Viajar, comer e lembrar

  • TEXTO Michelle Strzoda
  • FOTOGRAFIA Tai-s Captures | Unsplash
  • DATA: 01/07/2021

A comida é também uma maneira de conhecer um lugar, país ou cidade. E essa experiência de viajar é algo que fica impregnado em nossas lembranças, junto aos sabores das comidas.

Cidade do México, dezembro de 2015. Hora do almoço, eu estava em companhia do editor Alejandro Cruz Atienza, que me levou ao restaurante Corazón de Maguey. “Vamos de chapulines?!”, disparou ele. Imediatamente me transportei em pensamento para Oaxaca, como se estivesse à mesa com a família materna da artista Frida Kahlo, e numa piscadela me encontrava num ritual asteca no período pré-hispânico. Era a minha primeira viagem ao México, mas eu já havia ido para lá muito antes, por meio da literatura, dos murais, do paladar, das histórias.

No México, fiquei hospedada na Casa da Esperanza, um espaço sui generis em Guadalajara, que merece ser visitado não só pelo hostal (hotel mais simples) – o mais lindo e particular que já vi até hoje –, mas por sua anfitriã, a Esperanza, que empresta seu nome ao local. Foi ali, em menos de um dia, que me senti pela primeira vez profundamente no México. Esperanza e eu conversamos por horas sobre muitas coisas: educação, jornalismo, política, comida e livros. Psicóloga de formação, com mestrado nos Estados Unidos, ela largou tudo para cuidar do que mais gosta – gente – e fazer o que sabe melhor – receber. Abriu as portas da sua casa há anos e nunca mais ficou só.

Os títulos de uma boa comida para viajar

No café da manhã, olhei seus livros de cozinha. Entre seus títulos preferidos estão um exemplar sobre culinária chinesa e dois volumes de Julia Child: Mastering the Art of French Cooking. Mas, como autêntica mexicana, não dispensa os temperos, aromas e ingredientes da sua terra, como os pimientos negros e os moles. Ganhei dela um mole negro maravilhoso, veio na mala com livros.

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Crédito: Eiliv Sonas Aceron| Unsplash

Nas viagens – estejamos sozinhos, com amigos, a dois, ou com crianças a tiracolo –, as experiências gastronômicas nos levam a lugares outros jamais pensados, desenraízam e entrelaçam memórias, fazendo ligações até mesmo inesperadas. A comida é uma porta de entrada para muita história de como povos se formaram, se firmaram e se multiplicaram.

A cozinheira goiana Letícia Massula, criadora do site Cozinha da Matilde, compara o ato de viajar a entrar em uma cozinha alheia. “É como chegar até o fogão e levantar as tampas das panelas para ver o que tem dentro. Nem sempre essa entrada é física, mas metaforicamente explorar um território gastronômico para mim é isso, como se eu entrasse na casa de determinada cultura e olhasse suas panelas. É a minha maneira de ler aquela cultura e aquelas pessoas, de entender um pouco da alma do lugar, além, é claro, da geografia, bioma, história que também estão ali gravados no que se come.” Para Letícia, a comida decodifica culturas. “É como eu olho e entendo um lugar”, afirma.

Chuchu uma superfood?

Escritora mineira radicada em Londres, Nara Vidal diz que, acima de tudo, a culinária faz pensar a cultura num sentido mais amplo. “A comida detalha quem somos. É algo tão íntimo, tão afetivo… Carregamos nossa culinária como o próprio sotaque. Não escrevo sobre comida em ficção, mas as reminiscências que estão em muitos textos só são possíveis por causa da cultura, origem, e a comida é exatamente parte desse todo”, reflete.

Nara conta que, certo dia, ao ler um tabloide inglês que citava o chuchu como superfood, gargalhou. “Naquela hora, meu riso significou a minha intimidade e lembrança das minhas raízes. Pensei na minha vó refogando chuchu, da abundância do legume sem-vergonha que dá em qualquer lugar, sem grande cultivo, e que, agora, exótico por aqui na Inglaterra, ganha esse status. A comida nos identifica, por isso está nos meus textos; não de maneira óbvia, mas no que sou.”

Literatura saborosa

Desde pequena, o universo de Letícia Massula é feito de livros e de comida. “Ler é meu meio de transporte para descobrir o mundo, e a comida, o tradutor, o dicionário, a ponta que eu puxo para chegar ao miolo, entender e me conectar”, explica a cozinheira, que vive em Pirenópolis (GO).
As páginas da literatura de Jorge Amado, cuja biografia recém-publicada foi escrita pela jornalista Josélia Aguiar, são marcadamente saborosas – aqui com devida ambiguidade. Personagens e cenas inspirados na culinária baiana se tornaram emblemáticos e imortalizados na obra de Jorge, um dos autores brasileiros mais lidos no mundo, o que colaborou para propagar o interesse pela comida brasileira em âmbito internacional.

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Crédito:Marcos Paulo Prado | Unsplash

Essa predileção alimentar passa a ganhar mais projeção na literatura de Jorge Amado com suas protagonistas cozinheiras. Primeiramente, em 1958, em Gabriela, Cravo e Canela; depois, em 1966, com Dona Flor e Seus Dois Maridos. Atento a questões sociais e à posição de cozinheiras tradicionais, que recebiam pouco por seu trabalho, Jorge “apreciava que se mantivesse a simplicidade e originalidade das receitas. Grandes restaurantes, caros, desvirtuavam os pratos”, ressalta Josélia, conterrânea do escritor. “Quando a obra Dona Flor foi publicada na então União Soviética, o tradutor Paulo Bezerra foi procurado para elucidar pontos da receita. Leitores de todo o mundo tiveram contato com esses elementos da culinária baiana”.

Assim como na literatura de Jorge Amado, a memória perpassa os escritos de Letícia Massula. “Minhas referências são cozinhas, cozinheiras e ingredientes, em especial no processo criativo de receitas. Pratos nascem de uma lembrança específica, um sabor revisitado. Perceber como o outro lado, o comensal, reage àquelas memórias, em que medida encontram eco nele também, na sua própria base cultural, me encanta”, conta Letícia.

Feijão com arroz e sotaque

Inglesa, Amelie é uma criança de 9 anos que adora feijoada. Pede para Nara, sua mãe, preparar o prato toda semana. É com a finalidade de estar próxima do Brasil, pelo cheiro e paladar. O interesse de Amelie por comida revela a vontade da menina de descobrir histórias por meio dos pratos desses lugares. “Ela gosta de saber com antecedência o que será feito no dia, quais são os ingredientes, o tempo que leva. Faremos uma viagem a Portugal. Outro dia ela me mostrou seu plano de viagem: provar pastéis de Belém e bolinhos de bacalhau. Ela viu a viagem como uma forma de se aproximar da cultura pela comida”, relata Nara, que é mineira.

Frango com batata baroa, canja, pão com linguiça e feijão com arroz. Em resumo, esse foi o cardápio da viagem da família ao Brasil. “Meus filhos me dizem que eu fui uma criança de sorte por ter comido feijão com arroz diariamente”, brinca.

A maioria das experiências gastronômicas que a jornalista Cibele Reschke teve na China foi, segundo ela, maravilhosa. Ela é coautora de China Made in Brasil, livro sobre os 200 anos de relações entre os dois países, com um capítulo dedicado apenas à gastronomia. Para ela, não existe como você entender a cultura de um país e de um povo sem experimentar sua gastronomia. “Enquanto no sul da China você tem os dumplings, com os mais variados recheios, mais próximo ao norte há o pato de Pequim, e no oeste existe a influência tibetana e dos povos muçulmanos com carneiro e queijo de cabra”, exemplifica.

Rota dos queijos

O jeito com que os chineses preparam os vegetais fascina Cibele. Outro aspecto que chama sua atenção ali é o fato de se chegar ao restaurante e poder escolher os frutos do mar do aquário. “Isso até pode parecer um pouco chocante, mas é uma forma fresca de você consumir o alimento. A gente tem que ter o coração aberto para entender essas diferenças.”

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Crédito: Richard Iwaki | Unsplash

Cibele viaja bastante a trabalho e a comida é um componente-chave para ela. “Já fui a muitos lugares atraída pela comida, um deles é a Índia. O que me chamou a atenção foi o quão gostosa pode ser a culinária vegetariana. A maioria dos indianos é vegetariana. E só de tipos de curry você já fica perdido”, relembra Cibele, que em viagem à França, por exemplo, comprou um mapa com guia da rota dos queijos pelo país. Mas, apesar de conhecer bastante a China, foi o Japão que mais surpreendeu o paladar da jornalista, pela tamanha variedade da comida e capricho dos pratos. “Tudo lá é gostoso, até se você vai a uma loja de conveniência comprar um alimento pré-pronto, ele vem com muito cuidado.”

Comer, cozinhar, escrever, viajar…

Ao ser indagada sobre o que mais gostava de fazer na vida – comer, cozinhar ou escrever –, a escritora Agatha Christie se viu numa encruzilhada. Viciada em creme de leite, costumava escrever acompanhada de uma taça da guloseima. Os casos de crime e suspense policial de Agatha davam lugar a deliciosas tortas e bolos na cozinha, que a escritora gostava de preparar. “Cozinhar para mim é uma maneira de escrever, de contar uma história. Os processos muitas vezes são poesia.”

Assim enxerga a cozinheira Letícia Massula, que vê nesse momento do cozimento uma forma de viagem para se (re)descobrir. Letícia diz ter experimentado, por meio do ato de cozinhar, fechar pequenos ciclos determinantes na sua vida. “Cada um tem seu gosto próprio, cada um acrescenta um ponto, cada um é uma maneira diferente de interagir com o mundo. Mas, quando estou comendo e viajando, gosto de falar que estou me nutrindo para depois escrever e cozinhar sobre o que vi”, reflete.

Michelle Strzoda é jornalista, curadora, gestora de comunicação, conteúdo e cultura editorial. Está preparando o livro Degustando Palavras (Alaúde).


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