Para olhar tudo com mais reparo

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Que nem tantos meninos, uma das coisas que eu mais queria na vida era ficar invisível quando tivesse vontade.

Aos 8 anos, juro que consegui fazer isso algumas boas vezes. Mas nos dias de hoje, em uma época em que tanta gente acha que ser visto se tornou mais importante do que ver, será que alguém ainda deseja ter esse incrível poder? Bem, na realidade, mesmo já crescido, eu ainda acho que posso, sempre que quiser, ficar invisível.

Movido por essa convicção íntima, desligo televisores em restaurantes, em salas de espera, em tudo quanto é lugar. Quando sinto que ninguém está realmente assistindo a nada, se me dá na ideia, fico invisível, e aperto o botão de desligar.

Raramente alguém reclama do meu feito. Já houve quem me enxergasse só para agradecer pelo gesto. Mas, na maioria das vezes, por falta de reparo e excesso de ruídos ao redor, as pessoas nem veem o que eu faço.

Outro dia também não vi o que eu mesmo fazia. Naquela manhã ensolarada, meu computador apagou e não funcionava de jeito nenhum, meu celular ficou totalmente sem bateria, não sabia onde tinha guardado o tal carregador, e me lembrei que havia decidido, tempos antes, não ter mais telefone fixo em casa. Então, saí pela rua desatinado, andando mais que apressado para uma reunião. Também precisava responder a uns e-mails acumulados, telefonar para um tanto de pessoas mais importantes do que urgentes, terminar de preparar uma palestra e arrumar minha mala para pegar a estrada no dia seguinte.

Depois de quase ser atropelado por um ônibus ao atravessar a rua, ainda com taquicardia pelo susto, resolvi parar só para ver um casal que se olhava sem pressa. Ah, e aquela demora de gente que se repara com fundura me interrompeu o dia… Gosto mais do que um bocado quando interrompem o meu dia dessa forma.

Após aquela parada, recomecei a andar mais devagar, redescobrindo o prazer de olhar com olho de assombro e sobressalto, para reparar beleza que não mora em cartão-postal; para me perturbar pelo que é aparentemente banal, ou mesmo rotineiro.

Naquele instante, sem computador, sem celular, sem nenhuma máquina por perto, percebi que estava respirando sem a ajuda de aparelhos.

Poesia no dia a dia

Da mesma maneira, percebi que a palavra é ainda mais poderosa do que eu imaginava, quando, por conta de um convite do programa Sesi Cidadania, do Rio de Janeiro, assumi o projeto Seu Conto é Nossa História.

Com o apoio de uma equipe profundamente sensível, fiz uma série de oficinas de escrita criativa para mais de 200 meninos e meninas, em 11 comunidades com upps (Unidades de Polícia Pacificadora), no Rio de Janeiro, incluindo Cidade de Deus, Borel, Alemão, Tabajaras, Santa Marta, Formiga, Andaraí, Macacos, Morro Azul, Providência e São Carlos. O plano do Sesi era que, a partir desses encontros criativos e literários, as crianças escrevessem um livro, em coautoria comigo, para mostrar o que elas sentiam, percebiam e pensavam, nos lugares onde moravam.

Ao longo dos encontros, constatei que eu carecia saber o que aquelas crianças viam e que mais ninguém reparava. E em vez de trabalhar com personagens, tramas e enredos, o meu desejo foi que elas escrevessem um livro de reparos poéticos.

Aprendi com minha pequena turma que o exercício de ver poesia nas pequenas coisas do dia a dia, sem cobranças, sem pressões, dá impressão digital em nosso pensamento. E essa impressão digital é imprescindível para a construção da identidade de uma pessoa, não importa onde ela viva nem em que condições.

Afinal, se eu posso ver tudo de uma forma autêntica, também posso pensar com autenticidade, e se sou capaz de pensar com autenticidade, sou capaz de agir do meu próprio jeito. Com isso, se quiser, consigo buscar o meu próprio caminho, sem fatalismos, mesmo que o mundo todo diga que isso é impossível.

Aprender a olhar de verdade para tudo nos ensina a pensar com muito mais independência, e a ser mais originais, mais simples, mais felizes, mais leves, apesar das nossas perdas, dos nossos vazios, das nossas dores inevitáveis. Penso que nem toda pessoa autêntica é feliz, mas toda pessoa feliz, antes de tudo, é também autêntica. E aprender a olhar de verdade, sem estereótipos, é essencial para termos uma autoestima mais forte e uma vida com mais autenticidade.

Com essa proposta, olhando para cada um dos participantes do projeto, disse a eles que nenhum dos exercícios que estávamos fazendo valia nota, que não existia reparo certo nem reparo errado, que eu não queria saber quem era mais criativo ou inteligente que o outro. Enfim, disse a todos que o meu interesse principal era descobrir qual a forma de olhar de cada um deles e o que cada um sentia quando descobria o seu próprio modo de ver as coisas, o mundo, as pessoas, e eles mesmos, claro.

Quando descobriram que eram capazes de criar a partir dos seus próprios reparos, as crianças conseguiram se enxergar sem julgamentos, sem culpas, sem cobranças de dar peso. E quando nos vemos desse modo, com leveza e profundidade, damos o primeiro passo para um salto profundo dentro de nós mesmos.

Penso que a beleza nos salva; ela nos inspira para esse salto interno; e a arte é a forma mais intensa e reveladora de acesso à beleza, à nossa essência perdida, a tudo o que pensamos e sentimos, e que tantas vezes não sabemos clarear.

Também penso que o medo de errar nos paralisa. E, ao perderem esse medo, as crianças escreveram o que só elas viam e o que mais descobriram a partir dos seus próprios reparos. Foi dessa forma que a menina Jéssica Cruz, moradora do Alemão, me ensinou: ?Quando eu olho o Pão de Açúcar pelo meu binóculo, e balanço a minha mão de um lado para o outro, fazendo o movimento de uma onda, fico em alto-mar dentro de casa?.

Achar alto-mar dentro de casa, ou se sentir em casa no alto-mar, é privilégio de quem sabe se enxergar. E, de uma vista para outra, as crianças também repararam numa cobra rezando na capela para ganhar um rato de lanche no final do dia; na margem de um riso; no fundo de uma beirada; numa menina com cabeça de planeta; num vento escondido na descida; num ralo do tamanho do escuro; numa pipa soltando um menino; num sol pendurado no varal, e em tantas outras imagens irresistíveis.

Para ver sem pressa

Outro dia, sem resistir à vontade de compartilhar o que é irresistível, fui com o meu filho, Gabriel, de 14 anos, ver a exposição A Arte da Tolerância, na praia do Leme, no Rio. A mostra, que veio da Alemanha e já passou também por 25 países, reuniu 141 esculturas de ursos, de 2 metros cada um, assinadas por artistas plásticos de diversas partes do mundo. Sem antes ter estudo de nada disso, Gabriel e eu fomos passando e parando em frente a cada urso para olhar o que cada um deles nos mostrava.

Em outro dia, também no Rio, paramos para olhar a exposição do australiano Ron Mueck, no mam. Além dos belos ursos de tantas geografias e das peças sublimes do Ron Mueck, o que mais vimos nessas duas exposições foi que a grande maioria das pessoas passa por tudo sem olhar absolutamente nada.

Na exposição do Mueck, ficamos mais de meia hora só olhando os detalhes daquela que, para nós, foi a peça mais encantadora de todas: o casal de velhos embaixo de um guarda-sol.

E depois de encontrarmos na cena dos velhos a essência das nossas inquietudes, reparamos que em volta o que mais havia era gente se atropelando para conseguir os melhores ângulos, para registrar pelas lentes de smartphones a superfície das coisas, dos momentos que passavam ali.

Sentado no chão com o meu filho, no meio daquela multidão, pensei em quais seriam os motivos de não vermos mais ninguém simplesmente olhar toda aquela boniteza disponível. Será que, em geral, estamos registrando mais do que vivendo? Contemplar é um verbo fossilizado? Até que ponto quase sempre registramos só a superfície de tudo, para depois nos mostrarmos ao mundo e publicarmos o que achamos que vimos?

Apontamos uma lente para nós mesmos, mas em geral só nos vemos a partir do que os outros vão dizer de nós; só nos vemos de forma superficial. Nada contra o que é superficial, pelo contrário. As superfícies de um rosto, de um quadro, de uma paisagem, podem ser mágicas, sedutoras, hipnóticas, apaixonantes. Pode haver superfície sem mergulho, mas não há mergulho sem superfície. A superfície é o que vem antes da profundidade. Mas será que precisamos passar a vida sendo só superficiais?

Superfícies e mergulhos à parte, ou incluídos, naturalmente há quem saiba fotografar, filmar e olhar com sensibilidade desmedida. Aliás, só sabe filmar e fotografar, de fato, quem antes disso sabe realmente olhar. Mas para isso não podemos ter a profunda certeza de que sabemos de tudo tanto assim. Caso contrário, se já sabemos tanto, não paramos para olhar nada.

Todos os dias tento parar para olhar, e olhar para parar. Devo revelar que nem sempre consigo. Pelo menos não da forma como eu mais gostaria.

Tenho viajado para falar sobre a serventia do encantamento e do olhar no dia a dia da gente, há 16 anos, em encontros com os mais diferentes públicos, por todas as regiões desse nosso país, e descubro cada vez mais o quanto careço aprender da arte de ver, de perceber, de enxergar.

Na noite em que fui com o meu filho ver a exposição dos ursos gigantes, na praia do Leme, enquanto eu olhava o urso boliviano e depois reparava no grande número de pessoas que só tiravam fotos umas das outras, sem conseguir parar de verdade para contemplar o que estava bem à sua frente, o Gabriel me perguntou:

– Por que será que ninguém se interessa em olhar os ursos por trás?

Então ele silenciosamente deu a volta por trás de um deles, para ver o que ninguém estava vendo. Atrás de cada urso havia ainda mais pinturas, mais poesia, mais beleza à nossa disposição. Mas antes de dar a volta também, para fazer essa surpreendente constatação, fiquei olhando o meu filho agachar e relar a mão nas costas de uma ursa. Acho que ela se arrepiou, aquela ursa, mas não tenho certeza.

Naquele momento, eu estava olhando demais para ter, de verdade, certeza de alguma coisa.

Márcio Vassallo é escritor e jornalista carioca e  autor de uma porção de livros cheios de reparos.


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