Manual da cidade ideal

  • DATA: 03/07/2015

Trânsito, violência, falta de espaços de lazer, transporte público de má qualidade. Os problemas das grandes cidades são inúmeros e conhecidos. A cada debate sobre o tema, porém, fica a pergunta: afinal, como melhorar? O que podemos fazer para lidar com questões tão complexas?

O arquiteto Jan Gehl pensou em respostas para essas grandes perguntas. Nascido na Dinamarca, em 1936, ele é o criador de 12 critérios de avaliação (confira a lista completa na página 48) para saber se um espaço urbano é de boa qualidade ou não. Esses itens se dividem em três categorias: conforto, proteção e desfrute. A lista foi desenvolvida ? e testada durante vários anos ? no Center for Public Space Research (Centro de Pesquisa sobre o Espaço Público), na Dinamarca.

Mas, calma. Antes de falarmos dos critérios em si, é preciso entender o que Jan Gehl pensa sobre as cidades. “A raiz desses 12 pontos é uma cidade focada no usuário”, explica o arquiteto Gustavo Ortenblad, da empresa Zoom Arquitetura. “A alma do que o Jan Gehl tenta retomar é a ideia da cidade para as pessoas como um todo”, diz. “Ele parte do olhar do cidadão para a cidade. E tenta analisar isso de uma forma que não deixa de ser técnica, mas entra no campo do comportamento humano.”

Parada proibida

Se essa ideia parece óbvia nos anos 2010, ela ainda não era uma unanimidade no meio do século passado. “Nos séculos 18 e 19, o lugar público  (ou a cidade inteira) era uma área de troca. Os cavalos andavam junto com as pessoas. Você não tinha a definição do que era cada espaço e para que servia”, afirma Ricardo Correa, arquiteto do escritório TCUrbes. “No pós-guerra (a partir de 1950), na Europa ou nos países desenvolvidos em geral, o espaço público foi tomado pelo carro”, conta o especialista. A partir dessa proliferação automobilística, começa a haver uma degradação das áreas urbanas, que segue até hoje.

No livro Morte e Vida das Grandes Cidades (1961), a jornalista americana Jane Jacobs fazia o diagnóstico terrível: a prioridade dada ao uso do carro “mataria” as cidades. Jan Gehl concorda e afirma, no livro New City Life (sem edição em português), que essa mentalidade voltada ao carro permite “planejar e organizar a vida para que não tenhamos que andar ou usar a arena pública da cidade”. Escreve ele: “Muitas cidades nos Estados Unidos sofrem de um fenômeno chamado ‘cidade abandonada’, que significa que o espaço público tem sido negligenciado ao ponto em que as pessoas dispensaram a vida na cidade.”

Era necessário repensar a maneira de construir e planejar as metrópoles para incluir as pessoas na equação. “A partir da década de 1960, começa-se a discutir essa volta do espaço urbano com qualidade”, diz Correa. Foi com essa busca por alternativas a um modelo de cidade que só levava o carro em consideração que Jan Gehl começou a conceber sua ideia de que era preciso pensar na qualidade dos espaços da cidade. Segundo ele, se antes a qualidade de um espaço não tinha função no seu uso, nos novos tempos isso passa a ser um parâmetro crucial.

Gehl começou a “faxina geral” na própria casa, quando era funcionário da prefeitura de Copenhague. Como muitas das cidades europeias, a capital da Dinamarca também sofria com a falta de espaços públicos e a predominância dos carros. Por isso, em 1962, desenvolveu a ideia de construir um calçadão só para pedestres em uma das principais ruas comerciais de Copenhague, a Strøget. Sua ideia, a princípio, não foi bem-aceita. Mas, depois que os comerciantes viram um aumento nas vendas, perceberam que a presença das pessoas fez bem aos negócios e à rua. Esse é o ponto de partida de uma ideia de Gehl que pode ajudar a acabar com os problemas que os espaços urbanos enfrentam pelo mundo: cidades feitas para as pessoas.

Escala humana

O conceito é muito diferente do que foi usado na concepção e planejamento de Brasília, por exemplo. Em entrevista à vida simples em julho de 2011, Gehl analisou a capital do Brasil: “Quando a olhamos do céu, ela é incrível, mas, quando a olhamos do chão, parece que estamos em uma maquete fora de escala”, disse.

“É tudo grande demais, as distâncias são impossíveis de ser percorridas pelo corpo humano, e os monumentos, grandes demais para apreciarmos a partir de nossa altura”, prosseguia. “Isso sem contar a falta de calçadas e ciclovias. Se você não tem um carro em Brasília, fica impossível se locomover”, concluiu.

Por isso, Gehl passou a se dedicar a olhar para a “escala humana” em vez de prestar mais atenção à forma dos prédios, ruas e praças. “É fundamental que encontremos pessoas com outros estilos de vida e outras culturas para uma troca social e cultural da nossa vida diária e pública, que pode ser baseada em confiança e experiências de primeira mão”, afirma o arquiteto. Portanto, o mais importante na cidade é o encontro, as trocas entre as pessoas, sejam sociais, comerciais ou culturais.

“Essa mudança de ponto de vista, a partir do ser humano, é uma nova escala de compreensão da cidade”, diz  Gustavo Ortenblad. Uma mudança que começa com o planejamento, que “era resolvido dentro dos escritórios, das áreas técnicas, muito pouco atentas ao que de fato estava acontecendo quanto ao comportamento das pessoas, um urbanismo feito de cima para baixo”.

Escada sentável

Para Ricardo Correa, é preciso projetar esse lugar ideal. “Porque, senão, você só se importa com o fluxo de pessoas e mercadorias. A cidade vai se tornar um lugar insalubre, só de transição”, diz. O ponto de partida de Gehl está no que ele chama de “comportamentos naturais do ser humano”. A partir disso, ele faz uma análise comportamental do uso, por exemplo, de uma escadaria na qual a pessoa pode se sentar – por que não?

Os 12 critérios-chave são um dos principais frutos dessa ideia. Para melhorar a vida na cidade, é preciso que as pessoas possam voltar a viver e ter experiências positivas no local em que moram. Em New City Life, o arquiteto dinamarquês escreve que a ideia de que “se melhores áreas urbanas são oferecidas, seu uso vai aumentar”vale tanto para espaços públicos amplos como para assentos individuais. E, segundo ele, esses princípios são aplicáveis em várias culturas e partes do mundo, em vários climas e em diferentes economias e situações. De maneira geral, os critérios dão uma orientação de como os espaços públicos devem ser, do ponto de vista das pessoas: seguros, confortáveis e convidativos. A prioridade é sempre o deslocamento a pé (ou por meio da bicicleta) e a promoção de atividades em conjunto, sejam compras, eventos ou apenas conversas. Gehl quer que, idealmente, o espaço diga: “Pare e olhe para todas as coisas que esse lugar tem a oferecer”.

Clima propício

“Um dos pontos que mais me chamam atenção é criar espaços para as pessoas aproveitarem o clima”, diz Gustavo Ortenblad. :Nós [os brasileiros] temos temperaturas muito mais favoráveis. A oferta de áreas para as pessoas poderem aproveitar a natureza, o meio ambiente, teria aqui um uso efetivo mais intenso durante o ano inteiro. Isso criaria uma nova relação do cidadão com a cidade. De afeto e prazer”, acredita.

Apesar de terem virado referência para urbanistas do mundo todo, os critérios de Gehl são apenas um ponto de partida. Para Gustavo Ortenblad, eles não são uma solução, mas um desejo: o de resolver um problema. “São critérios básicos, mas que dão subsídios muito grandes do que se espera para o espaço público”, diz.

Os problemas de nossas cidades são enormes, é verdade. Décadas já se passaram e eles parecem ficar mais difíceis a cada dia. Se não há como resolver tudo de uma vez, pelo menos os 12 critérios de Gehl  revelam um ponto a partir do qual podemos nos posicionar e olhar para o futuro com esperança de uma vida melhor nas cidades.

Os 12 critérios

Proteção

1. Prevenção de acidentes.

2. Combate ao crime e violência: áreas públicas cheias de vida, olhos na rua, funções simultâneas dia e noite, boa iluminação.

3. Abrigo contra experiências desagradáveis: chuva, vento, calor/ frio, poluição, poeira, barulho.

Conforto

4. Caminhada: fachadas interessantes, boas superfícies, acessibilidade.

5. Paradinha: locais atraentes, convidativos.

6. Descanso: bancos confortáveis.

7. Contemplação: vistas desobstruídas, iluminação.

8. Interação: baixo ruído e mobiliário “de estar” para um batepapo.

9. Exercício e lazer: atividade física, brincadeiras, entretenimento.

Desfrute

10. Bom tamanho: prédios  e espaços feitos para a escala humana.

11. Clima propício: mobiliário que conviva com a variação do tempo (sol/sombra, calor/ fresco, abrigo do vento/brisa).

12. Experiências sensoriais: design com detalhes, bons materiais, vistas agradáveis, árvores, plantas, água.

 

DIOGO ANTONIO RODRIGUEZ é jornalista e cientista social. Gostaria de chegar a todos os cantos de SP só de metrô.


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