajudou o meu filho a andar de bicicleta

 

Estou ensinando o Miguel a se equilibrar em uma bicicleta sem rodinhas. Tem sido um desafio. Para nós dois. Uma Strong azul entrou na vida dele há quatro anos e não foi convidada. Por isso, a resistência.

Ele nunca havia pedido esse presente. Ao contrário. Patins, patinete, skate. Nada disso nunca o seduziu. Sempre ficou feliz indo ao cinema, brincando de Lego e pesquisando músicas no YouTube.

Como eu, o Miguel gosta de morar em si mesmo. De apreciar o mundo, começando pelo lado de dentro. Sabe definir (e nomear) o que sente. Sabe expressar o que o deixa bravo ou triste. Sabe entender que não é igual a ninguém, nem aos outros garotos da mesma idade. Sabe construir os brinquedos que não têm. Sabe muito sobre o mundo, de tanto pesquisar.

Olho para ele e vejo o quanto é maduro, inteligente e concentrado, mas também vejo um menino se tornando pré-adolescente com medos demais e experiências de menos. 

Ele nunca teve uma bolha no pé. Nunca foi à escola sozinho. Nunca andou de ônibus, a não ser para ir aos passeios da escola. E, quando foi, teve medo. Voltou para casa pensando mais no garoto que queria tomar a sua mochila do que na experiência de andar a cavalo e dormir fora de casa.

Cuidar*+

Parte da responsabilidade por isso é minha. O mundo nos empurra, cada vez mais, para dentro de casa. Nos apresenta vários perigos e nos faz proteger os nossos filhos do que acreditamos ser muito arriscado. Mesmo sabendo que é o correto, não é fácil soltar as rédeas e deixar que eles se machuquem e aprendam com isso.

Desde que me tornei mãe, muito do que tenho feito é buscar o equilíbrio que hoje tento ensinar. Procuro dosar sensibilidade e firmeza. Liberdade e limites. Presença e autonomia. Abraço e bronca. Verdade e poesia. Supervisão e espaço. Assim como digo para ele, tento não estar o tempo todo nem em um lado, nem no outro. Procuro alternar e, com sorte, estar no meio.

No caso da bicicleta, tentei de tudo. Contei o quanto eu amava a minha. Falei sobre como era gostoso me sentir livre quando eu pedalava. Acordei, várias vezes, bem cedinho, para andar na rua com ele, enquanto todo mundo dormia. Não adiantou. A pobre coitada ficou encostada por vários anos, até que, um dia, o pai disse que iria vender porque não fazia sentido guardar um brinquedo que ninguém usava. 

Pensei que sim, ele estava certo, mas também que seria mais uma oportunidade roubada pela falta de tempo e pelo cansaço. Sim, porque fazer o que é certo dá trabalho e, por isso, muitos pais preferem os atalhos.

Então, ao ouvir o que meu marido disse, respondi: “Tudo bem, a gente pode vender. Mas só depois que ele aprender a andar”. 

Miguel não gostou muito, aliás, não gostou nada, mas começamos as aulas mesmo assim.

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As aulas

Na primeira delas, a lição foi sobre equilíbrio. Comecei empurrando a bicicleta enquanto ele pedalava e percebi que o peso era todo meu. Ele seguia reclamando e sem vontade nenhuma de “encontrar o prumo”. Queria mesmo era que desse errado para voltar para casa mais rápido.

Lembrei da cena de “Karatê Kid”, quando o Senhor Myiagi explicou para Daniel San que às vezes as coisas estão fora do lugar e que a gente precisa encontrar o centro. Fiz uma pausa e, enquanto ele foi lavar o rosto, fazendo o chão tremer com pisadas furiosas, coloquei a bicicleta alinhada à uma das faixas pintadas no piso da quadra e esperei. 

Quando ele voltou, perguntei se lembrava da cena em que Daniel San, agora mais maduro na série Cobra Ka”, ensinava um de seus alunos a fazer os movimentos em cima do tronco de uma árvore. Ele fez que sim com a cabeça, menos bravo. Então eu disse: “Hoje você vai encontrar o seu equilíbrio”. Ele perguntou como. Eu disse: “Você vai andar sozinho”. Expliquei como alinhar o pedal, mostrei o que fazer se a bicicleta inclinasse e reforcei que o máximo que iria acontecer seria ela virar e os dois caírem. 

Depois de vários minutos indo e voltando, ele conseguiu colocar os dois pés nos pedais, sem cair. Olhou para mim, com uma cara de espanto e perguntou: “Você viu?”. Disse que sim.

Na volta para casa, enquanto empurrava a bicicleta, ele me agradeceu e perguntei: “Está me agradecendo por que?”. Ele disse: “Por você não ter desistido de me ensinar”.

Ainda falta muito para que ele e a bicicleta se tornarem amigos. Nós dois sabemos disso. Mas, hoje, aprendemos várias lições importantes. Uma delas é: quando a gente pedala sozinho é mais difícil, mas em compensação, ninguém nos segura depois.


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