Uma casa com a sua cara

  • TEXTO Chris Campos
  • FOTOGRAFIA Timothy Buck | Unsplash
  • DATA: 16/03/2019

Montar um lar não diz respeito apenas à decoração. Os objetos escolhidos para compor os ambientes, a maneira como você dispõe cada um deles ou mesmo as cores da parede dizem muito sobre quem você é e seu momento de vida. Sua casa, afinal, não precisa ser perfeita, mas contar a sua história

Sempre mantive o olho arregalado para o espaço em que a gente vive. A casa, em todas as suas versões, é paixão da vida inteira – desde tempos remotos, quando minhas (bonecas) Fofoletes habitavam embalagens de sapato. Caixas de fósforos eram camas com colchões feitos de chumaços de algodão. Luminárias eram criadas a partir da combinação de tampinhas de xampu com outras de amaciante de roupas: design baseado no reaproveitamento de materiais, sabe como? Janelas e portas eram riscados e recortados no papelão e qualquer sobra de tecido virava roupa de cama, tapete, cortina… Já a casa das bonecas adultas era diferente, tinha mobiliário em escala e requintes do tipo: um aparador com prateleiras abertas para abrigar um aparelho de jantar e um jogo de copos composto de tampinhas de guaraná e de pasta de dentes.

Exercícios de criança que me fizeram notar que dois ingredientes são básicos na composição de um lugar que você possa chamar de seu: capricho e personalidade. Qual o sentido, afinal, de ocupar um espaço que não tenha sido pensado (e não seja mantido) com amor, que não tenha a ver com o momento que você vive ou com seus interesses mais pessoais? Que história você quer contar na sua casa? Quais são suas inspirações, referências de conforto e de bem-estar?

Qual foi a última vez em que esteve em algum lugar e pensou: “Eu poderia morar aqui”? Pode reparar: quando um lugar mexe com você é porque ali tem algo que remete ao seus desejos mais íntimos. Pode ser a cor de uma parede ou o desenho de um sofá. Pode ser o perfume do ambiente ou a quantidade de luz que entra pelas janelas. Seja lá qual for o ingrediente mágico, pode ter certeza de que ele tem a ver com algo que te deixa feliz ou confortável.  Seria muito mais interessante, portanto, colecionar referências que emocionem você de alguma maneira a deixar-se levar por tendências, pelo que alguém julga adequado ou ao que parece certo à primeira vista.

Para ilustrar esse assunto, recorro novamente aos experimentos pessoais. Quando mudei para meu primeiro apartamento, estava em um relacionamento sério com o cineasta Pedro Almodóvar. As casas dos seus filmes pareciam todas feitas sob medida para meus planos indecentemente felizes de quem tem vinte e poucos anos. Resolvi então dedicar meu tempo livre a pintar cada centímetro do apartamento de 40 metros quadrados, recém-alugado, com (quase) todas as cores do mundo. Me dava um prazer louco percorrer aquele labirinto colorido de sensações. Da sala pincelada de verde e azul para a cozinha rosa-chiclete, passando pelo banheiro amarelo com flores pintadas à mão nos vitrôs com vista para lugar algum. O final feliz era um novo mergulho no azul que me fazia ter sonhos bons todas as noites.

Durante anos fui entusiasta das cores, hábito que me transformou em uma experiente pintora de paredes, craque em percorrer o catálogo de amostras da loja de tintas e determinar em segundos as combinações mais promissoras. Foram muitas mudanças, até que um dia o amor pelas cores parecia descabido. Precisei mergulhar momentaneamente em uma imensidão de paredes tingidas de branco-neve para conseguir resgatar o amor pelas cores. Isso é sentir o momento e fazer dele a referência para o cenário que você habita. O branco, naquele instante específico da minha vida, era necessário para arejar as ideias, limpar velhos pensamentos, trazer novidade. Ainda hoje vivo feliz entre paredes brancas, mas com recaídas esporádicas para tons vibrantes.

A cozinha voltou a ser rosa-chiclete, veja só! Prova de que, no íntimo, ainda existe uma pessoa exuberante vibrando dentro de mim. As paredes coloridas são apenas um lembrete.

 

Qual o sentido de ocupar um espaço que não tenha
sido pensado (e não seja mantido) com amor, que não tenha a ver com o momento que vive ou com seus interesses pessoais?

Além do arco-íris
Para uns, a casa meio bagunçada porém cheia de informações e memórias é o que importa. Para outros, a organização visual, o menos é mais, tem seu valor. Quando o assunto  é morar não há regras, tampouco ideias impossíveis. Uma casa perfeita? Esqueça, ela não existe. Partindo do pressuposto de que nossa vida nunca está completa, que sempre caminhamos em busca de algo que nos mova, por que ter a perfeição como meta a ser atingida em território doméstico? Bom mesmo é que as coisas que nos cercam acompanhem a onda do momento. Que sejam valorizadas as marcas do tempo. O sofá arranhado pelo gato ou o carimbo do copo de cerveja esquecido sobre a mesinha de centro são provas incontestáveis de pequenas alegrias.

Se preciso for, arraste móveis, pinte novamente as paredes, escolha maneiras inéditas de preparar o ovo mexido, o café com leite. Fazer do ordinário algo extraordinário é desses prazeres que valem a pena experimentar. Tem tantas coisas que fazemos cotidianamente e que podem ter um gosto diferente em uma segunda-feira de manhã… Quase sempre é um detalhe mínimo ou uma coleção deles.

Cuidar de uma casa vai além de manter a limpeza em dia. Uma casa bem cuidada é mimada. Pede um olhar amoroso que pode durar alguns segundos ou uma tarde inteira – isso vai depender da disposição do dia e das combinações que você faz com o próprio tempo. Casa delícia tem umas folhinhas frescas no vaso da sala ou um botão de rosas plantado em um vaso ao lado da cama. Tem mudanças de coisas de seus lugares originais – arejar as ideias também é isso, meu bem! Olhar para casa como quem olha para a pessoa amada.

Prestando atenção aos detalhes, por mais imperceptíveis que aparentem ser. Arrumar uma parede com objetos, fotografias e o que mais lhe causar felicidade instantânea. Manter imagens na porta da geladeira que te façam sorrir em uma manhã mal-humorada.

 

Uma casa perfeita? Esqueça, ela não existe.
Partindo do pressuposto de que a vida nunca está
completa, por que ter a perfeição como
meta em território doméstico?

 

A casa tem seus desejos e cabe a quem mora dentro dela atendê-los. Arrumar meia hora no meio da semana para rechear a geladeira com uma sobremesa daquelas ou gastar cinco minutos extras no trajeto de volta para buscar um pacote de pão fresquinho para o café da manhã do dia seguinte. Isso faz bem e sacia desejos recorrentes de inícios mais promissores.

Casa mimada é casa socorrida aos poucos. Um dia você dá um jeito diferente nas almofadas do sofá, no outro troca a lâmpada queimada há semanas. Devagar e sempre vem a sensação de que o que já é bom pode ficar melhor. Exatamente o contrário de deixar-se atropelar pelas artimanhas da loucura dos dias, de largar tudo para depois até virar nunca, e você se encontrar em um caos que parece sem saída. Não é isso que você quer para a casa que escolheu chamar de sua. Se for, me perdoe pela insistência. Mas é que sigo apostando na crença de que podemos fazer sempre algo bom, especialmente para nós mesmos.

 

CHRIS CAMPOS é jornalista criadora de sites e blogs de decoração com olhar mais delicado, autora dos livros Casa da Chris (Record), Assim Que Te Conquistei (Versar) e Almanaque das Festas Instantâneas (Memória Visual). Na The School of Life, ela ministra a deliciosa aula A Arte de Morar.

 


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