A vida, essa chata

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Pode apostar: você não tem a menor ideia de qual é o nosso maior problema ao enfrentar as chatices que o destino coloca no nosso caminho. Juro, não sabe, como eu não sabia, porque se soubesse não teria o menor interesse em ler esse texto. É algo óbvio, tão simples, que talvez você nunca tenha pensado nisso. A resposta a essa questão, na verdade, é a grande chave para matar a charada. E, graças a Deus, você não vai precisar chegar ao último parágrafo desse texto para entender porque temos tanto horror do que desafia nossa paciência e tolerância. Vou entregar o segredinho agora, logo de cara.

Existe um motivo básico e onipresente toda vez que algo nos tira do sério. Em geral, temos faniquitos diante das chatices porque secretamente achamos que o mundo deve se curvar (se possível, imediatamente) aos nossos desejos. Então, quando ele não se inclina diante dos nossos caprichos, certamente por causa de um impertinente insuportável, a gente fica fora de si. As emoções negativas sobem como um vulcão. E talvez nosso desejo mais íntimo passe a ser torcer o pescoço daquele implicante inveterado.

Essa reação acontece porque falta-nos uma informação básica em nossa educação emocional: a de que chatos e chatices sempre farão parte da nossa estadia neste mundo. É o preço que pagamos pelos seus mares azuis, seu clima ameno, suas verdejantes florestas e os momentos inefáveis de amor que podemos viver. Assim como as algas flutuando na água dos oceanos, as chatices são inerentes à nossa existência. Vêm no pacote. E não dá para brigar feito um louco com esse pedágio planetário. A vida não vai se render aos seus caprichos e necessidades. Como uma rainha, ela desfilará altiva diante do seu nariz enquanto você ferve de ódio e raiva. Ela é indiferente ao que você acha ou não acha dela.

Por isso, conforme-se. Não vai ter uma vaga eternamente esperando por nós, nem funcionários atentos e competentes para atender nossos mínimos desejos, o trânsito fluindo a qualquer momento e somente dias ensolarados e sem nuvens. Exigir esse mundo utópico onde todas as nossas necessidades sempre serão satisfeitas é uma perda incomensurável de tempo e energia. Então, relaxe. Aceite. A vida não é um mar de rosas. A existência não vai ceder aos nossos anseios. E ataques de ódio, estratégias de sedução ou estratagemas maquiavélicos não vão adiantar. Porque se o esperneio ou uma saída inteligente podem resolver um caso, ali na frente já vai ter outro que vai exigir ações diferentes. Querer manipular a vida dessa maneira é desgastante e inútil. Além de ser uma ilusão de controle, que fatalmente vai ser quebrada em algum momento, às vezes com muita dor.

Então, se quiser brigar com as chatices, escolha aquelas que valem a pena, se não quiser ser consumido por elas. ?Reconhecer, do fundo do coração, e de uma vez por todas, que a vida não vai se comportar do jeito que a gente quer, e que temos de aprender a lidar com isso, traz um imenso alívio emocional. A partir dessa conclusão, não sofremos tanto com a realidade. E se formos interferir no que acontece, vai ser de outra forma, mais sábia e inteligente, pois com base nessa aceitação interna, estaremos mais calmos e centrados. E o resultado será mais eficaz?, diz a psicóloga paulista Irene Cardotti.

E aí vem o pulo do gato: a vida não pode mudar, mas você, sim. A única coisa real que pode aliviar o curso indiferente da chatice é a sua atitude diante dela. Ponto final. O restante desse texto é para você saber como fazer isso.

Esses adoráveis malas sem alça

Edith Wilson Macefield era uma velhinha curvada de 86 anos, com olhos azuis acinzentados e óculos com aros de metal. Ela se recusava a vender sua casinha para que fosse erguido, no lugar, um shopping gigantesco em Seattle (EUA). Para a construtora, ela era uma chata de plantão. E para Barry Martin, o engenheiro de operações encarregado de falar com ela, um verdadeiro enigma. Por que alguém se recusaria de maneria tão firme a vender sua residência por uma oferta dez vezes maior do que o valor real?

Barry escreveu um livro fascinante, Uma Casa no Meio do Caminho (Sextante), sobre o que aprendeu com essa velhinha cri-cri que depois se tornou sua amiga e mestra. Ele conta como saiu completamente transformado depois dessa relação: com Edith, ele aprendeu a enxergar seus próprios limites, a ultrapassá-los, a lutar pelo que acreditava, e a encarar seus adversários de frente. ?Durante o tempo em que convivemos, a casa de Edith se tornou minha escola?, escreveu ele no primeiro capítulo.

E, de fato, existem boas lições para aprender com os chatos de plantão. Eles nos ensinam muito sobre quem realmente somos porque nos tiram da zona de conforto. Sacodem nossas certezas internas, atingem nossos pontos fracos, nos provocam. E nos colocam nus diante de nós mesmos. São seres extraordinários, essas pessoinhas: podem revelar mais sobre nós do que 50 sessões de terapia. Aliás, a situação ideal é justamente fazer terapia quando um ou mais chatos estão pegando no pé. Eles são mestres aceleradores de consciência, se soubermos lidar com essa experiência enriquecedora.

Eu mesma aprendi muito com aqueles que me tiraram da minha toquinha aprazível de crenças. Durante seis meses, um desses provocadores foi meu amigo no Facebook. Extremamente inteligente, mas de centro-direita, ele afugentou de cara a maioria dos meus amigos de esquerda, que ficaram indignados com a presença dele por ali. Como eu aceitava dialogar com uma pessoa tão diferente do que eu era e pensava? Por que não excluía esse reacionário da minha lista? E, o pior para mim, o que eu tinha a ver com ele? Iconoclasta como Krishnamurti, de quem era fã, o moço não perdoava qualquer deslize conceitual de minha parte ou incoerência. A cada frase era obrigada a checar o que estava pensando: acreditava mesmo no que estava falando? Era isso mesmo o que queria dizer? Ele se manifestava em todo e qualquer post, com bastante senso de humor, mas também com provocações agudas. Fui obrigada a passar a régua em boa parte de minhas crenças nesse período. Muitas vezes, fervi de raiva. Outras, senti um carinho real, apesar das enormes diferenças de pensamento que nos separavam. Mas confesso que nesse embate nunca nos ferimos mortalmente. No final do ano, nos despedimos inclinando a cabeça um diante do outro como dois espadachins: concluímos que nossas discussões não beneficiavam ninguém. Mas, se um dia me perguntarem, diria que sou muito grata a esse inesperado professor que me obrigou a refletir mais profundamente sobre boa parte do que acredito.

O porquê do chilique

Não aceitamos a vida do jeito que ela é em parte porque pertencemos a uma geração já acostumada a ter uma parcela de nossas necessidades atendidas na infância. Somos mimados, caprichosos. Nos sentimos muito especiais. E esse é um grande problema. ?Lidamos mal com a frustração. Num mundo mais limitado e frustrante, chegamos à maturidade com mais jogo de cintura e menos exigências, além de muito menos arrogância. Já numa época em que a maior parte das vontades foram atendidas rapidamente, nos tornamos insaciáveis e críticos?, afirma Irene Cardotti. O pior é que nem nos damos conta que os insuportáveis podem ser nós mesmos.

Rafael Santandreu, médico espanhol da linha da psicologia cognitiva e autor do livro Pare de Fazer Drama e Aproveite a Vida (Sextante), dá duas razões para que isso aconteça. Para ele, temos o hábito de transformar expectativas em necessidades prementes que, se não forem atendidas, convertem-se em ansiedade, angústia, raiva ou depressão. Ele as batiza, em tom de brincadeira, de ?necesseítes?, isto é, de necessidades patológicas, ou neuroses. As expectativas (que podem ser legítimas, inclusive) almejam um mundo perfeito, equilibrado, certinho e aprazível. Tudo bem, nada contra. A questão é que, quando nossas expectativas são transformadas em necessidades, exigimos que o mundo seja assim. E sofremos se ele não for.

Santandreu também acha que exageramos e dramatizamos a maioria dos acontecimentos chatos porque achamos que o mundo deve nos servir. E também porque só aceitamos as situações se forem boas, na nossa avaliação, é claro. Em resumo, sofremos não exatamente pelo ocorrido, mas pelas crenças negativas (medos, na maioria) que temos sobre os desdobramentos daquilo. Essa visão pode tornar a vida bem complicadinha. Mas qual seria a solução? Santandreu tem várias sugestões para minorar esse problema. Acho uma delas genial. Quando nos tornamos seres lamurientos com as chatices da vida, devemos nos perguntar: o que o físico Stephen Hawking, portador de uma doença degenerativa progressiva, ou o ator Christopher Reeve, que ficou imóvel do pescoço para baixo, pensariam sobre nossas dificuldades? Eles sempre foram felizes e atuantes, apesar da condição física incapacitante. E nós? O que poderíamos dizer sobre nossos obstáculos para eles?

O médico aconselha a pensar em como nossa vida é breve. Isto é, começar a nos perguntar sobre nossos incômodos: são tão importantes assim? Muitas vezes, é algo passageiro. Outras, é algo que não nos atinge verdadeiramente, e que exageramos no seu valor, como ele diz. Ou pode ser que aquele chato de plantão só esteja esperando alguém que interaja com mais humanidade e respeito para com ele para se tornar uma pessoa muito interessante, como a velhinha Edith. Com mais acolhimento, humor e leveza, e sem desejo de manipulação, pode ser até que a relação mude. Ou não. Mas se não se transformar e continuar no seu rumo de sempre, você, que já sabe que a vida inclui inexoravelmente suas chatices, já não será tão vulnerável a isso.

LIANE ALVES baixou a crista quando um funcionário cri-cri a ensinou que raciocínio ágil não tem o menor valor diante, por exemplo, da burocracia.


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