É possível se relacionar bem com os parentes?

  • TEXTO James Allen
  • DATA: 19/11/2019

Relacionar bem com os parentes, como pais, irmãos, tios e primos tem seus altos e baixos emocionais. Há momentos em que a conversa é harmoniosa e os abraços, calorosos. Mas outros em que o dia a dia se assemelha a um campo de batalha. Compreender essa complexa relação pode trazer alívio e também ótimos aprendizados.

Talvez você se lembre de uma propaganda da década de 1980 com a chamada “família margarina”, cheia de sorrisos doces e felicidade incontida. Hoje, muito do que vemos nas mídias sociais envolve imagens de amigos postando sobre dias perfeitos ao lado de famílias igualmente perfeitas.

No entanto, à medida que nos aproximamos do início de um novo ano, uma época de festas e comemorações, muitos de nós pode encarar esse período com alguma trepidação. O trabalho árduo e os gastos com os presentes ou a viagem do Réveillon. Sem contar as decisões difíceis sobre com quem passar o tempo – particularmente se há separações ou divisões na família –, e a percepção de que nosso núcleo pode ser mais parecido com algo saído de uma peça do dramaturgo Nelson Rodrigues do que com a família da propaganda da TV. Como um estudante da minha aula na The School of Life sugeriu: “Família disfuncional é um pleonasmo”. Em outras palavras, se você olhar bem de perto, todas as famílias são cheias de conflitos, tensões e ovelhas negras. Então como devemos lidar com a nossa?

Se relacionar bem com os parentes exige entendimento

O primeiro passo, talvez, é reconhecer que todas as famílias são disfuncionais de um jeito ou de outro. Aquelas fotos lindas que vemos de nossos amigos no Facebook com seus filhos, pais, primos são apenas um capítulo de uma história maior – e muito mais complicada. Boa parte da raiva que sentimos por nossa família, então, pode vir do abismo cavernoso que existe entre nossas expectativas e a realidade nua e crua. No final, queremos que ela seja uma fonte de calma e segurança, mas ela é a origem de muita dor e conflitos.

Se formos um pouco mais fundo, como a psicanalista austríaca Melanie Klein afirmou que devemos fazer, poderemos reconhecer que uma das causas desses conflitos é a expectativa de que o amor de nossa família precisa ser, em si mesmo, perfeito. Pode ser doloroso amadurecer e descobrir que nossos pais não são os seres infalíveis que achávamos que eram e que seu amor pode nunca satisfazer completamente a necessidade de atenção de nossa criança interior. Contudo, reconhecendo e aceitando que o amor é imperfeito, podemos começar a seguir em frente. Talvez com um pouco de criatividade a gente consiga sacudir alguns dos elementos de se relacionar bem com os parentes próximos e formar algo novo e mais satisfatório.

Um novo olhar

Na aula da The School of Life Como se Relacionar com a Sua Família, uma das primeiras coisas que fazemos é olhar para nossos pais, avós e irmãos com novos olhos. Ao desenharmos um mapa familiar, buscamos pensar nesse núcleo como um sistema, que influencia quem somos e sobre o qual exercemos nossa influência. Podemos descobrir padrões de comportamento ou valores compartilhados e também perceber que outras pessoas – talvez um professor ou vizinho – tiveram um papel importante em moldar quem somos. Ao olharmos para nossos parentes como um sistema, também começamos a explorar novas formas de nos relacionarmos com eles. Quero compartilhar três maneiras de fazer isso.

Se quisermos mesmo seguir em frente e sarar a dor que nossa família possa ter nos causado no passado, um dos primeiros passos que devemos considerar é o perdão. Dependendo do tipo de relação, esse sentimento pode ser extremamente difícil, mas estudos demonstraram que a falta dele pode criar uma avalanche de hormônios de estresse com o passar do tempo e ter um impacto negativo de longo prazo sobre nossa saúde. Resumindo: o perdão pode nos deixar não apenas mais felizes mas também mais saudáveis. Separar um momento para lembrar as vezes em que fomos perdoados e o que isso significou para nós pode ajudar a nos dar a força e a coragem para fazer o mesmo com os outros.

Relacionar bem com os parentes pode ter a ver com a gente

Uma segunda estratégia para melhorar essas relações envolve mudar nosso papel dentro delas. Podemos ter ficado amarrados a antigos hábitos ou velhas maneiras de nos relacionarmos uns com os outros, e às vezes um choque no sistema pode trazer mudanças. Que tal fazermos para um parente algo que ele normalmente faz por nós, como preparar um almoço ou comprar um presente? Podemos visitá-lo em um horário incomum ou trazer um novo amigo, que talvez mude a dinâmica. Podemos até querer pensar em um plano de longo prazo para alterar nossa relação, talvez ao nos comprometermos com um projeto em conjunto com a duração de um ano, como idas mensais ao teatro ou a pesquisa da árvore genealógica.

Finalmente, que tal ampliar nossa definição de família e incluir os amigos? O sociólogo e historiador inglês Jeffrey Weeks elaborou essa ideia, desenvolvendo o conceito de “famílias por escolha”. Ele argumenta que somos livres para criar núcleos. E, segundo outro historiador, o francês Theodore Zeldin, ao olharmos para fora e ampliarmos a noção de identidade para além dos limites de nossa família de sangue, podemos construir vidas mais socialmente envolvidas e satisfatórias.

Pertencimento

No entanto, embora sejamos capazes de reinventar esse tipo de relação, não queremos virar as costas para aquela que temos. Como um estrangeiro que vive no Brasil há 12 anos, inicialmente fiquei chocado com quanto tempo os brasileiros passam com suas famílias. Entre churrascos de domingo e visitas à sogra no meio da semana, simplesmente não dá para escapar delas! Só que, à medida que o tempo passou e tive filhos, comecei a ver esses parentes como algo a valorizar. Eles são uma fonte de confiança, amizade e amor. Minha família estendida brasileira se tornou, para mim, um espaço no qual fui aceito pelo que sou e onde encontrei uma sensação de pertencimento.

Em minha última visita ao Reino Unido, onde nasci, fiquei chocado com a quantidade de pessoas vivendo nas ruas. Por isso, não consigo deixar de pensar que um dos motivos fundamentais desse fenômeno é o rompimento de redes familiares. Uma família pequena e nuclear pode ser algo bom, mas, quando não funciona, frequentemente, não há uma tia ou um avô que possam oferecer uma alternativa.

Aceitar, às vezes, faz parte

Então talvez consigamos algum consolo ao aceitar que nenhuma família, incluindo a nossa, é perfeita. Mas que, com um pouco de raciocínio claro e aceitação, as coisas não precisam ser sempre do mesmo jeito dentro do espaço que as congrega. Sentir-se frustrado no “relacionar bem com os parentes” é normal (a romancista britânica Fay Weldon uma vez disse: “Você pode acreditar que é uma boa pessoa, mas, depois de ter filhos, entende como guerras começam”). Nossa capacidade de lidar criativamente com as frustrações da vida pode ser o determinante mais importante de nossa própria felicidade.

James Allen é graduado em ciências políticas e sociais pela London School of Economics e possui MPhil do Institute of Development Studies da Inglaterra. Desde 2005, mora e trabalha em São Paulo, onde é sócio-fundador da consultoria de sustentabilidade LAB e professor da The School of Life.


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