Recortes de uma semana no mar

  • TEXTO LUCAS TAUIL DE FREITAS
  • FOTOGRAFIA adam jang | Unsplash
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Os primeiros raios de sol passam pela gaiuta do veleiro e alertam minha visão. A noite de pouco sono, com turnos a cada três horas, não vence o hábito. Deixo a cabine, e o barco deriva na menor velocidade possível. As velas abertas e aquarteladas pelo leme travado freiam a embarcação que, por conta disso, desliza de lado.

À frente está Fulaga, pequeno paraíso no Pacífico Sul. Ilha no arquipélago de Lau, nas Ilhas Fiji. Navegamos mais rápido do que o planejado nos últimos dois dias, apesar do contravento, e chegamos por lá às 4 da manhã. Boa desculpa para a soneca.

Rodeada por uma barreira de corais, Fulaga tem um único passe estreito que leva até uma lagoa azul, quase de mentirinha. O caminho é minado de cabeças de coral. Para entrar esperamos pelo sol alto e o estofo da maré, quando não há corrente e podemos enxergar o caminho. Não há cartas náuticas da região, aqui são os olhos que guiam. As pernas tremem um pouco na entrada, mas o medo faz parte da rotina e vivo com ele.

Ancorados, seguimos para a vila. Ali participamos de um ritual no qual pedimos a proteção do chefe do lugar e a permissão de pescar e usufruir desse pedaço de céu salgado. Oferecemos um pacote de cava, uma raiz ritual que, depois de moída, é misturada com água e bebida com muita alegria pelo povo daqui. Os primeiros goles amortecem a boca e, quando se bebe bastante, o corpo fica anestesiado. Os sonhos, à noite, são coloridos.

Um discurso, muitas palmas e nosso ritual de vassalagem é aceito. Somos parte da comunidade agora. Voltaremos em dois dias para a missa de domingo e um almoço com a família que nos faz as honras. Agora é hora de um merecido descanso.

De volta à vila, no domingo, envergo uma longa saia ritual e me divirto com o sincretismo da vestimenta e a língua tradicional na missa protestante. Depois da oração e da cantoria vem um banquete: polvo, peixe grelhado, mandioca, batata doce, abóbora, espinafre e, para fechar com chave de ouro, um bolo de brigadeiro delicioso, que Clara, minha menina de 12 anos, assou no veleiro. Os adultos falam inglês e as crianças riem em uma língua universal. Trocamos presentes, sorrisos e abraços longos.

Amanhã começa a escola a bordo. O desafio de estar só, embarcado com as duas meninas, já não parece tão grande. Sandra está no Brasil a cuidar do pai que se recupera de uma cirurgia delicada. A rotina é intensa, mas não reclamo, escolhi cada gota de suor que escorre pelo meu rosto. Uma a uma, elas fazem o mar maior.

LUCAS TAUIL DE FREITAS é casado com Sandra Chemin e pai de Júlia e Clara.  A família vive no veleiro Santa Paz.


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