Veja o lado bom da vida

  • TEXTO Liane Alves
  • DATA: 15/03/2019

Perceber os momentos de beleza e magia no dia a dia é essencial para ser feliz com você mesmo e com o mundo. É reconhecer o que é verdadeiramente perfeito em sua vida

Ana Paula chegou cansada em casa e só queria descansar. Mas como ter coragem de dizer isso para as duas crianças pequenas que já estavam de roupa de banho e óculos de mergulho na sua frente, prontos para cair na piscina? Meio a contragosto, ela se trocou e os acompanhou. Essa foi, de longe, a melhor decisão daquele dia. “Dentre os muitos momentos de felicidade que vivemos naquele fim de tarde, lembro-me de um que considero perfeito: eu, meu marido e as crianças, abraçados juntinhos e fazendo breves mergulhos ao mesmo tempo, por alguns segundos, para depois sair d’água e respirar. Eu não ria tanto há muito tempo. Saí dali revigorada, e com a sensação de que a vida é sempre maravilhosa se a gente deixar espaço para que o maravilhoso se manifeste”.

Pois é isso mesmo. Para ser feliz e ir ao encontro dos momentos mágicos e perfeitos, o melhor que temos a fazer é nos tirar, junto com nossos pesos e reclamações, da nossa própria frente. Dar licença para o inesperado chegar, dar boas-vindas ao não programado. E ter coragem de dizer “xô, satanás!” toda vez em que cair naquele mimimi repetitivo que diz que a vida é cansativa, sem novidades e que você não aguenta mais.

É assim, ao dar uma chance para que a existência se mostre de outro jeito, que abrimos a porta para ela entrar. Às vezes, mansamente. Às vezes, com enorme intensidade. No caso de Ana, uma amiga de longa data e protagonista da história que dá início a esse texto, ela pode contar com os filhos pequenos para reconhecer a perfeição no seu cotidiano. Eles a estimularam a vencer os limites do desânimo, palavrinha que significa, literalmente, “sem alma”. Quantas vezes não estamos assim, sem alma, deprimidos ou exaustos? Estar nesse estado é um dos grandes motivos para não enxergar as estrelinhas cintilantes que brilham sem parar na frente dos nossos olhos e que apontam em uma outra direção. Porque é somente a alma que tem a capacidade de ver a sua luz.

Crianças são grandes mestres em identificar estrelas e nos devolver o contato com o espírito. Elas sabem, como ninguém, rasgar véus escuros para que possamos vislumbrar um mundo encantado e cheio de possibilidades, isto é, do jeito como elas mesmas o veem.

Quem assistiu ao filme “A Invenção de Hugo Cabret” sabe do que estou falando. Um menino órfão que vive entre as estruturas de ferro de uma estação de trens na França é capaz, por exemplo, de devolver a alegria a um desiludido diretor de cinema ao mostrar para o cineasta o quanto a magia presente em suas películas encantaram o mundo, e a ele próprio. Isso porque os pequenos enxergam qualidades em nós onde não imaginamos e despertam capacidades que desconhecíamos. Eles são capazes de nos devolver a alegria e nos ajudar a reencontrar o encantamento pela vida.

A terapeuta Lucila Camargo estava, em um dia qualquer, na cozinha dando laranja para o neto de dois anos: tirava a casca, cortava em pedaços pequenos e os colocava na boca do menino. Em determinado momento, ele disse, encantado: “que de-lí-cia, vovó!”. O garoto estava em estado de graça. E Lucila, ao desvelar seu amor num ato tão simples, também. E, com base nesse instante de maravilhamento, a terapeuta nos revela algo precioso. “Durante todo o tempo o externo nos oferece gatilhos que permitem entrar nesse estado de puro amor e contemplação: uma árvore cheia de flores, uma sensação de bem-estar no corpo, uma iguaria deliciosa, um momento único de amor. Mas, para isso, temos de estar totalmente presentes”, diz ela. O momento perfeito não existe no passado nem no futuro, mas no agora. Não deve ser esperado, idealizado ou pré-fabricado. Ele pode ser vivenciado apenas quando estamos atentos ao que acontece naquele instante, e não quando estamos distraídos com nossos pensamentos e emoções (quase sempre negativas). De uma certa forma, temos de estar livres do peso do nosso angustiado mundo interno para que nossa criança, ou estado de puro ser, possa surgir. Mas por que será que somos tão apaixonados pela perfeição? Por que ela é uma meta?

De onde vem esse impulso
Pode colocar na conta dos gregos antigos: em grande parte são eles os responsáveis pela busca insana pela perfeição. E é interessante notar como isso aconteceu, lá por volta do ano 450 a.C. A precisão era uma virtude cultuada na Grécia Clássica. Era a época do florescimento da razão. Mas foi o matemático e místico Pitágoras que observou algo curioso: ele, que inventou as escalas musicais, notou que os tons, se fossem harmônicos, despertavam em nós estados de bem-estar e alegria. E se fossem dissonantes, nos deixavam irritados e tensos.

Ora, os gregos eram apaixonados pelo mundo bom, belo e virtuoso. Se a música funcionava dessa maneira, as outras artes também deveriam seguir o mesmo princípio. Portanto, elas precisavam se transformar em modelos de inspiração e harmonia para nós. As estátuas gregas do período clássico, portanto, não representavam ninguém em particular: eram reproduções que procuravam transmitir um ideal de beleza e harmonia.

Não tinham relação com as paixões humanas e muito menos com as imperfeições dos homens. Eram apenas modelos ideais que não traduziam a realidade. As esculturas eram tão belas que o sábio grego Aristófanes nos conta que algumas pessoas se apaixonavam por elas, como nós, hoje, pelos atores ou atrizes. “Saber disso é muito libertador. Da mesma maneira que as estátuas gregas não retratam ninguém de carne e osso, as fotos de revistas, com seus truques de maquiagem e iluminação, também não reproduzem a imagem de alguém real. São apenas modelos de referência. É insano querer ser igual a eles”, diz Ângela Toledo, terapeuta paulista.

Por isso, muita calma nessa hora. Nos impuseram modelos irretocáveis há milênios, mas se esqueceram de enfatizar que não são reais. A perfeição é apenas um ideal não atingível. E se ficarmos obcecados por ela, retiramos as possibilidades de felicidade que existem no mundo real para pessoas, relações e situações imperfeitas. Agora resta saber como encontrar alegria e satisfação na imperfeição. É o que vamos ver.

O caminho da felicidade
Na faculdade, o americano Rick Hanson foi um rapaz magricela de óculos que adorava estudar. Era um típico nerd, com todo tipo de angústia: insegurança social, timidez, excesso de intro- versão. Ridicularizado, com pouquíssimos amigos e nenhum sucesso com as garotas, tinha a sensação de que havia uma piscina olímpica vazia no lugar do coração.

Era de uma carência absoluta. Foi quando descobriu que era possível jogar baldes de água diários na sua piscina metafórica, especialmente ao valorizar peque- nos acontecimentos do cotidiano que lhe traziam alguma felicidade. Isto é, Rick resolveu prestar atenção mesmo neles, degustá-los com toda intensidade por alguns segundos. Preste bem atenção nesse detalhe, porque a diferença é sutil: em vez de só sentir aquela alegriazinha básica e já passar para outra coisa, ele realmente parava por algum tempo naquela sensação de bem-estar para aprofundá-la e registrá-la com mais intensidade em sua memória emocional. Somente anos mais tarde, ao estudar com afinco a neurociência e a psicologia, é que entendeu o porquê da mudança benéfica e definitiva que sua decisão interna trazia. Sem falar que, gota a gota, conseguiu encher sua piscina de momentos felizes e, dessa maneira, modificar seu relacionamento com o mundo à sua volta.

Rick relata essa experiência em seu livro O Cérebro e a Felicidade (Ed. Martins Fontes). Ele nos conta, por exemplo, que ao prestar atenção por 12, 20, 30 segundos (mas não menos do que dez) em momentos de alegria e bem-estar, uma pessoa é capaz de abrir caminhos neurais em direção a uma sensação mais perene de satisfação e completude.

É como se estivesse criando sulcos cerebrais que anteriormente não existiam. “Se você não aproveita esses segundos extras para usufruir e aproveitar a experiência (sem querer esticar o seu tempo, mas para aprofundar e saborear a sensação), ela passa por você como o vento passa pelas folhas”, escreveu. “Mas, ao prestar atenção nela por um tempo suficiente, é possível, aos poucos, transformar estados fugazes numa estrutura neural permanente”, continua. Ao repetir esse estímulo, a plasticidade neural, que é a capacidade do cérebro em responder e se modificar de acordo com as experiências vividas, permite que novas trilhas sejam abertas em direção à paz interior, autoconfiança, alegria, serenidade, auto-estima e resiliência. “A mente pode modificar o cérebro, e ele pode modificar a mente”, diz Rick, hoje um consagrado neuropsicólogo.  É como construir uma nova rede de interligações mais positivas à realidade. Porque a maioria, pode acreditar, é inexoravelmente negativa.

Toda essa negatividade tem uma razão muito clara na história da evolução, conta Rick Hanson. O medo, o estresse, a agressividade ou a competividade garantiram a nossa sobrevivência. Por isso, há mais substâncias neuroquímicas relacionadas a essas emoções negativas do que trilhas que conduzam para as reações de bem-estar ou alegria. Além disso, os caminhos ligados a negatividade, por serem sempre reforçados, são bem mais profundos e marcantes no cérebro.

Rick explica que o homem das cavernas só tinha duas alternativas: ou estar em estado de alerta esperando um tigre na mata, mesmo que não tivesse um animal por ali, e assim garantir a sobrevivência, ou estar relaxado e distraído, e dessa forma correr riscos. Em outras palavras, antes estressado a estar morto. Esse é o motivo, portanto, para que a gente tenha caminhos internos ligados ao medo, desconfiança, competividade ou agressividade, emoções associadas ao cérebro reptiliano e límbico, mais primitivo e que está na base do córtex, do que com a consciência mais evoluída do cérebro cortical.
Para sair desse ciclo, uma boa solução é reforçar conscientemente os caminhos positivos relacionados ao amor e a felicidade. É o que ele propõe em seu livro com alguns exercícios.

O psiquiatra paulista José Ângelo Gaiarsa também descobriu, em suas últimas pesquisas, que respirar melhor e mais profundamente em vários momentos do dia pode ajudar a retirar nossa consciência dos dois cérebros inferiores (reptiliano e límbico) para nos colocar em contato com o córtex e seus lobos frontais e laterais. “O cérebro é o órgão que mais consome oxigênio do corpo: cerca de 10% do que respiramos. E o córtex é o sistema neural que, de longe, precisa mais de oxigênio”, disse ele em uma entrevista concedida pouco antes de morrer, em 2010.

Segundo Gaiarsa, ao inalar profundamente fornecemos gasolina azul para a área mais evoluída da nossa cabeça, relacionada com nossas qualidades mais positivas. Já ao não respirar direito, de maneira curta e superficial, ficamos cativos da parte inferior, que consome pouco ar.

Que maravilha: a respiração pode ajudar a nos reconectar com o que de melhor existe em nós, como também pode nos retirar do oceano revolto das emoções destrutivas quando estamos imersos nele. Então, respire sempre e profundamente. Essas são algumas boas ferramentas que nos auxiliam na busca da magia trazida pelos momentos perfeitos, instantes que podem ser simples, cândidos e até imperfeitos, mas profundamente felizes e motivos de grande satisfação. Agora vamos ver o que mais pode nos ajudar, ou atrapalhar, nesse caminho.

O inimigo do bom
Nada melhor do que o amor para exemplificar o perigo das idealizações, comparações e expectativas. Elas minam o que poderíamos considerar perfeito e adequado para nós. “Esperamos certo tipo de homem ou de mulher, e essa imagem nos impede de encontrar a pessoa que está na nossa frente. É justamente essa figura de casal ideal que pode nos impedir de viver, humilde e profundamente, nossas relações a dois”, diz o terapeuta e monge francês Jean-Yves Leloup no livro Uma Arte de Amar Para Nossos Tempos (Vozes), em que analisa trechos do Cântico dos Cânticos, o poema de amor bíblico escrito pelo rei David. Diz Leloup que só vivendo a morte e o luto por essa relação idealizada é que se abre a possibilidade de se encontrar o amor verdadeiro, aquele que acolhe os defeitos, e que é capaz de enxergar o perfeito no imperfeito.

Essas metas inatingíveis não acontecem apenas com relação ao amor. Vivemos um tempo de altas expectativas, de idealizações, de propósitos inalcançáveis. A perfeição como medida está presente em várias áreas da vida: em casa, no trabalho, na exigência com os filhos, na relação com o corpo. Acontece que o ótimo sempre foi inimigo do bom. Porém, realisticamente, ele é raro, enquanto aquilo que é bom pode nos satisfazer plenamente. E, vamos falar a verdade, se formos com a lente do ótimo por aí, nem Michelangelo escapa: as mãos do seu David, es- cultura exposta em Florença, são desproporcionais ao corpo. Nesse sentido, a perfeição como medida apenas nos torna infelizes.

No livro A Cabana (Arqueiro), de William Young, o protagonista da história marca um encontro com Deus e a Santíssima Trindade, na casa abandonada onde a filha de seis anos foi assassinada. Deus Pai, que na obra é chamado de Papai, é uma senhora negra de amplo sorriso que cozinha muito bem; Deus Filho é Jesus, um jovem de 30 anos com cabelos soltos que usa macacão de mecânico, e o Espírito Santo, uma linda mulher oriental. Lá, os quatro conversam sobre muitos assuntos, porém, mais do que tu- do, sobre a importância do amor e do perdão nos relacionamentos. Nada ali sugere perfeição ou julgamentos, mas, pelo contrário, a aceitação daquilo que consideramos imperfeito. “Tudo o que posso lhe oferecer é meu amor, minha bondade e o relacionamento que tenho com você”, diz Papai, sem cobrar nenhum tipo de perfeição.

Agora, relaxe
“Seja bom, o máximo que puderes”, repetia o padre florentino Filipe Néri a quem vinha confessar-se com ele. Não precisa ser perfeito. Apenas tente ser bom, já está ótimo. Filipe nunca desistiu de ninguém, nem mesmo do mais perverso malfeitor da Roma do seu tempo, o século 16. Seu imenso amor os transformava. E se alguém estivesse em dúvida entre o bem e o mal, ele aconselhava a dizer a nós mesmos: “Eu prefiro o Paraíso.” Isto é, prefiro o amor, a paz, a consciência limpa, mesmo que essa decisão aparentemente não favoreça ter o que tanto desejo. Antes a imperfeição feliz à perfeição que se torna fonte de angústia. Deguste o sabor dos momentos mágicos que a vida oferece na sua maravilhosa imperfeição. Você vai concluir rapidinho que isso não tem nada a ver com desejar obsessivamente o perfeito. Mas, sim, em relaxar, respirar fundo, estar presente e ser feliz.

LIANE ALVES acreditava que só seria amada se fosse perfeita. Hoje sabe que os relacionamentos não têm nada a ver com perfeição.

 


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